Embora não fosse nobre,
meu pai deixou — que nobreza —
em seu nome honrado e pobre,
minha única riqueza.
(José Corrêa Villela)
Embora não fosse nobre,
meu pai deixou — que nobreza —
em seu nome honrado e pobre,
minha única riqueza.
(José Corrêa Villela)
De ser magro, minha gente,
não tenho — confesso — mágoa,
o rio, em sua nascente,
é também filete d’água.
(Carlos Ribeiro Rocha)
Dona do Lar, 1944
Colette Pujol (Brasil, 1913 -1999)
óleo s tela, 46 x 38 cm
Abel Silva
E então começou a acontecer comigo
de encontrar a todo instante minha mãe.
Passo na fila da carne
lá está ela esperando a vez
chego comovido e irritado
vou tocar-lhe o ombro e dizer
bobagem, mãe!
pede a carne pelo telefone
mas logo percebo o engano me afasto
e a senhora desconhecida
ganha mais um metro na direção do balcão.
No táxi
vou gritar ao motorista que pare
minha mãe está na esquina sob o sol
não há dúvidas é ela
se protegendo da chuva sob a marquise
perplexa no arrastão ondeante de corpos esguios
perigosamente lenta na correnteza de meninos sem mãe
subitamente estrangeira
(minha mãe tão brasileira!)
sob códigos confusos
minha mãe nas mulheres entrevistadas pela TV
reclamando dos preços absurdos de tudo
nos bancos da rodoviária
na fila dos aposentados
minha mãe se multiplicando pelas ruas de minha cidade
onde carrego meu buquê de esperanças devastadas e sonhos implodidos
um mil séculos-luz longe do ninho
do ponto obscuro
uterino
de que hoje sou futuro.
Em: Mundo delirante: poesias, Abel Silva, Rio de Janeiro, Europa: 1990, p. 88
Eu e a vida estamos quites
pois, se de modo severo,
a vida me impõe limites,
eu, quase sempre os supero…
(Luna Fernandes)
Sansão e Dalila, 1610
Peter Paul Rubens (Flandres, 1577 — 1640)
óleo sobre madeira, 185 x 205 cm
National Gallery, Londres
Raquel Naveira
Dalila reclinou-se sobre o divã,
Entre sedas e cetins,
O vestido de veludo vermelho rasgou-se,
Os seios volumosos,
Maçãs douradas,
Brilharam no escuro,
Sansão tocou-os como se fossem lâmpadas;
No alto,
Num nicho na parede,
A deusa Vênus
Observava a cena.
Cheia de prazer,
Toda lisa,
Cor de carne,
Cor de sangue,
Cálida Dalila.
Tentara prender Sansão
Com cordas de nervos,
Frescas e úmidas,
Com fios urdidos no seu tear de intrigas,
E agora,
Ei-lo ali,
Adormecido,
O torso curvado de paixão
Sobre seus joelhos.
Dalila sorri,
Segura as rédeas,
A crina,
Mechas de cabelo
Do homem que ela domina.
Afia a tesoura,
Corta a corrente de força
Numa estranha cirurgia,
Fura-lhe os olhos
Enquanto ele geme,
Cego de desejo.
Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, p.172-73
Se tu jamais foste minha,
se nunca fui teu também,
posso ir só, que irás sozinha…
Ninguém perde o que não tem!
(Antonio Carlos Teixeira Pinto)
Cigarras e passarinhos,
no presépio das florestas,
entoam dentro dos ninhos:
“Feliz Natal! Boas Festas!”
(José Corrêa Villela)
Pequenez é coisa feia?
Grandeza é documentário?
— Pequeno é o grão de areia,
mas enguiça um maquinário.
(Carlos Ribeiro Rocha)
Todo dia, o dia inteiro,
É dia dos namorados.
Se o amor é verdadeiro,
Serão dois abençoados.
(Maria Eunice Silva de Lacerda)
Joga o teu pião, menino,
aproveita a brincadeira,
que a fieira do destino
vai jogar-te a vida inteira…
(Edgard Barcellos Cerqueira)







