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Minha sombra, ilustração de Margaret Tarrant.
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No meu humilde viver
a solidão é tamanha,
que só me falta perder
a sombra que me acompanha…
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(José Carlos Lery de Guimarães)
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No meu humilde viver
a solidão é tamanha,
que só me falta perder
a sombra que me acompanha…
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(José Carlos Lery de Guimarães)
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José Paulo Moreira da Fonseca
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No azul desse mar distante
Porei uma nau feito as que de lá me trouxeram novas
De serpentes entre as algas
Que à sombra dos mastros igualmente vou desenhando
E ainda uma diurna costa com verdes palmas,
Flores rubras, pássaros e lagartos
Que sejam ornamento e nos fale da estranheza.
E porei, além, uma póvoa de aborígenes
E mais além, porque tudo ignoramos,
Cumpre-me deixar a carta em branco,
Sem palavras nem contornos,
Tão-só indagação, casta e silenciosa,
Como a do papel em que escrevo.
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Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968
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Pedro Bandeira
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Irmão menor
É pior
que catapora
irmãozinho
é pior do que carniça,
É pior do que injeção.
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Mexe no que é meu,
rabisca meu caderno,
perde meu carrinho,
e eu fico de castigo
se lhe dou um safanão.
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É praga, é prega,
é sarampo, é varicela!
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E não venha
achar estranho,
só porque dei uma surra
no danado do moleque
que xingou o meu irmão.
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Eu posso xingar,
Os outros não.
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Pato Donald encontra um sinal de sorte, ilustração Walt Disney.–
A sorte tem seus encantos,
seus agrados, seus engodos;
às vezes agrada a tantos,
mas jamais agrada a todos
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(Amália Max)
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Eu morro por Filomena,
Filomena por Joaquim,
Joaquim por Madalena
e Madalena por mim.
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(Belmiro Braga)
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Domingos Pellegrini Jr.
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1
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A carne-de-sol na sombra
das barracas de alvaiade
Quarenta cachorros magros
Ninguém pode ter piedade
C’uma costela de vaca
a fome toca rabeca
no coração da cidade.
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A feira dura três dias
não deixa sobra nenhuma
Cada velho cada menino
é doutor de economia.
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Um cego vendendo um bode
garante que produz leite
coalhada até requeijão
— Mas, cego, como é que pode?
O cego apenas responde:
— Hoje quem faz propaganda
não aceita discussão.
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2
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Mas cadê aquela feira
que irmão abraçava irmão
Fateira entregava a concha
pra mexer no caldeirão
Feirante botava a fruta
na boca do cidadão
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Se não gostou, não comprava
Se azedou, devolvia
Se não vendia, era dado
Freguês pagava outro dia
Morria, era perdoado
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Hoje são outros 500
São outros tempos, meu mano
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O cego vendeu o bode
— Vendi, e sem garantia
Tinha mais de 30 anos
não vive mais 30 dias
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Negócio tipo moderno.
Hoje aqui ninguém mais fia.
Quem pode, financia.
Quem não pode, vá pro inferno.
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Em: Poesia viva 2: a diversidade de nosso tempo na visão de cada poeta, coord. e sel. Moacyr Félix, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1979
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Murilo Araújo
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Chove; chove e choveu a noite inteira.
A vidraça está cheia de pinguinhos;
a água chora cantando na goteira…
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Que dó dos passarinhos!
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Quanto vento! Que frio! Chove tanto…
As roseiras estão que é só espinhos.
As florinhas deviam ter um manto:
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Que pena dos raminhos!
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E agora, quando a chuvarada arrasa,
passam meninos pobres nos caminhos.
E agasalha tão bem a nossa casa…
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Façam entrar depressa os pobrezinhos!
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Em: Poemas completos de Murilo Araújo, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti:1960
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Floresta, ilustração de Sérgio Bastos.–
Busque enfrentar desafios,
preserve a mãe natureza:
— Nossa flora, fauna e rios,
fontes de nossa pureza.
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Crianças no palco, autoria desconhecida.–
No teatro iluminado,
o bom ator se angustia,
ao ver entre o cortinado
uma platéia vazia.
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(Antônio V. Ruffato)
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Paisagem, s/d
Omar Pelegatta (Brasil, 1925-2000)
óleo sobre eucatex, 34 x 26cm
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Só então conseguiu observar bem o aspecto do vilarejo onde estava.
O Pequiri consta, na realidade, de uma única rua e de uma pequena praça. A rua, na maior parte da sua extensão, só tem casas de um lado, visto que o outro é ocupado pelo leito da estrada de ferro. Em consequência dessa disposição ingrata, as casas, em sua maioria, dão fundos para a montanha, rude maciço de impressionante altura. Em frente à pequena capela do povoado fuçava a praçazinha, que bem quereria ser retangular e plana, mas que não realizava a contento nenhum desses louváveis propósitos. À esquerda da via férrea havia algumas casas, construídas onde foi possível obter área bastante para elas.Tais edificações, eretas à borda do precipício, apresentavam a singularidade de serem térreas na parte da frente, e de grande altura na nos fundos, o que se explica pelo brusco declive do terreno.
“Como se teria formado uma povoação nestas grimpas?” interrogava o jovem médico a seus botões. “Uma enxurrada mais violenta bem pode arrastar essas casas e precipitar os escombros no abismo. Seria prudente criar naquela topografia absurda, naquele desconforto, um estabelecimento destinado a grande atividade e futuro?
Mas… por outro lado, que pureza de ar! que limpidez de céu! que brisa agradável! Montanhas enormes e plácidas, cobertas de vegetação espessa, fechavam o horizonte ao oriente. Uma escarpa mais elevada que todas, e separada das demais por profundas grotas, atirava-se para o alto na ânsia temerária de escalar o azul.
Em compensação, abria-se do lado oposto, o imenso vale do rio Paraíba do Sul, ondeando de colinas verdejantes, até a serrania da Bocaina, muito longe, para o lado do nascente.
Que pureza de ar! que limpidez de céu! que brisa agradável! O gorjear da passarada harmonizava-se bem com o murmúrio da água, cascateando nas grotas, por toda a parte. Certamente, não se poderia encontrar mais serena estância para o corpo e para o espírito! Bem inspirado aquele que se lembrou de localizar ali um centro de estudo, e de trabalho benfazejo!”
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Em: Majupira (romance brasileiro da atualidade, 1930-1934), J. B. Mello e Souza, São Paulo, Saraiva:1949. Capítulo: Pelo Caminho dos Bandeirantes.