Jovem lendo em frente a casas em rua residencial
David Woodlock (Inglaterra, 1842-1929)
aquarela, 28 x 22 cm
Jovem lendo em frente a casas em rua residencial
David Woodlock (Inglaterra, 1842-1929)
aquarela, 28 x 22 cm
O jardim de inverno, 1883
Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1944)
óleo sobre tela, 63 x 80 cm
Coleção Particular
Meus avós moravam na Tijuca, no Rio de Janeiro. Sou a mais velha da família de minha mãe, que era a mais velha das filhas. Passei muito tempo com meus avós. Nós nos víamos regularmente, mas depois de meu primeiro irmão nascer, com mais assiduidade, quando meus pais saíam à noite ou quando meus avós queriam viajar. Aos seis anos, comecei a viajar com eles, que também eram meus padrinhos. Fomos a cidades turísticas, cidades das águas em Minas Gerais, às cidades serranas fluminenses e até São Paulo, onde mais tarde uma de minhas tias morou. Era sempre um prazer estar com eles, desfrutar dos quitutes de vovó, e das brincadeiras de meu avô, que exercitavam meu vocabulário.
Tenho memórias detalhadas da casa deles, onde eu dormia no quarto cor de rosa. Estive lá frequentemente, porque ainda criança, acompanhei os namoros e noivados de minhas tias, irmãs mais novas de mamãe. Fui dama de honra de ambas em seus casamentos: aos quatro e aos seis anos respectivamente. Justo trabalho para quem havia sido companhia perpétua do casal de namorados, garantindo que nada de estranho acontecesse enquanto passeavam juntos. Digo isso em tom divertido, porque ganhei incríveis presentes nessa época segurando vela. Eram balas, passas em caixinha, que eu adorava, passeios de carrinho de bode, na Praça Afonso Pena, uma atividade atrás da outra, um agrado a cada saída. Fui comprada, sim eu tinha preço!
Frequentar a casa de meus avós maternos trouxe benefícios décadas mais tarde. Adulta, me encontrei encantada por móveis antigos, seduzida pelo cheiro de madeira e pelo perfume de óleo de peroba. Quando abri minha galeria de arte moderna e móveis de fazenda, dos séculos XVIII e XIX, nos EUA, combinação que deu certo, nem sei bem as razões, entrei num período de vida gratificante.
Meus avós tinham um mobiliário do estilo manuelino, pesado, em jacarandá escuro com colunas nas beiradas, serpentinadas e ornamentos nos almofadões das portas. Tudo finalizado por pés de bolacha, enquanto as cadeiras tinham costas e assentos de couro escuro trabalhado com desenhos abstratos e uma carreira de tachas de latão a toda volta dos assentos e espaldares. Toda a sala de jantar era nesses móveis favoritos no país desde o tempo colonial, mas os de meus avós provavelmente datavam de seu casamento nos anos 20. Na sala de jantar, um grande bufê, uma cristaleira, um pequeno bufê e a mesa gigantesca para doze pessoas, as cadeiras enchiam o espaço. Havia também um móvel só de gavetas pequenas, no mesmo estilo, que mais tarde soube chamar-se um contador. Ficava no hall entre a sala de jantar e o escritório de vovô. Um móvel bar, espelhado por dentro, detalhe que me fascinava, guardava garrafas de todo tipo de bebida e alguns copos de cristal. Outros cristais encontravam-se na cristaleira.
A sala de estar tinha móveis que hoje chamaríamos Art Déco dos anos 30-40, com linhas retas, poltronas cujos braços de madeira formavam arcos do pé da frente da cadeira até o chão do pé detrás e estofamento de couro verde escuro. Havia cinzeiros de pé para os homens que fumavam – só eles fumavam – e abajures de pé para o conforto da leitura quer na poltrona, quer no sofá no mesmo estilo. Havia ali, também um rádio vitrola que embalava em momentos familiares uma dança improvisada de meus pais e tios em momentos descontraídos durante domingos em família.
O móvel bar ficava em uma das salas de estar, a mais próxima do jardim de inverno, que nada mais era do que uma espaçosa varanda completamente fechada com vidro. Lá estavam plantas exuberantes, como manda a flora tropical, vasos de parede com plantas ‘choradeiras’. Num canto a figura de Ceres, com uma braçada de trigo, toda em cerâmica branca, imitando mármore, que dominava um dos lados da varanda, instalada num pedestal de ferro. No outro lado, na mesma cerâmica branca, vitrificada, estava seu par, a deusa Fortuna, com pedestal gêmeo. Essa tinha olhos vendados e uma cornucópia nos braços, transbordando frutas. Foram as primeiras deusas clássicas com que me familiarizei: agricultura e sorte. O jardim de inverno era meu lugar favorito da casa de meus avós, parecia uma pequena amostra das florestas tropicais que cobriam os morros da antiga Tijuca, ainda não tomados por comunidades. Meu outro lugar de fascínio era o escritório de vovô, com perfume do cachimbo a que ele se dedicava após o jantar e que era coberto de livros nas estantes com portas de vidro de correr.
O jardim de inverno tinha móveis bem mais modernos, de madeira cor de mel, com acabamento de fibras naturais, feitos rechonchudos e acolhedores pelas almofadas estampadas com folhagens e pássaros nas costas e assentos. O jardim de inverno trazia para dentro de casa, o convívio com a natureza sem os perrengues dos mosquitos ou insetos indesejáveis. Havia duas mesas pequenas. A de ferro com tampo de vidro e a de madeira. Lembro-me de jogar cartas com vovó nessas mesas: jogo da memória. Apesar de meus avós terem duas salas de estar, era no jardim de inverno que vovô recebia seus amigos. Hoje percebo que havia algo do período vitoriano nesse local, algo que de vez em quando vejo retratado em quadros ingleses do século XIX.
Na casa deles não havia o luxo dos tapetes no jardim de inverno que vemos em cenas europeias, mas a própria exuberância das samambaias choronas, descendo parede abaixo de vasos pendurados de encontro às paredes, era experiência única. Cuidadas por vovó, em grandes vasos de faiança colorida, com relevos, havia até mesmo pequenas árvores de uns dois metros de altura que faziam o ambiente íntimo e úmido, com um leve cheiro de mato. No jardim, havia algumas plantas que mais ou menos desapareceram dos jardins atuais: manacás, jasmins, bambu da sorte, pacová.
Hoje, procurando algumas ilustrações para postagens no blog me deparei com a representação do Jardim de Inverno de Frances Jones Bannerman, que coloquei acima. E uma onda de flashes, cenas de um passado muito longínquo me entreteve por umas horas. Acho que lidar com as fotos de antepassados que vou passar para meus sobrinhos está abrindo os portões das lembranças, propiciando que eu tire algumas conclusões sobre as raízes de certos interesses meus. Foi uma boa tarde de domingo. Que seja a premonição de uma ótima semana para mim e para todos nós!
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2026.
Interior com senhora sentada, 1967
John Koch (EUA, 1909-1978)
óleo sobre tela, 87 x 56 cm
Natureza morta com flores, 1873
Atribuído a Agostinho José Da Mota (Brasil,1824–1878)
óleo sobre tela, 55 x 68 cm
PINA, [Pinacoteca do Estado de São Paulo]
Flores no jardim
Armando Vianna (Brasil,1897 – 1992)
óleo sobre tela, 53 X 72 cm
Arcos da Lapa, 1965
Tadashi Kaminagai Tadashi (Japão-França, 1899-1982)
óleo sobre tela, 39 x 59 cm
Natureza morta, 1953
Iberê Camargo (Brasil,1914-1994)
óleo sobre tela, 38 x 46 cm
Natureza morta
Lucy Citti Ferreira (Brasil, 1911-2008)
óleo sobre tela, 55 x 46 cm.
Natureza morta com pães, 1969
Johannes Hendrick Eversen (Holanda, 1906-1995)
óleo sobre tela, 41 x 61 cm
Mara Senna
Pão dormido vira pedra.
Amor também.
Se achas que não,
explica-me, então.
Deve haver algum lugar
para onde vão
as histórias de amor
sem continuação.
Em: Ensaios da tarde. Ribeirão Preto, SP: Editora Coruja, 2012.

O Siroco, 1909
Jan Ciaglinski (Polônia, 1858-1912)
óleo sobre tela, 29 x 37 cm
Museu Nacional da Cracóvia
“Richard então se lembra de que, passeando entre videiras com um colega vienense por ocasião de um simpósio no sul da Áustria, o colega de repente se deteve, inspirou profundamente o ar e perguntou-lhe se também ele estava sentindo o cheiro: o siroco vem da África, disse, atravessa os Alpes e, às vezes, chega mesmo a trazer consigo areia do deserto. E, de fato, nas folhas das videiras podia-se ver uma fina camada de poeira avermelhada vinda da África. Richard passou o dedo por uma das folhas e notou como aquele pequeno gesto de súbito deslocava seu ângulo de visão e seu senso de medida.”
Em: Eu vou, tu vais, ele vai, Jenny Erpenbeck, tradução de Sergio Tellaroli, Cia das Letras: 2024
Duas notas:
1 – Esse talvez tenha sido o livro que li em 2025 que mais me impactou. Certamente estaria entre os três primeiros do ano passado, no início do ano. Recomendo. Esse meu final de ano foi tão conturbado, e ainda não está normal, que nem a lista dos melhores do ano eu fiz. Que vergonha!
2 – Conheci o Siroco no ano em que morei na Norte da África acompanhando meu marido professor convidado pela Universidade de Oran. É realmente um fenômeno sem igual. O céu se torna avermelhado com o colorido do sol se pondo. É a nuvem de areia do deserto que passa muito acima da terra, em direção à Europa. Deixa, de fato, uma finíssima camada de pó (não é areia) avermelhado ao longo do caminho que faz em direção norte.
À beira-mar, 1878
James Tissot (França, 1836–1902)
óleo sobre tela, 112 x 85 cm
Museu de Arte de Cleveland

Anjos, 1965
Raimundo de Oliveira (Brasil, 1930-1966)
óleo sobre tela, 80 x 120 cm
“Olhe para o Brasil em termos de religião. O que é o Brasil? Aqui, como dizia Guimarães Rosa, quanto mais religião, melhor; você tem um amigo judeu, você pede para o rabino dele lhe abençoar, você tem um amigo do candomblé, você pede para a mãe de santo dele dar uma bênção, ao amigo muçulmano, você pede uma intervenção do xeique, padre, pastor, o que vier está valendo. Essa é bem a mentalidade brasileira religiosa. Antropólogos dizem que isso é possivelmente herdado dos índios brasileiros, que continuavam a praticar as suas crenças, mas, quando o padre vinha, aprendiam o pai-nosso, e quando o padre ia embora, retornavam às suas crenças. Então a gente ficou meio vadio com religião. Você assimila a religião que melhor pegar naquele momento. É claro que, quando se introduz a cunha do mercado, como a gente vive hoje, tudo vira produto.”
Em: Diálogos sobre a natureza humana: Perfectibilidade e Imperfectibilidade, Luiz Felipe Pondé, Versos Editora: 2023
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