Da minha mesa de trabalho…

15 01 2026

 

Reorganizar o escritório não é fácil.  E nem é só organizar livros.  Em geral organizamos de quebra,  papelada, gavetas da escrivaninha, dos armários, dos móveis à nossa volta. Minha cortina, ainda não chegou.  Espero há um mês.  Trabalhar com o computador virado para o janelão requer o uso de um boné, cuja aba quebra a luz entrando.  O caos ainda não foi domado.

Tenho três gavetas com fotos da família. Não só da minha geração.  Tenho fotos de meus bisavós, sei quem são, seus nomes, de onde eram.  Meus pais tiveram cuidado de nos informar sobre isso.  Acabei com as fotos, porque minha mãe morou comigo nos últimos anos de vida.  Herdei a documentação iconográfica da família.  E ontem consegui uma companhia que irá multiplicar as fotos, para que cada sobrinho tenha fotos de todos com seus rótulos, quem é quem, onde estavam, de onde vieram. Esse será parte do meu legado.

Esse tempo todo, selecionando fotos, organizando a família por lado de mãe e pai, trouxe reflexões que provavelmente aparecerão em escritos futuros, mesmo que de forma oblíqua. Com essa tradição familiar,  eu me lembrei do choque que ainda tenho, toda vez que vou a uma feira de coisas antigas, como na Praça Quinze de Novembro aqui no Rio de Janeiro, ou na Praça Santos Dumont e vejo dezenas de fotos, abandonadas por famílias que se desfizeram dos bens de algum familiar já falecido. Não ligar para fotos de antepassados que não conhecemos, é comum.  Não é  fenômeno brasileiro.  O mesmo acontece no exterior, no mercado das pulgas parisiense, na feira de usados da Praça das Armas em Madri, nas feiras americanas, nos leilões de espólios nos EUA. É comportamento mundial.  A minha régua é que não é a mesma. Talvez seja a historiadora em mim.

 

Esta família, pai, mãe e filhos, não conheci.  Mas o senhor é um antepassado.  Foto de 1912.  

 

Eu pouco sabia sobre essa foto. Hoje sei exatamente quem são, onde moraram, quando morreram. O senhor, eu sabia quem era. Mas a esposa dele, a informação que tinha era: “a irmã do Eusébio”.  Quem era Eusébio?  Como se chamava sua irmã? Fui atrás das respostas.  Hoje sei o nome de todos e sua saga. Preenchi alguns espaços em branco e com imaginação completei outros. Sei, por exemplo, que os três filhos, aí na foto, morreram jovens.  Todos três de gripe espanhola, em anos diferentes. Morreram em Liège, na Bélgica.  Esses dados, foram registrados num livro de preces, notas nas margens, numa caligrafia fininha, letrada.  Há a listagem da temperatura das febres de cada paciente, e a data de sua morte. Triste.  Devem ter sofrido muito. Os pais voltaram para o Brasil depois da tragédia, uma década após se mudarem para a Europa.  Ele, que havia sido imigrante português, morreu no Brasil em 1944. 

Ando perdida nesse passado que não conheci, mas que de alguma maneira é meu. Um momento ímpar, de pausa e reflexão.  Nada mal para um início de ano. 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2026.

 

 

 





Marinheiro, poema de Ladyce West

14 01 2026

eastman_judge6jun25

Capa da Revista Judge, de junho de 1925, com ilustração de Ruth Eastman.
Marinheiro

Ladyce West

Sou marinheiro de muitos mares,
De vários pares, de poucos lares,
De rumo impreciso,
De longos caminhos.
Redemoinhos…
Sou marinheiro de muitas águas
E poucas mágoas.
Destino traçado
Nas sombras das vagas
Em promessas pagas
No fluxo do amor

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

(Poesia escolhida e publicada no Desafio da Poesia de 2014, e esquecida na gaveta até hoje. Rs…)

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Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

14 01 2026

Natureza morta, 1953

Iberê Camargo (Brasil,1914-1994)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm

 

 

Natureza morta

Lucy Citti Ferreira (Brasil, 1911-2008)

óleo sobre tela,  55 x 46 cm.





Todo mundo lê!

13 01 2026
Ilustração Hans De Beer (Holanda, 1957).




Limbo, poema de Mara Senna

13 01 2026

Natureza morta com pães, 1969

Johannes Hendrick Eversen (Holanda, 1906-1995)

óleo sobre tela, 41 x 61 cm

 

 

Limbo

 

Mara Senna

 

 

Pão dormido vira pedra.

Amor também.

Se achas que não,

explica-me, então.

Deve haver algum lugar

para onde vão

as histórias de amor

sem continuação.

 

 

Em: Ensaios da tarde.  Ribeirão Preto, SP: Editora Coruja, 2012. 





O Siroco, texto de Jenny Erpenbeck

11 01 2026

O Siroco, 1909

Jan Ciaglinski (Polônia, 1858-1912)

óleo sobre tela, 29 x 37 cm

Museu Nacional da Cracóvia

 

 

 

“Richard então se lembra de que, passeando entre videiras com um colega vienense por ocasião de um simpósio no sul da Áustria, o colega de repente se deteve, inspirou profundamente o ar e perguntou-lhe se também ele estava sentindo o cheiro: o siroco vem da África, disse, atravessa os Alpes e, às vezes, chega mesmo a trazer consigo areia do deserto. E, de fato, nas folhas das videiras podia-se ver uma fina camada de poeira avermelhada vinda da África. Richard passou o dedo por uma das folhas e notou como aquele pequeno gesto de súbito deslocava seu ângulo de visão e seu senso de medida.”

Em: Eu vou, tu vais, ele vai, Jenny Erpenbeck, tradução de Sergio Tellaroli, Cia das Letras: 2024

 

 

Duas notas:

1 – Esse talvez tenha sido o livro que li em 2025 que mais me impactou. Certamente estaria entre os três primeiros do ano passado, no início do ano.  Recomendo.  Esse meu final de ano foi tão conturbado, e ainda não está normal, que nem a lista dos melhores do ano eu fiz.  Que vergonha!

 

2 – Conheci o Siroco no ano em que morei na Norte da África acompanhando meu marido professor convidado pela Universidade de Oran.  É realmente um fenômeno sem igual.  O céu se torna avermelhado com o colorido do sol se pondo.  É a nuvem de areia do deserto que passa muito acima da terra, em direção à Europa.  Deixa, de fato, uma finíssima camada de pó (não é areia) avermelhado ao longo do caminho que faz em direção norte. 





Em casa: James Tissot

11 01 2026

À beira-mar, 1878

James Tissot (França, 1836–1902)

óleo sobre tela, 112 x 85 cm 

Museu de Arte de Cleveland





Religião no país, texto de Luiz Felipe Pondé

10 01 2026

Anjos, 1965

Raimundo de Oliveira  (Brasil, 1930-1966)

óleo sobre tela, 80 x 120 cm

 

 

 

 

“Olhe para o Brasil em termos de religião. O que é o Brasil? Aqui, como dizia Guimarães Rosa, quanto mais religião, melhor; você tem um amigo judeu, você pede para o rabino dele lhe abençoar, você tem um amigo do candomblé, você pede para a mãe de santo dele dar uma bênção, ao amigo muçulmano, você pede uma intervenção do xeique, padre, pastor, o que vier está valendo. Essa é bem a mentalidade brasileira religiosa. Antropólogos dizem que isso é possivelmente herdado dos índios brasileiros, que continuavam a praticar as suas crenças, mas, quando o padre vinha, aprendiam o pai-nosso, e quando o padre ia embora, retornavam às suas crenças. Então a gente ficou meio vadio com religião. Você assimila a religião que melhor pegar naquele momento. É claro que, quando se introduz a cunha do mercado, como a gente vive hoje, tudo vira produto.”

Em: Diálogos sobre a natureza humana: Perfectibilidade e Imperfectibilidade, Luiz Felipe Pondé, Versos Editora: 2023





Flores, porque hoje é sábado…

10 01 2026

Vaso com flores, 2001

Stella Bianco (Brasil, 1944)

óleo sobre tela, 80 x 97cm

 

 

Vaso com flores, 2002

Sou Kit Gom (Brasil, 1973)

acrílica sobre tela. 115 x 115 cm 





Da janela vê-se o Corcovado…

9 01 2026

Vista de Paquetá, 1959

Francisco Coculilo (Brasil, 1893 -1971)

óleo sobre tela, 32 x 42 cm