Wega Nery (Brasil, 1912-2007)
óleo sobre tela, 59 x 60 cm
Steve Henderson (EUA, contemporâneo)
óleo sobre painel de madeira, 60 x 50 cm
Nora Webster é um livro que retrata de maneira perspicaz o momento de passagem imposto, à revelia de quem o enfrenta, pela morte inesperada de um consorte. A narrativa se concentra na protagonista que dá nome ao livro, resoluta viúva de quarenta anos, com quatro filhos, dois ainda crianças. Nora passa por um processo de auto-conhecimento após a morte de Maurice Webster, seu marido, professor do ensino médio. Esse processo revela a ela e a seus familiares e conhecidos aspectos de sua personalidade que inexistiam, ou melhor, que haviam permanecidos dormentes nos anos do casamento.
Vivendo numa pequena cidade ao sul da Irlanda, Nora tem vida circunscrita. Não só pelo casamento, mas também pelo comportamento dos habitantes de Enniscorthy, cidade onde mora que, como na maioria de pequenos centros urbanos, tomam conta e observam os hábitos de todos que ali moram. Esse constante vigiar das ações dos outros só aumenta após a viuvez de Nora, e ela se cansa dos cuidados que seus vizinhos e conhecidos dispensam. Sente-se tolhida por tanta comiseração. Além da vida na pequena cidade controlar o comportamento dos moradores, outras forças sociais estão presentes: a pressão da igreja católica, o movimento sindicalista dos trabalhadores e as escaramuças armadas entre a Irlanda do Norte e a Irlanda que culminaram no final da década de 1960, chamadas de The Troubles, (Na Trioblóidí) que se prolongariam por três décadas. Todos aspectos que iriam dar forma aos rebeldes anos da década de 1960, anos de grandes movimentos sociais e, de quebra, com hábitos e costumes do passado, no ocidente.
Aos poucos, à medida que os três anos cobertos no livro se passam, Nora Webster descobre que encontrar seu próprio caminho pode não ser fácil. Depois de duas décadas casada, Nora se conscientiza de que muitas de suas opiniões sobre a vida, pessoas conhecidas, eventos políticos e até hábitos do dia a dia que haviam sido estabelecidos e adotados pelo casal, refletiam em grande parte a opinião de Maurice, seu marido, e não necessariamente sua opinião. Essa descoberta não vem de um momento de “Eureca!” mas em relâmpagos de constatação, quando pequenas ou grandes decisões exigem que sua opinião seja firme. No meio de um diálogo sobre política, no julgamento sobre ações de vizinhos ou colegas de trabalho, Nora Webster se pega sabendo o que Maurice diria. Até nos detalhes da vida familiar a onipresença de Maurice se faz sentir. Este é o caso da surpresa no prazer que Nora tem com a música, arte que havia sido ignorada pelo marido, e consequentemente por ela através de sua vida em comum.
Sutil é a palavra que define o desenvolvimento de Nora Webster. É pela sutileza que entendemos o processo de contínuo auto-descobrimento da protagonista, ainda que a tradição a condenasse a parâmetros que não aceita, mas em que a sociedade teima em enquadrá-la. Nora Webster não é a heroína ostensivamente combativa que poderíamos esperar para os anos 60 do século passado. É uma revolucionária só em sua própria vida, uma mulher introvertida, cheia de dúvidas, mas que não se apequena diante de decisões difíceis. Aos poucos descobre seus novos limites, uma vida diferente.
Colm Tóibín, © Heathcliff O’malley
Mesmo em meio a personagens importantes na história, dos filhos às irmãs, tia ou colegas de trabalho, é a ex-freira transformada em descobridora de talentos que abre para Nora a porta da vida futura. “Todos nós temos muitas vidas, mas existem limites. Nunca sabemos quais eles são.” [260]. A partir daí Nora passa a explorar novas vidas, suas vidas, ciente de que há muitas outras opções na vida do que aquelas que lhe haviam sido apresentadas. Nora passa a pressionar os acontecimentos até saber seus limites. Luta sozinha pela classificação de um dos filhos na escola; arranja novas acomodações numa viagem à Espanha, decide pintar o teto da sala por si só. São pequenos atos de exploração que podem ou não trazer resultados positivos, mas é justamente do testar sua potencialidade no dia a dia, que Nora ganha confiança de viver como bem entende.
Colm Tóibín trabalha vagarosamente descortinando o mundo de Nora Webster como ela o vê. Seu cuidado com detalhes permite que conheçamos o dia a dia, os pensamentos dessa heroína dos acontecimentos diários. Mas ele também é cuidadoso em não revelar tudo. Ao final temos a certeza de que há muito mais em Nora Webster do que sabemos. Há um lado que ficará para sempre inexplorado, guardado nas sombras de um casamento, no potencial imaginário de Nora, facetas que fazem dela um personagem esquivo, imponderável. Inesquecível.
Adoração dos reis magos, século XVIII
Atribuído a Francisco de Paula e Oliveira (Portugal, ?-?)
Painel de Azulejos pintados à mão
Igreja de Nossa Sra. do Rosário dos Pretos, Salvador
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)
óleo sobre tela
São muito poucas as pinturas que eu conheço celebrando a festa do Natal em que a árvore apareça. No Brasil, esta aí acima de Georgina de Albuquerque é a única que conheço. Minha coleção de imagens tem aproximadamente 85 telas. A maior parte, russa. Aqui ficam algumas delas.
Albert Chevallier Tayler (GB, 1862-1925)
óleo sobre tela
Alexei Mikhailovich Korin (Rússia, 1865 – 1923)
óleo sobre tela
Henry Mosler (EUA, 1841-1920)
óleo sobre tela
Oh, árvore de Natal
Hans Stubenrauch (Alemanha, 1875 – 1941)
óleo sobre tela, 28 x 19 cm
Elena Khmeleva (Rússia, 1966)
óleo sobre tela
Elizabeth Adela Stanhope Forbes (Canadá, 1859–1912)
óleo sobre tela
Nemakin Aleksandr (Rússia, contemporâneo)
óleo sobre tela, 100 x 120 cm
Anjos Cantores, Piero della Francesca,(1415-1492), óleo sobre madeira, National Gallery, Londres [DETALHE]
Natureza morta com uvas, caquis e flores
Monteiro Prestes (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 60 x 90 cm
Há muito tempo faço postagens neste blog sobre Cartões de Natal. Por muitos anos, na minha adolescência e jovem adulta, fui uma ávida colecionadora de cartões postais e acabei colecionando também cartões de Natal, ainda que com menor interesse.
Mais tarde, como historiadora da arte, tendo interesse principalmente em iconografia, comecei a prestar mais atenção aos símbolos do Natal. Todos eles acabaram sendo fascinantes para mim.
Postagens no blog em anos passados mostram algumas das minhas “preocupações”, ou seja algumas das observações que a coleção de imagens acaba levantando. Fiz postagens sobre o telefone e Papai Noel, sobre o carro de Papai Noel, sobre o Guarda-chuva de Natal, sobre sinos, anjos, os variados meios de transporte. Tudo está aqui postado unicamente nos meses de dezembro dos sete anos de blog.
Hoje, com a internet, é mais fácil descobrirmos cartões que não conhecíamos. É mais rápida a comparação entre cartões de diversos países e por isso mesmo nossas perguntas também são melhor posicionadas.
No Brasil a maioria dos cartões de Natal teve seu desenho feito no exterior. Era mais barato para as editoras, para as companhias de papelaria. Compravam os desenhos já feitos nos países desenvolvidos e não precisavam contratar um artista gráfico para fazer uma cena natalina.
As imagens estrangeiras vindas da Europa e dos Estados Unidos eram colocadas próximas a mensagens em português, em geral padronizadas como “Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.”
Uma consequência dessas escolhas nacionais é que perdemos a oportunidade divulgar entre os brasileiros e outros algumas de nossas vitórias. O exemplo que me vem à mente é justamente a propagação do avião como meio de transporte.
Tanto europeus quanto americanos num instante começaram a colocar Papai Noel viajando de avião. Avião como meio de transporte foi explorado em todas as décadas do século XX em cartões de Natal. Não só no ocidente. Mesmo a Rússia, na época do governo comunista, usou dessa imagem.
E nós, na terra de Santos Dumont, simplesmente ignoramos a possibilidade de fazer conhecido e brasileiros e estrangeiros um feito de tanta importância para a humanidade como esse de um conterrâneo nosso.
Como a seleção de cartões de Natal mostrada aqui, há uma variedade enorme de imagens de Papai Noel, que sempre procura estar à frente das mais variadas tecnologias da época.
E nem postei aqui alguns em que Papai Noel chega de zepelim. …