Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

21 01 2026

Natureza morta

Benedito José Tobias (Brasil, 1894-1963)

[B. J. Tobias]

óleo sobre tela, 44 x 58 cm

 

 

 

Natureza Morta

Domingos Gemelli (Brasil, 1915-1985)

óleo sobre tela, 54 x 60 cm

 

 

NOTA: são dezoito anos postando, duas vezes por semana, naturezas mortas, nesse blog. E vejo que tanto frutas, legumes, hortaliças, assim como  flores têm moda, têm épocas de apreciação.  Hoje, é raro encontrarmos alguma natureza morta com abóboras, como aparece nessas duas telas acima.  As naturezas mortas (da cozinha) mais recente, se limitam a frutas e legumes mais coloridos, como pimentões, cebolas.  Mas a preferência é sempre por frutas e quase nenhuma hortaliça.  Os verdes, das folhas, da couve, dos chuchus, da taioba, do repolho desapareceram da mesa dos nossos artistas plásticos.  Mesmo a banana já não aparece tanto, e o coco definitivamente pertence aos anos 40-60 do século XX.  Estamos mais restritos na dieta artística.  Pintores continuam a produzir natureza mortas, mas o que é retratado é diferente. Restrição semelhante acontece nos  vasos com flores. 





O “influencer” do passado, texto de Marcel Proust

21 01 2026

Músicos

Ricardo Medeiros (Brasil, 1955)

acrílica sobre tela

 

 

“Pois Saint-Loup pertencia a essa classe de rapazes aristocratas colocados numa altura onde é possível que brotem essas expressões: “É o que tem de bom, esse é o seu lado bom”, sementes assaz preciosas que logo determinam uma maneira de conceber as coisas, na qual não se vale nada e o “povo” vale tudo, quer dizer, exatamente o contrário do orgulho plebeu. Pelo que me contava Robert, não era possível imaginar como o seu tio, quando jovem, dava o tom e ditava a lei a todo mundo.

— Ele, da sua parte, fazia sempre o que lhe parecia mais agradável e cômodo, mas logo o imitavam os esnobes. Se lhe acontecia ter sede quando no teatro e mandava que lhe trouxessem alguma bebida ao camarote, já se sabia que na semana seguinte haveria refrescos em todos os corredores. Num verão muito chuvoso, sentiu-se um pouco reumático, e encomendou um sobretudo de vicunha muito fina, mas bastante quente, que só se emprega para mantas de viagem e respeitou o padrão do tecido, de listras azuis e laranja. Os grandes alfaiates receberam imediatamente encomendas de casacos de listras e bastante quentes. Se por qualquer motivo queria tirar toda solenidade a uma refeição em casa de campo onde estava passando o dia, e, para indicar esse matiz, não vestia casaca e sentava-se à mesa de jaqueta, ficava em moda jantar de jaqueta nas casas de campo. Se comia um doce e, em vez de colher, usava garfo ou um talher de sua invenção que havia encomendado a um ourives, ou o pegava com os dedos, já não era lícito fazer de outra maneira. Sentiu desejos de ouvir de novo certos quartetos de Beethoven, pois, com todas as suas ideias absurdas, não é nenhum bruto e tem talento, e encarregou uns músicos que fossem à sua casa um dia por semana, para executar aquelas obras, que ouvia com alguns amigos. E naquele ano considerou-se como suprema elegância dar reuniões íntimas em que se executava música de câmara. Parece-me que não deve ter-se aborrecido neste mundo! Com o seu belo tipo, não lhe devem ter faltado mulheres! Apenas não se sabe quais, pois é muito discreto. Bem sei que enganou bastante à minha pobre tia. O que não impediu que fosse muito bom com ela, que ela o adorasse, e que ele a tenha chorado por muitos anos. Quando está em Paris, vai quase diariamente ao cemitério.”

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana





20 de janeiro, dia de S. Sebastião, feriado no Rio de Janeiro!

20 01 2026

Sebastião, soldado do mundo, 1976

Mario Mendonça, (Brasil, 1934)

óleo sobre tela, 60 x 100 cm

 

 

 Nota: Mário Mendonça é um dos poucos artistas brasileiros modernos dedicado quase exclusivamente à arte sacra.  Mas São Sebastião ocupou, no Brasil, o imaginário de alguns outros artistas, que não se ocuparam com todo o leque de cenas religiosas à disposição na arte pictórica, mas que tiveram produção imensa representando São Sebastião. Vêm à mente as inúmeras telas de Alberto da Veiga Guignard e de Glauco Rodrigues que repetidamente pintaram o santo.





Verdes vozes, poesia de Maria Dinorah

20 01 2026

A floresta, 1978

Rosina Becker Do Valle (Brasil, 1914-2000)

óleo sobre tela, 65 x 46 cm

 

 

Verdes e Vozes

 

Maria Dinorah  

 

 

Escutem as vozes

Escutem os rios no meio dos ramos

os risos chegando sabiás, tico-ticos

das águas correndo pardais, gaturamos…

das pedras

cantando

 

Escutem os grilos

Escutem! Escutem! crilando serestas

Com presa e vagar! nos vãos das janelas

Há monstros

 

humanos das horas em festa!

Fazendo-os calar! E se eles calarem num frio de repente,

quem vai pintar sonhos nos sonhos da gente?

 

 

Em: Ver de  ver, Maria Dinorah, 1992. Editora FTD





Nossas tempestades, trecho de José Jorge Letria

19 01 2026

Mulher com cachorro

Sonya Grassmann (Bulgária-Brasil, 1933-1997)

óleo sobre eucatex, 40 x 30 cm

“Restava-me o amparo dos livros. Abrigava-me neles da tempestade de todas as dúvidas, e para ali ficava, esquecido das horas, esquecido de mim, observando a paz nocturna dos cães dormindo à minha volta com a serenidade de quem nunca estará de mal com o mundo”

José Jorge Letria, A Mão Esquerda de Cervantes: Contos





Imagem de leitura: David Woodlock

19 01 2026

Jovem lendo em frente a casas em rua residencial

David Woodlock (Inglaterra, 1842-1929)

aquarela, 28 x 22 cm





Jardim de inverno, uma memória…

18 01 2026

O jardim de inverno, 1883

Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1944)

óleo sobre tela, 63 x 80 cm

Coleção Particular

 

 

Meus avós moravam na Tijuca, no Rio de Janeiro.  Sou a mais velha da família de minha mãe, que era a mais velha das filhas. Passei muito tempo com meus avós.  Nós nos víamos regularmente, mas depois de meu primeiro irmão nascer, com mais assiduidade, quando meus pais saíam à noite ou quando meus avós queriam viajar.  Aos seis anos, comecei a viajar com eles, que também eram meus padrinhos. Fomos a cidades turísticas, cidades das águas em Minas Gerais, às cidades serranas fluminenses e até São Paulo, onde mais tarde uma de minhas tias morou.  Era sempre um prazer estar com eles, desfrutar dos quitutes de vovó, e das  brincadeiras de meu avô, que exercitavam meu vocabulário. 

Tenho memórias detalhadas da casa deles, onde eu dormia no quarto cor de rosa.  Estive lá frequentemente, porque ainda criança, acompanhei os namoros e noivados de minhas tias, irmãs mais novas de mamãe.  Fui dama de honra de ambas em seus casamentos: aos quatro e aos seis anos respectivamente. Justo trabalho para quem havia sido companhia perpétua do casal de namorados, garantindo que nada de estranho acontecesse enquanto passeavam juntos.  Digo isso em tom divertido, porque ganhei incríveis presentes nessa época segurando vela.  Eram balas, passas em caixinha, que eu adorava, passeios de carrinho de bode, na Praça Afonso Pena, uma atividade atrás da outra, um agrado a cada saída.  Fui comprada, sim eu tinha preço!

Frequentar a casa de meus avós maternos trouxe benefícios décadas mais tarde. Adulta, me encontrei encantada por móveis antigos, seduzida pelo cheiro de madeira e pelo perfume de óleo de peroba.  Quando abri minha galeria de arte moderna e móveis de fazenda, dos séculos XVIII e XIX, nos EUA, combinação que deu certo, nem sei bem as razões, entrei num período de vida gratificante.

Meus avós tinham um mobiliário do estilo manuelino, pesado, em jacarandá escuro com colunas nas beiradas, serpentinadas e ornamentos nos almofadões das portas. Tudo finalizado por pés de bolacha, enquanto as cadeiras tinham costas e assentos de couro escuro trabalhado com desenhos abstratos e uma carreira de tachas de latão a toda volta dos assentos e espaldares.  Toda a sala de jantar era nesses móveis favoritos no país desde o tempo colonial, mas os de meus avós provavelmente datavam de seu casamento nos anos  20.  Na sala de jantar, um grande bufê, uma cristaleira, um pequeno bufê e a mesa gigantesca para doze pessoas, as cadeiras enchiam o espaço.  Havia também um móvel só de gavetas pequenas, no mesmo estilo, que mais tarde soube chamar-se um contador. Ficava no hall entre a sala de jantar e o escritório de vovô.   Um móvel bar, espelhado por dentro, detalhe que me fascinava, guardava garrafas de todo tipo de bebida e alguns copos de cristal.  Outros cristais encontravam-se na cristaleira. 

Móvel contador em estilo Manuelino.

 

A sala de estar tinha móveis que hoje chamaríamos Art Déco dos anos 30-40,  com linhas retas, poltronas cujos braços de madeira formavam arcos do pé da frente da cadeira até o chão do pé detrás e estofamento de couro verde escuro. Havia cinzeiros de pé para os homens que fumavam – só eles fumavam – e abajures de pé para o conforto da leitura quer na poltrona, quer no sofá no mesmo estilo.  Havia ali, também um rádio vitrola que embalava em momentos familiares uma dança improvisada de meus pais e tios em momentos descontraídos durante domingos em família.  

O móvel bar ficava em uma das salas de estar, a mais próxima do jardim de inverno, que nada mais era do que uma espaçosa varanda completamente fechada com vidro.  Lá estavam plantas exuberantes, como manda a flora tropical, vasos de parede com plantas ‘choradeiras’. Num canto a figura de Ceres, com uma braçada de trigo, toda em cerâmica branca, imitando mármore, que dominava um dos lados da varanda, instalada num pedestal de ferro. No outro lado, na mesma cerâmica branca, vitrificada, estava seu par, a deusa Fortuna, com pedestal gêmeo. Essa tinha olhos vendados e uma cornucópia nos braços, transbordando frutas.  Foram as primeiras deusas clássicas com que me familiarizei: agricultura e sorte.  O jardim de inverno era meu lugar favorito da casa de meus avós, parecia uma pequena amostra das florestas tropicais que cobriam os morros da antiga Tijuca, ainda não tomados por comunidades. Meu outro lugar de fascínio era o escritório de vovô, com perfume do cachimbo a que ele se dedicava após o jantar e que era coberto de livros nas estantes com portas de vidro de correr. 

O jardim de inverno tinha móveis bem mais modernos, de madeira cor de mel, com acabamento de fibras naturais, feitos rechonchudos e acolhedores pelas almofadas estampadas com folhagens e pássaros nas costas e assentos.  O jardim de inverno trazia para dentro de casa, o convívio com a natureza sem os perrengues dos mosquitos ou insetos indesejáveis.  Havia duas mesas pequenas.  A de ferro com tampo de vidro e a de madeira. Lembro-me de jogar cartas com vovó nessas mesas: jogo da memória.  Apesar de meus avós terem duas salas de estar, era no jardim de inverno que vovô recebia seus amigos.  Hoje percebo que havia algo do período vitoriano nesse local, algo que de vez em quando vejo retratado em quadros ingleses do século XIX. 

Na casa deles não havia o luxo dos tapetes no jardim de inverno que vemos em cenas europeias, mas a própria exuberância das samambaias choronas, descendo parede abaixo de vasos pendurados de encontro às paredes, era experiência única.  Cuidadas por vovó, em grandes vasos de faiança colorida, com relevos, havia até mesmo pequenas árvores de uns dois metros de altura que faziam o ambiente íntimo e úmido, com um leve cheiro de mato.  No jardim, havia algumas plantas que mais ou menos desapareceram dos jardins atuais: manacás, jasmins, bambu da sorte, pacová. 

Hoje, procurando algumas ilustrações para postagens no blog me deparei com a representação do Jardim de Inverno de Frances Jones Bannerman, que coloquei acima. E uma onda de flashes, cenas de um passado muito longínquo me entreteve por umas horas.  Acho que lidar com as fotos de antepassados que vou passar para meus sobrinhos está abrindo os portões das lembranças, propiciando que eu tire algumas conclusões sobre as raízes de certos interesses meus.  Foi uma boa tarde de domingo.  Que seja a premonição de uma ótima semana para mim e para todos nós!

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2026.





Em casa: John Koch

18 01 2026

Interior com senhora sentada, 1967

John Koch (EUA, 1909-1978) 

óleo sobre tela, 87 x 56 cm





Flores, porque hoje é sábado…

17 01 2026

Natureza morta com flores, 1873

Atribuído a Agostinho José Da Mota (Brasil,1824–1878)

óleo sobre tela, 55 x 68 cm

PINA, [Pinacoteca do Estado de São Paulo]

 

 

 

Flores no jardim

Armando Vianna (Brasil,1897 – 1992)

óleo sobre tela, 53 X 72 cm





Da janela vê-se o Corcovado…

16 01 2026

Arcos da Lapa, 1965

Tadashi Kaminagai Tadashi (Japão-França, 1899-1982)

óleo sobre tela, 39 x 59 cm