Corte de Henrique VIII, com Jane Seymour e Príncipe Edward, 1545
DETALHE (veja o painel completo abaixo)
Hampton Court Palace, Londres
Em 1536 quando o rio Tâmisa congelou, em Londres, Henrique VIII e Jane Seymour, terceira esposa do monarca, saíram dos serviços religiosos na Catedral de Saint Paul, e se dedicaram a uma cavalgada pelo rio congelado, galopando até a margem em Surrey, para o Palácio Greenwich, onde as grandes festividades natalinas aconteciam.
As comemorações de Natal até recentemente na Europa se realizavam por doze dias, do dia 25 de dezembro ao dia de Reis, ou Epifania. [Há mais informações neste blog: Hoje, dia de Reis.]. Portanto é interessante saber que as festas dos doze dias de Natal tinham características grandiosas. Havia um bolo feito com frutas secas, farinha, mel e especiarias. Nos Estados Unidos esse bolo, ainda faz parte do Natal, com o nome de fruit cake. Dentro deste bolo eram colocados um feijão e uma ervilha. Ao fatiar o bolo, servido aos visitantes na hora da chegada saberia-se quem seriam os respectivos “Reis do Feijão e da Ervilha”, por aquela noite. Estes ficavam com a incumbência de liderar todos os convidados a cantar, dançar e fazer brincadeiras que incluíssem os presentes. Na corte de Henrique VIII estes reis da noite eram selecionados a priori.
Nas casas das grandes famílias da corte no período Tudor, os 12 dias de Natal incluíam festejos, banquetes, procissões e brincadeiras presididas por uma pessoa chamada Senhor do Desgoverno [Lord of Misrule]. Estas festas eram às vezes também visitadas por outros personagens natalinos: Capitão Natal ou Príncipe Natal, cujo papel era se certificar que todos os participantes se divertissem. Um dos personagens favoritos nas peças encenadas no período Tudor chamava-se Pai Natal [FatherChristmas]. Vestido de verde e usando máscara e peruca, ele passeava por entre os convidados gritando furiosamente, empunhando um grande cajado.
NOTA: O bico-de-papagaio, ou poinsétia, ligado no hemisfério norte às festas de fim de ano, natural do México, tem flores muito pequenas, que ficam no centro das folhas modificadas. As partes vermelhas são folhas modificadas que rodeiam as pequeníssimas flores no centro. Aqui no Brasil as folhas modificadas, vermelhas, aparecem no inverno, ou seja de junho a agosto.
Este é meu primeiro Natal sem meu companheiro de vida, marido, amigo, amante, interlocutor de todas as horas. A data ainda é mais significativa porque também era seu aniversário. Sim, nascido no dia 24 de dezembro, como presente de Natal e de aniversário para seu pai, que nascera no dia 25 de dezembro, décadas antes.
Fiz questão de montar a árvore de Natal, mesmo que não haja comemoração alguma de seu aniversário. Para Harry, Natal precisava de árvore. Mesmo quando passamos a data em viagem – Grécia, Alemanha e Espanha -, em nossos aposentos nos hotéis sempre havia alguma decoração natalina, trazida conosco ou comprada no local. Certa vez nos mudamos de endereço nessa época e Harry saiu às pressas, dia 24, para comprar nossa árvore, como é costume nos Estados Unidos, para que o dia 25 contasse com o esplendor merecido. A árvore era um pouco capenga e calva de um lado, mas pusemos num canto da sala e saiu tudo perfeito. Não éramos religiosos, mas crescemos dentro do cristianismo, eu católica, ele presbiteriano, e mantivemos os rituais das principais comemorações cristãs. Seria impensável passar em branco este primeiro Natal sem ele. Estou feliz por ter enfeitado a casa como de costume. Harry está presente, hoje aqui comigo.
Harry C. West, no jardim da casa de seus pais, Washington, NC
O tema das minhas meditações nesses dias tem sido sincronicidade, mão do destino, sorte, coincidência. Porque tudo conspirava para que jamais nos conhecêssemos e para nosso encontro não dar certo desde então. Não tínhamos amigos em comum, não fomos apresentados um ao outro, nos apresentamos. Morávamos em cidades diferentes, em estados diferentes, profissões diferentes. Experiências de vida diversas: eu, nascida, crescida no Rio de Janeiro; ele americano, crescido inicialmente na Carolina do Norte, depois dos quinze anos estabelecido na Pensilvânia, em colégio interno, The Hill School. Em comum: ciências humanas.
Naquela ocasião Harry passava quatro dias no Distrito de Columbia, pesquisando fontes de inspiração para o escritor Nathaniel Hawthorne, na Biblioteca do Congresso (uma das maiores, se não a maior dos EUA). Eu acabara de defender minha tese de mestrado e pensava em fazer o PhD em história da arte. Como estudava na Universidade de Maryland, em College Park, um subúrbio de Washington DC, usava a Biblioteca do Congresso regularmente, a uma pequena viagem de metrô da porta da minha casa.
Minhas manhãs e muitas tardes se passaram no local. Eu estava familiarizada com os pesquisadores regulares, com os quais era comum tomar café ou trocar ideias nas pausas da pesquisa. Portanto, quando Harry entrou no salão Thomas Jefferson, eu sabia que era alguém novo por ali. Pensei tratar-se de algum membro do staff de um senador ou deputado federal, comum por lá, porque estava vestido de maneira mais formal do que pesquisadores: gravata a meio mastro, paletó de tweed e capa London Fog (pois chovia naquela segunda-feira em DC). Além disso, entrando pela porta secundária, ele parou para se localizar, o porte seguro, confiante e calmo, que mais tarde eu viria a descobrir ser típico dos alunos do colégio interno em que ele estudou. Estas escolas preparam o jovem, naquela época só rapazes, não apenas para o sucesso acadêmico, mas também para assumirem seus destinos profissionais e sociais. Linguagem corporal é importante. Harry entrou na biblioteca como se a ela pertencesse, como a comandasse, mesmo sendo aquela sua primeira vez lá.
Harry no escritório na universidade onde ensinou.
Além disso Harry, quase dez anos mais velho do que eu, projetava a segurança de quem sabia seu lugar no mundo, a confiança em si mesmo propiciada pelo PhD em Literatura Americana por uma das melhores universidades do país, numa época em que ter um PhD era bem mais incomum. Divorciado havia quatro anos, com um filho de seis, era um homem do mundo com uma cultura refinada muito acima da média. Tudo isso eu descobri dois dias depois de vê-lo pela primeira vez. Mantivemos contato visual durante dois dias. Na quarta-feira, terminando a procura pelos textos que viera consultar, ele veio até a minha mesa perguntar se eu não queria tomar um café. Aceitei. Era comum fazer isso entre os pesquisadores. E assim começou um relacionamento especial, duradouro, repleto de paixão, companheirismo, carinho, agraciado pelos deuses.
Impossível descrever a falta que ele faz. Sua voz, suas ideias, seu toque, os olhos sempre carregados de paixão pela vida, pelos textos. Aprendi muito com ele. Foi uma vida a dois inesperada, incomparavelmente feliz. Hoje é dia de honrá-la com especial alegria e gratidão.