“Às vezes eu ficava com a impressão de que por conta das minhas leituras frequentes eu me chocava menos facilmente do que as pessoas ao meu redor, que eu sabia mais informações factuais — sobre sexo sim, mas também sobre furacões, danças folclóricas e Zoroastrismo. …”
Em: A esposa americana, Curtis Sittenfeld, tradução de Natalie Gerhardt, Rio de Janeiro, Editora Record: 2010, p. 341
“Vovó nunca passava o aspirador ou varria e apenas em raras ocasiões — se meus pais não estivessem em casa ou se mamãe estivesse doente — ela cozinhava, preparando pratos notáveis pela total ausência de alimentos nutritivos. Um jantar poderia consistir de queijo frito e panquecas mal cozidas. O que vovó realmente fazia era ler; era desse modo que passava o tempo. Não raro, ela terminava um livro em um dia — preferia os romances, principalmente os dos mestres russos, mas também lia histórias, biografias e suspenses sangrentos. Passava horas e horas, durante toda a manhã e a tarde, sentada na sala de estar ou na cama (que estaria arrumada, e ela vestida), virando as páginas e fumando cigarros Pall Mall. Desde cedo, compreendi que, do ponto de vista doméstico, que é o mesmo que dizer na opinião dos meus pais, vovó não era simplesmente inteligente e fútil; sua inteligência e futilidade estavam entrelaçadas. Ela podia lhe contar tudo sobre a maldição do diamante Hope ou sobre o canibalismo praticado pelo grupo de emigrantes conhecido como Donner Party — não que ela devesse ter vergonha de saber sobre tudo isso, mas também não havia razão para ficar orgulhosa. As curiosidades e histórias que ela contava eram interessantes, mas nada tinham a ver com a vida real: pagar a hipoteca, lavar uma panela, manter a casa aquecida nos invernos rigorosos de Wisconsin.”
Em: A esposa americana, Curtis Sittenfeld , tradução de Natalie Gerhardt, Rio de Janeiro, Editora Record: 2010, pp. 20-21.
Surpreendentemente fácil de ler, foi minha impressão de A redoma de vidro de Sylvia Plath. Era uma das leituras que me faltavam para uma compreensão mais redonda do século, da escrita por mulheres e do feminismo em geral. Permanentemente listado entre obras que devem ser lidas, eu, receosa de confrontar a depressão que pode eventualmente levar ao suicídio, tema conhecido da obra, evitei a leitura. Foi uma bobagem. Deveria tê-lo lido há muito tempo.
Não é um clássico como eu imaginava. É uma obra que dá a sensação de inacabada, assim como a vida de sua personagem principal, ainda que acabá-la seja um de seus objetivos. Dividida em duas partes que se conectam tenuemente, o leitor sai de uma ensolarada experiência de uma jovem, com problemas de autoestima, inteligente e crítica, que aproveita um prêmio de um mês em Nova York, e acaba com mesma jovem, mais tarde, cuja ansiedade, depressão e realidade sombria parecem incompatíveis com a personagem que conhecemos no início.
O que mais marca nessa narrativa é o retrato, de dentro, digamos assim, dos pensamentos, considerações e preconceitos de uma pessoa imersa em agonia mental, no desespero, que o fim da vida parece, de fato, ser a única solução plausível das reais opções que poderia ter. É aqui que este livro se torna importante, por retratar como pensa alguém cuja solução para a vida é terminá-la, assim como fez a autora, pouco tempo após a publicação de A redoma de vidro, seu único livro de prosa.
Sylvia Plath
No entanto, a narrativa não me comoveu. É distante. Pude reconhecer o sofrimento retratado, mas passei incólume, sem identificação e com empatia moderada. Além disso, esperava um livro mais direto na posição feminista, já que é considerado leitura obrigatória para feministas. Mas a delação da discriminação contra mulheres, ou as descrições do que era esperado das mulheres, ainda que tivessem sido talvez inesperadas para a época, hoje parecem leves, observações inteligentes mas moderadas.
Levei muito tempo para ler este livro, é possível que eu tenha criado expectativas irreais. Mas talvez realmente haja muito dito sobre essa obra porque Sylvia Plath se suicida após sua publicação. Na leitura feita desta vez, não acho que mereça toda a fama que o leva a ser um clássico do século XX, como é considerado por muitos.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
“…Minha mãe vivia dizendo que ninguém se interessaria por uma pessoa formada em inglês. Mas uma pessoa formada em inglês que soubesse taquigrafia era diferente. Todo mundo iria atrás. Ela seria disputada por todos os jovens promissores e faria transcrições de centenas de cartas arrebatadoras.
O problema é que eu odiava a ideia de ter que trabalhar para homens. Eu queria ditar minhas próprias cartas arrebatadoras…”
Em: A redoma de vidro, Sylvia Plath, tradução de Chico Mattoso, Rio de Janeiro, Biblioteca Azul: 2019, p. 87