Imagem de leitura: Lodewijk Schelfhout

13 02 2024

Pierrô pensativo

Lodewijk Schelfhout (Holanda, 1881-1943)

Gravura





Cara Paz, de Lisa Ginzburg, resenha

12 02 2024

Vestido de flores

Franco Bresciani (Itália, contemporâneo)

acrílica e colagem sobre tela, 50 x 50 cm

 

 

Cara Paz  de Lisa Ginzburg, tradução de Francesca Criscelli é um romance italiano, finalista do Prêmio Strega de 2021 (Itália). Foi a escolha de um dos meus grupos de leitura para o mês de fevereiro. Trata-se da história de duas irmãs.  São interdependentes, quatorze meses as separam e, no entanto, Madalena e Nina são muito diferentes, e se veem como “irmã sol, irmã lua” [159].  Filhas de um casal divorciado, elas sofrem na infância e na adolescência com a separação dos pais, principalmente porque circunstâncias legais não as deixam morar com nenhum dos progenitores.  Moram sozinhas com uma governanta numa casa grande.  Pouco veem a mãe, Glória, que sai deste casamento infeliz e veem o pai, a cada quinze dias, que, fotógrafo profissional, trabalha,  a maior parte do tempo, a mais de seiscentos quilômetros de distância, em Milão. As referências todas remetem à década de 70 do século passado e a ênfase dada à narrativa da separação traz um gosto passado, de questão social ultrapassada, narrativa estereótipa e banal.  Quantas e quantas histórias já lemos sobre crianças sem pais próximos, e quantas mais precisaremos ler?  Há de haver algum outro tema, outro enfoque ou perspectiva.   O processo do contar da história também me pareceu antigo, sem objetividade e repetitivo.

 

 

 

 

O que me fez achar anacrônica essa narrativa? Primeiro, todos os personagens têm nome, sobrenome, ocasionalmente apelidos, mesmo aqueles que mais tarde vemos serem de menor importância.  Isso taxa e dificulta o leitor atento que imediatamente se põe a memorizar detalhes que se mostrarão irrelevantes para a conclusão da história. Segundo, passeamos por Roma suas ruas, famosas lojas de Gucci a sorveteria e café Giolitti;  sabemos por que rua ou estação do metrô precisamos andar para chegar à Prima Porta ou se pegamos ou não a linha do metrô Leonardo Express.  Marcamos também lagos, praias, ilhas em que as meninas passam férias, visitam, sem falarmos dos bairros em que, mais tarde, já adultas,vivem, uma no Brooklyn, NY outra em Paris. Basta virar algumas páginas e lá estamos com uma sequência de pontos referenciais de Roma, Paris e Nova York, sem sabermos exatamente a razão de sermos apresentados a esses lugares. Não me surpreenderia se alguma promoção de turismo romano não tivesse patrocinando a publicação.  No fundo, no final mesmo da história, fica aquela sensação de que é uma obra direcionada às socialites, àqueles que precisam saber a marca do sorvete que tomam, a marca do carro comprado, a loja de moda em que alguém trabalha.  As mulheres são marcadas por sua beleza, elegância. Não se pode falar de Gloria sem mencionar sua beleza, nem da filha Nina sem mencionar seus olhos verdes. Pouco se sabe da beleza de Maddi, mas ao final um amante casual, nos diz que ela é bela.

As irmãs crescem e vivem vidas mais glamourosas do que seria de se esperar, um marido trabalhando na UNESCO, outro proprietário de mais de uma galeria de arte de sucesso.  É um mundo irreal, que tenta se enraizar no mundo real pela menção de todos os lugares pelos quais os personagens passam.  A atenção de leitor é sempre direcionada à Nina, que tem um temperamento difícil e se comporta com rebeldia;  Madalena passa a juventude contornando os problemas de Nina, mas pouco sabemos do que sente.  Casa-se com um francês, tem filhos, leva a vida de uma mulher mantida pelo marido, sem trabalhar, sem profissão, um papel que de novo me leva a achar o tema obsoleto, com ranço de uma sociedade que já acabou, que já passou. De repente, nos capítulos finais do livro, ela nos surpreende, com um encontro extraconjugal, com rapaz muito mais jovem, desconhecido.  Ficaram confirmadas minhas suspeitas de que estava diante de um conto de fadas para mulheres ociosas.

 

 

Lisa Ginzburg

 

 

Vim a este livro com grande expectativa.  Há tempos li A família Manzoni de Natalia Ginzburg, avó de Lisa, e esposa do conhecido editor, escritor e jornalista Leone Ginzburg.  A família GInzburg está por algumas gerações ligada ao mundo cultural italiano. Infelizmente fiquei decepcionada com o resultado desta leitura. Sei que Lisa Ginzburgo é autora de outras obras.  Infelizmente esta não me cativou.   Muito longa, poderia ter menos umas cinquenta páginas, rasa, repetitiva.  Três características que me levam a não recomendar a leitura.

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Uma observação sobre a tradução do título.  Li que o título, Cara Paz, que não faz o menor sentido em português, foi mantido ao pé da letra para honrar o trocadilho que existe em italiano, carapaça e cara paz.  Mas francamente, não há como em português darmos esse salto para o entendimento.  Temos, há muito tempo,  o hábito de trocar nomes de filmes e de livros no Brasil, pensando em como melhor chegar ao leitor ou espectador de um filme.  Porque não fazer isso com esse livro?  Honrou-se o literal em prejuízo da compreensão. Não faz sentido.  Como mostrar ao leitor do que se trata?  E mais, este título não faz o menor sentido no marketing pata o livro.  Má escolha editorial.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura: Paul Sample

12 02 2024

Palhaço lendo, 1933

Paul Sample (EUA, 1896-1974)

óleo sobre tela, 76 x 63 cm





Imagem de leitura: Ruggiero Serrato

11 02 2024

Arlequim lendo

Ruggiero Serrato (Itália, século XX)

óleo sobre tela, 45 x 35 cm





Imagem de leitura: autor desconhecido

10 02 2024

Palhaço lendo jornal

Ilustração de autoria desconhecida

óleo sobre tela





O Buda no sótão, de Julie Otsuka, resenha

8 02 2024

Retrato de mulher lendo

Hirezaki Eiho (Japão, 1888-1968)

 

 

A primeira vez que vi uma longa lista de nomes de mortos foi em visita ao Monumento aos Soldados Mortos na Segunda Guerra Mundial, aqui no Rio de Janeiro, no Aterro do Flamengo.  Eu era pequena. Mão na mão de papai, percorri com ele o comprimento das tumbas gravadas, com nomes de pessoas que jamais conheceria.  Uma só monotonia de pedras planas e nomes vazios. Meu pai tinha uma voz grave, melodiosa e sua explicação e eventual leitura de algumas lápides, me marcou profundamente, pois esse tom murmurante lembrava-me das muitas vezes que dormi em seu colo enquanto ele conversava, à noite, em prolongadas reuniões familiares, que iam muito além da minha hora de dormir.  O monumento do Rio de Janeiro, traz na sua própria estrutura a eloquência do silêncio, nas pedras lisas das tumbas o dessabor do árido ambiente. A lembrança dos soldados tombados foi meu primeiro encontro com a morte em massa. Anos mais tarde, em 2001, depois do ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, houve um momento em que o nome de todos os mortos naquele ato terrorista foi recitado, um a um, solenemente, hora após hora, televisionado sem anúncios, em honra aos mortos do ataque terrorista.  Foram dias de recitação contínua, solene, fúnebre, que lembraram as vozes nas orações em conjunto das novenas em igrejas católicas de minha infância. Havia naquela repetição de nomes, na litania sem entonação, na listagem de desconhecidos, um após o outro, um som encantatório, mesmerizante, que abraçava almas enfermas, pelo simples e contínuo circular de vozes, em canto sem começo ou fim, eterno. Em poucos segundos em que se dava voz a quem se foi, seu nome, seu significado era repercutido através da atmosfera, irradiado para o infinito das galáxias distantes. Essas listagens não são incomuns nos momentos de luto coletivo. Todas são eloquentes.  Não pude deixar de lado essa imagem da recitação, do som encantatório do pronunciar dos nomes quando me deparei com a narrativa de Julie Otsuka, no marcante livro O Buda no sótão, tradução de Lilian Jenkino.

 

 

 

 

Por que tive essa reação?  Pela escolha feita na maneira de narrar.  Este, que me lembre, foi o primeiro livro que li onde a narrativa é do coletivo. É a história de um número enorme de pessoas, que deixa sua terra natal em busca de vida melhor no Novo Mundo.  A narrativa da coletividade não permite nomes, ou melhor individualidades. Todos são anônimos, tais como os soldados caídos no front que jamais foram ou serão identificados.  Não há personagens específicos, nem heróis ou heroínas.  É a generalidade das experiências que nos dá a dimensão do todo, a enormidade das expectativas, dos sonhos frustrados, da regularidade das barbáries, das injustiças feitas com um grupo inteiro de humanos. Não é prosa poética.   No entanto, a leveza com que Julie Otsuke cobre assuntos indignos ou desonrosos que afetam este grupo de imigrantes japoneses nos Estados Unidos no início do século XX é quase poética.  Sua maneira delicada e sensível, terna, afável nos ajuda a testemunhar o dia a dia dos recém-chegados, os sucessos, dos pequenos negócios às pequenas fortunas, nos guiando depois até a  inexplicável vontade de seus filhos se entrosarem na cultura do novo país que era, de fato, sua terra natal. Até o medo, o pavor, a humilhação sofrida por esses imigrantes ao serem colocados em campos de concentração durante a Segunda Guerra, por terem nascido no Japão e portanto, intrinsecamente suspeitos de apoiarem o governo de sua terra natal, todo esse terror emocional, é tratado com sutileza e finura.

 

 

Julie Otsuka

 

 

Já era mais que tempo dessa história ser revisitada. Há sempre o medo daqueles cujos hábitos desconhecemos, cujas línguas não entendemos, cujas religiões não seguimos.  O ser humano é tribal.  Sua primeira reação será sempre a desconfiança.  E em época de guerra, essa desconfiança é exacerbada. Isso não justifica o tratamento que os japoneses tiveram nos Estados Unidos.  Não é um momento de orgulho da história americana. Tampouco foi escondido.  Quem viveu no país certamente já ouviu falar desses campos de concentração.  Mas é importante que o assunto seja recontado, a cada geração, principalmente em época em que o medo de imigrantes parece contaminar todos os países do mundo ocidental.  Só essa já seria uma boa razão para ler O Buda no sótão.  Mas a prosa, a delicadeza da narrativa é singular e perfeita para o tema.  Este é um livro que se movimenta na alma do leitor e deixa lastro. Não é a toa que ganhou o prêmio Pen/Faulkner para Ficção e se tornou um best-seller desde 2011 quando foi publicado.  Recomendo sem qualquer restrição.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura: Monica Castanys

6 02 2024

Para a boa manhã

Monica Castanys (Espanha, 1973)

óleo sobre tela

 





Canção do Dia de Sempre, Mário Quintana

1 02 2024

Moça lendo

Georges D’Espagnat ( França,1870-1950)

óleo sobre tela, 53 x 43 cm

 

 

 

Canção do dia de sempre

 

Mario Quintana

 

 

Tão bom viver dia a dia…

A vida assim, jamais cansa…

 

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu…

 

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência… esperança…

 

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

 

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

 

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

 

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas…





Imagem de leitura: Laura Sylvia Gosse

30 01 2024

Mrs Alexandra Russell

Laura Sylvia Gosse (Inglaterra, 1881-1968)

óleo sobre tela, 60 x 50 cm





Sublinhando…

28 01 2024

Tarde preguiçosa

B. Cagri (EUA, contemporanea),

óleo sobre tela

 

 

“Desde pequeno, sempre matei o tempo em bibliotecas. Quando uma criança não tem vontade de voltar para casa, encontra poucos lugares para ir. Lanchonetes e cinemas são locais proibidos para um moleque desacompanhado. Resta-lhe apenas a biblioteca. Você não paga para entrar e ninguém reclama pelo fato de estar sozinho. Pode se sentar numa cadeira e ler todos os livros que quiser. Depois de voltar da escola, eu costumava ir a uma biblioteca municipal existente perto de casa. Era lá que eu passava sozinho muitas horas por dia, mesmo nos feriados. Lendas, romances, biografias ou história, eu devorava tudo que me caía nas mãos. Depois de ler quase todas as histórias infantis, transferi a atenção para as demais seções e passei a ler as obras destinadas aos adultos. Lia todos os livros até a última página, mesmo quando não os entendia direito.”

 

 

Em: Kafka à beira-mar, Haruki Murakami, tradução de Leiko Gotoda, Rio de Janeiro, Editora Objetiva: 2008, p. 45