Natureza Morta com abóboras morangas
Ary de Queiroz Barros (Brasil, 1926)
óleo sobre tela
Placa da Rua do Gato-que-pesca, Paris
“Rua do Gato-que-pesca…rua curiosa que suscita o riso: dois passos bastam para a atravessar; para a percorrer, menos de trinta. Encontram-se, em Paris, destas espantosas ruelas de palmo e meio, não só nos bairros pobres, mas mesmo em pleno centro da cidade, muito próximo das artérias mais concorridas.
A rua do Gato-que-pesca, vai dar ao Sena, ligando o cais de Saint-Michel com a pequena mas animada rua Huchette.
Entrando no cais, vereis, à direita, as duas torres de Notre Dame, em frente a prefeitura da polícia, o que prova que a rua do Gato-que-pesca se encontra situada num bairro respeitável, mesmo no coração da grande cidade.
Numa rua com a largura inverossímil de dois passos, não se concebe, é claro, o problema da circulação nem o do pavimento. este consta, em suma, de umas seis a oito grandes pedras que vão de uma casa a outra. Nas duas extremidades da rua, colocaram duas barras de ferro para impedir a passagem de veículo, bastante estreito, para poder introduzir-se na ruela, mesmo que lhe tirem os varões de ferro.
De um lado e outro da rua uma fileira de quatro casas. Mas os prédios dos extremos têm a entrada no cais de Saint-Michel, por uma lado, e na rua Huchette, pelo outro, o que dá, no fim das contas, duas casas de cada lado… Qual a idade destas casas? Ninguém sabe. São casas sem idade, que tanto podem ter quinhentos como cinquenta anos. As entradas são inverossimelmente estreitas, extraordinariamente escuras. Escadas de madeira levam-nos de andar em andar, mergulhando, à medida que se sobe, numa treva cada vez mais densa. De espaço a espaço, na sombra opaca dos quatro andares de cada casa, advinha-se um patamar… Nas janelas, festivamente, cordas de roupa branca secam ao sol e ao vento.”
Em: A Rua do Gato-que-pesca, Yolanda Foldes, tradução de Francisco Quintal, Lisboa, Renascença:s/d [1959]. 2ª edição, páginas 15-6
A Rua do Gato-que-pesca recebeu o Grande Prêmio Internacional do Romance do Pinter Publishing Ltd (Londres). em 1936.
Passeio matutino, 1900
Edith Mitchill Prellwitz (EUA, 1865 – 1944)
óleo sobre tela, 76 x 63 cm

Anastácio Luiz de Bonsucesso
O dia era fulgente, o sol brilhava,
Em vívido esplendor;
De repente mil nuvens se aglomeram,
O sol perde o fulgor.
E as nuvens encobrem
Do sol os lindos raios,
As terras se cobrem
De turvos desmaios;
Ninguém se conduz
Nas trevas sem luz.
Do sol de seu posto
Tais coisas bem via;
Das nuvens no rosto
Com força batia;
A tanto calor
Desfez-se o vapor.
Perdidas nos ares
As nuvens passaram,
Das zonas polares
Que rumo levaram?
Não viram o sol
O novo arrebol.
MORALIDADE
Luz um talento, os tolos anuviam
Os fogos da razão;
A luta é transitória — os zoilos morrem.
O gênio brilha então.
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, pp 157-158
Anastácio Luiz de Bonsucesso (1833-1899) Poeta carioca, fabulista, médico, jornalista, professor, teatrólogo, membro da Sociedade Propagadora das Belas Artes e da Academia Filosófica.
Obras:
Fábulas, 1854
Maroquinhas do Apito, comédia em versos
Versos de Cisnato Lúzio
Quatro Vultos, 1867,
Retrato de Auguste Strobl, 1828
Joseph Karl Stieler (Alemanha, 1781 – 1858)
óleo sobre tela, 71 x 60 cm
O leitor, 1952
Wladimir Lindenberg (Alemanha, ?-?)
Têmpera
Antes deste livro se tornar popular, e antes mesmo de virar filme, conheci a prosa de André Aciman através de três livros: Out of Egypt, memórias; um ensaio sobre imigração, no livro Letters of Transit, onde ao lado de Eva Hoffman, Bharati Mukherjee, Edward Said e Charles Simic o tema da identidade no exílio é abordado; mais tarde, em veio semelhante, li False papers: essays on exile and memory. Na época eu me dedicava a questões sobre exílio e identidade cultural. Por este motivo com exceção de Charles Simic, me familiarizei com os autores mencionados. Deles, Aciman surpreendeu. Sua habilidade de ser incisivo dando espaço para linguagem poética se fez sentir em todos os textos. Mas o autor que conheci através desses livros não me deixou vislumbrar o romancista. O que há em comum entre este romance e os textos que li anteriormente? Cuidado com as palavras, leveza de expressão, profundo conhecimento de textos clássicos. E ainda, prosa fluida, que se mantém entre realidade e memória; explorando a melancolia inerente àquilo que se perdeu.
A ampla linguagem poética continua usada em Me chame pelo seu nome, [tradução de Alessandra Esteche]. É ela que faz sonho e realidade deslizarem de um momento para outro, se imiscuírem e mesclarem, numa dança sedutora, onde nada é preciso. Mais vale o subentendido, a ambivalência. Diálogos são dissimulados; passagem de tempo incerta. Sabe-se simplesmente que é verão. É um verão. A ação se desenvolve no período das férias escolares americanas, de meados de maio a agosto. Mas é Itália. Cidade linda, quase anônima, de identidade misteriosa, referida por uma única consoante, mas exposta indiretamente aos curiosos, quando se descobre ser o local da morte por afogamento do poeta inglês Shelley [Percy Bysshe Shelley, 1792- 1822]. Portanto é a pequenina Lerici, voltada para o azul do Mediterrâneo, ao sul da Riviera Italiana.
Por três quartos do livro, não gostei da leitura. Mas as últimas sessenta páginas redimiram o sacrifício inicial, quando a trama dá uma virada impressionante. De repente, gostei de seu desenvolvimento. Subitamente chega-se a um final belíssimo e coerente. E não foi por acaso que fechei o livro com a certeza de algo ter-se movido em meu âmago.

Trata-se de um livro de passagem, da chegada à idade adulta, de descoberta da sexualidade, de amor, de paixão, até mesmo de obsessão. Elio Perlman, rapaz de dezessete anos, se descobre enamorado de Oliver, americano, que passava as férias de verão na Itália. Erudito, acadêmico, Oliver recebe estadia gratuita na casa dos pais de Elio. Em troca, serve de secretário para o dono da casa. O esquema funciona há anos, cada vez com uma pessoa diferente e continua por depois desse verão.
Ainda que Elio pareça ser o personagem principal, já que vemos o mundo através de seus olhos, é Oliver, quem traz a energia que movimenta a trama. Sua presença, desde a chegada à vila dos Perlman, agiliza o texto e, por mais lacônico que seja, possivelmente por isso mesmo, ativa a curiosidade de Elio. Oliver o fascina, o instiga. É aí, neste ponto, que desfrutamos, sem perceber, do grande e profundo conhecimento da literatura clássica, por André Aciman. O livro nos comove, nos toca a alma, em parte porque sua estrutura espelha a dos mitos da antiguidade, enraizados no inconsciente do leitor ocidental. Oliver aparece nesta trama no papel de Hermes. Mercúrio. Por ele, e com ele, Elio é iniciado a outro mundo, ao autoconhecimento, à totalidade, à plenitude. Oliver, como Hermes é sedutor. De espírito livre, não pode ser definido facilmente; inteligente, culto, atraente, bissexual, destro no tênis e perito no pôquer, inconstante, desfruta de noites e telefonemas enigmáticos; ambivalente, inacessível, esfíngico o americano torna-se foco da atenção de Elio, que se encanta e o deseja. Sonha com sua atenção, almeja a união com o indecifrável visitante. Em sua visão Oliver é o que ele gostaria de ser. É o ser que tem dentro de si. Não descansa até formar um vínculo estreito com ele, até ter sua intimidade trespassada. Eventualmente os dois se encontram e têm um relacionamento tórrido, absorvente, que dura pouco. Mas traz a Elio a sensação do todo, de plenitude e perfeição. Logrou conhecer-se, completar-se. A união com este outro ser, que o reflete, está representada no próprio título: Me chame pelo seu nome, clímax da plenitude alcançada, da união que o torna conhecer a si mesmo. Logo, Oliver retorna à América, tendo desempenhado o papel que lhe cabia, psicopompo. A história deste verão, portanto não é só a iniciação sexual de Elio, é a porta do conhecimento de si mesmo.
Então, porque não gostei de uma parte tão grande do livro? A obsessão de Elio com Oliver é longa, detalhada, interminável. Cada pormenor é descrito: do arco do pé de Oliver, às cores de seus calções de banho às quais Elio atribui vários estados de espírito do visitante. Essas descrições delicadas, sensíveis, inspiradas, suaves e sedutoras tornam-se infindáveis. Levantam a dúvida sobre sua necessidade e mesmo agora, depois de terminada a leitura, acredito que Aciman foi indulgente consigo mesmo, talvez fascinado pela novidade de escrever sobre a atração de um homem por outro. Por fim, quando Elio e Oliver se encontram e se amam apaixonadamente, a linguagem poética de Aciman se perde. Desaparece. Nos encontramos com uma das mais crassas descrições de um relacionamento a dois. Ela me levou a imaginar como teria sido bela e sensível esta passagem nas palavras D. H. Lawrence, porque Aciman sujeita o leitor a ponderar sobre o desconforto físico de Elio após a iniciação sexual e a considerar o grotesco do prazer carnal. O que aconteceu com aquele escritor da primeira parte, com toda a bela e poética prosa? Ela retorna no final, depois de um interlúdio literário, numa viagem a Roma, que não exerce nenhuma função significativa no desenrolar da história.
Só então, no regresso à casa, quando o desejo de Elio retorna, quando o anseio reaparece, quando seu apetite, ânsia, espera, sede reacendem, ressurge também a prosa poética na qual Aciman se distingue. É aí, neste ponto, na fala do Sr. Perlman, pai de Elio, ao aconselhar-lhe sobre a vida, que Aciman leva o texto ao seu ápice. Não me surpreenderia se esse trecho da obra, passasse a ser reconhecido por si só. Aplaudido. Independente.
André Aciman
O que permaneceu comigo foi algo sobre as possibilidades perdidas e as conquistadas; foi a constatação da miríade de oportunidades que nos é oferecida numa vida comum. Pensei nas portas que abrimos e fechamos, nas vezes que dizemos não ao autoconhecimento. Medo. Medo do sofrimento que traz conhecimento de si, da vida e dos outros. Pensei no que é amor, paixão, curiosidade. Na fascinação de cruzar as fronteiras para outros mundos, físicos ou imaginários, e até mesmo psicológicos. Pude refletir sobre o medo de viver, das novas experiências. Talvez pela própria ambiguidade do texto, tantas perguntas possam ter aparecido. É um livro de perguntas, mais do que respostas e parte de seu encanto está em nos conhecermos através desse próprio questionamento.
Designar Me chame pelo meu nome como um livro homossexual, pertencente à literatura gay é reduzi-lo a um pequeno círculo de leitores. É sim, a história de amor de um homem por outro. Mas é maior do que isso, é uma viagem ao mundo de nossa psiquê que ao ser descoberta nos une, nos faz inteiros. É, portanto, um livro para todos, pois irá repercutir no âmago de nossas almas.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Manhã preguiçosa, 1900
Ramon Casas i Carbo (Espanha, 1866-1932)
Retrato de Percy Bysshe Shelley, 1819
D’après Amelia Curran
óleo sobre tela, 59 x 47 cm
National Portrait Gallery, Londres
Vaso oriental com flores, 1989
Adir Sodré (Brasil, 1962-2020)
Óleo sobre tela, 120 x 81 cm
Campo de Santana em dia de sol, ao fundo torre do Corpo de Bombeiros
Fernando Corrêa e Castro (Brasil, 1933)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm