A menina toscana trançando a palha, 1869
William Holman Hunt (Inglaterra, 1827-1910)
óleo sobre tela, 53 x 43 cm
A menina toscana trançando a palha, 1869
William Holman Hunt (Inglaterra, 1827-1910)
óleo sobre tela, 53 x 43 cm
Ponte sobre o rio Carioca no Cosme Velho, 1967
Dimitri Ismailovich (Rússia/Brasil, 1892-1976)
óleo sobre tela, 73 x 54 cm
Frutas, 1982
Farnese de Andrade (Brasil, 1926-1996)
aquarela e nanquim sobre papel colado em chapa de madeira industrializada – 50 x 70 cm
O vento, com pé macio,
passou pelo meu jardim,
e como guri vadio,
nas minhas rosas deu fim.
(Carlos Ribeiro Rocha)
Praia Amboré, 1989
Antônio Eugênio Pascotto (Brasil, 1924)
óleo sobre tela colada em placa, 41×27 cm
Jovem lendo
Ernest Anders (Alemanha, 1845-1911)
óleo sobre madeira, 33 x 26 cm
O maior nome da literatura irlandesa moderna, James Joyce, não conseguiu viver no seu país de origem, por discordar do conservadorismo social e do domínio da religião sobre todos aspectos da vida, Sua dificuldade com a cultura irlandesa está bem descrita em Retrato do artista quando jovem. Depois de 1912, quando emigrou para a Europa continental, sobreviveu dando aulas de inglês, mas nunca mais voltou à Irlanda. Em Paris, encontrava-se rodeado por Marcel Proust, Ernest Hemingway, Samuel Beckett, Ezra Pound, TS Eliot and WB Yeats, mas frequentemente deixava a companhia deles para procurar viajantes vindos de Dublin. Queria se familiarizar com os nomes das mais recentes lojas e tavernas entre a Rua Amiens e a Coluna de Nelson, na rua O’Connell, para poder colocá-las em suas obras.
Moça chorando, 1964
Roy Lichtenstein (EUA, 1923-1997)
esmalte sobre aço, 116 x 116 cm
Milwaukee Art Museum
Neste domingo, 17 de julho de 2022, tive notícia triste. Chaia Sara Zisman, artista plástica, escritora, membro do grupo de leitura Papalivros e amiga pessoal minha e de meu falecido marido, foi completar seu destino na outra dimensão, deixando em todos que a conhecemos um imenso vazio. É irrelevante que Chaia tivesse idade para ser mãe e até mesmo avó de muitas de suas companheiras de leitura. Seu otimismo, senso de humor inabalável e generosidade eram conhecidos por todos ao redor. Deu aos amigos apoio incondicional para que fossem atrás de seus sonhos. Doou seu tempo, criatividade e energia singulares às mais diversas atividades sociais e beneméritas, sempre mantendo discrição quanto ao papel de apoiadora das justas causas.
Era advogada. Mais tarde, na maturidade, dedicou-se às artes plásticas como pintora e sobretudo gravurista. Suas xilogravuras eram de mestre na suavidade que conseguia transmitir para o papel, na nuance das cores utilizadas, coisa difícil e rara na gravura em madeira. Mas confesso que de seus quadros havia dois deles, a óleo, quase abstratos, em sua sala de jantar, que me seduziam todas as vezes que os via, pelas cores, abstrações e energia transmitidos. Era um par de grandes dimensões. Mas suas gravuras foram de fato excepcionais.
Quando se dedicou ao marido adoentado Chaia colocou as artes plásticas de lado e como toda pessoa criativa, descobriu outra maneira de se expressar. Sem espaço para poder se fechar no ateliê, encontrou abrigo na escrita. Podia fazê-lo nas noites insones, na quietude do lar. Publicou diversos livros. Li quatro deles: Estórias que fazem histórias, Além do tempo, O espelho, Uma família como a nossa. Além deles também escreveu pelo menos duas peças de teatro. É possível que tenham sido mais, mas eu vi duas primeiras leituras no teatro do Midrash, no Leblon, de um musical, passado na Praça Onze, no Rio de Janeiro, e alguns anos depois outra peça no Brasil contemporâneo, mas aludindo à peça de Pirandello, Assim é (se lhe parece). Chaia foi grande leitora que dispensava livros com tramas sem grande substância. Dedicava-se à leitura e queria retirar algo dos livros. Muito observadora, escrevia notas sobre cada capítulo. Aprendi com ela que esse era um ótimo hábito. Hoje, faço isso com mais frequência, principalmente no kindle que torna todas essas anotações mais fáceis.
Aprendi muito com essa amiga, que conheci em 2011 e que se tornou importante para mim. Com ela tive exemplo de como envelhecer e não se deixar dominar pelo envelhecimento. Lúcida até o fim de seus noventa e quatro anos, foi guerreira, batalhadora, justa. Muito generosa. Doava-se. Chaia parecia pressentir o que outras pessoas necessitavam ouvir. Observadora, cuidadosa com a saúde, lutou até o fim com muita vontade de viver. Uma mulher à frente de seu tempo. Nem tenho palavras para expressar minha admiração por ela. Éramos vizinhas. Cinco quarteirões nos separavam. Nos últimos anos, antes da pandemia, nos visitávamos informalmente, como se fazia no Rio de Janeiro antigo, com apenas um telefonema rápido dizendo: vou passar por aí… Sim, terei muitas saudades de sua companhia e de seu entusiasmo pela vida. [Numa nota pessoal: Chaia e meu falecido marido se entendiam bem. “Old Souls” (Velhas almas). Não precisavam de palavras. Eles se compreendiam. Uma razão a mais para que eu lhe admirasse.] Yehi zichra baruch (que sua memória seja abençoada). Descanse em paz.
©Ladyce West, 2022, Rio de Janeiro.
Reynaldo Valinho Alvarez
um domingo uma tarde um menino na rua
e à frente como um sol uma bola de cor
enquanto acima o sol real se espreguiçando
cai sobre o tempo morno e absorto do passado
em lentas gotas rubras num solene rio
um domingo uma tarde uma árvore frondosa
irrompendo na rua como um cone verde
enquanto as aves chamam o parceiro ausente
e os muros alvacentos gritam sob a luz
o prazer de brilhar na mornidão tranquila.
como pedir ao tempo
escasso e errante pingo
que fixe para sempre
a tarde de domingo?
Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.12