A vaca que escapou, 1885
Julien Dupré (França, 1851-1910)
óleo sobre tela, 100 x 139 cm
Museu D’Orsay, Paris
“…e a criança vagabundeava pela aldeia. Ele acompanhava os lavradores e espantava, atirando torrões, os corvos que alçavam voo. Comia amoras ao longo das valetas, guardava os perus com uma vara, revolvia o feno na ceifa, corria pelos bosques, jogava amarelinha no pórtico da igreja nos dias de chuva e, nas grandes festas, suplicava ao sacristão que lhe deixasse bater os sinos, para se dependurar com todo o corpo à grande corda e sentir-se levar por ela no balanço.
Assim, ele cresceu como um carvalho.”
Em: Madame Bovary, Gustave Flaubert, Tradução de Mário Laranjeira: Penguin Classicos






Uma bela pintura de um personagem tão sofrido, complacente, displicente mas que conheceu ou fundiu amores distintos. Soube ser Eros e Philya. Resiliente e quase bobo. Mas no fundo não erabobo. Amava! E dentro do peito carregava uma das mais sublimes virtudes: a capacidade de perdoar.
Isso mesmo, Gustavo, acho que ele é mais conhecido por ser um tanto desconectado, talvez não muito inteligente, mas você tem toda razão, capaz de um grande amor e mais ainda capaz de perdoar, coisa rara e difícil! Obrigada pelo comentário!
Prezada amiga,
Não encaro Charles como burro. Vejo-o como um sujeito também envolvido na sua rotina de vida. A cirurgia que deu errado foi, na verdade, um procedimento experimental, e o erro foi permitir que o ego dominasse e impedisse a tomada das providências necessárias. Flaubert não deixa claro que ele fosse um profissional incompetente.
O bovarismo está hoje mais presente do que nunca; basta abrirmos o Instagram ou o Facebook para ver como as pessoas observam a vida dos outros, encantam-se e tentam replicá-la. Já presenciei muitos homens inférteis devido ao uso de anabolizantes para alcançar corpos que, na minha opinião, são ridículos, mas que fazem parte do espírito do nosso tempo.
Atenciosamente,
Gustavo Magno Baptista
Gustavo, sim, você tem razão. Um homem um pouco sem jeito, sua sensibilidade para nuances limitada. Alguém que gostava da rotina, feliz dentro de seu limitado mundo. Mas ele a amava, ou melhor, veio a amá-la mais do que à primeira mulher. Não tenho dúvidas. Um casamento fadado ao desastre, porque ela também casou sem amá-lo. Era o que tinha. O único pretendente que lhe apareceu. E, sim, sonhava com outra vida, mas à moda dela, também tentou ter uma vida mais preciosa no casamento. Desde ler todos os poemas de amor que conhecia, para ele, à noite no jardim, se não me falha a memória, como colocar ordem na casa. Mas, realmente, não havia química suficiente para que obstáculos que poderiam ser contornados se tornassem inofensivos. Obrigada por me dar rica visão da sua leitura,