Primeira leitura completa de 2026

1 01 2026

Tenho muitas leituras em meio de caminho, livros que estou lendo simultaneamente. Mas esse comecei hoje de manhã. Não é grande vantagem que um livro de 94 páginas tenha sido lido em um dia. Mas eu o recebi quando cheguei em casa de Rio das Ostras e hoje abri para ver exatamente o que era. Não resisti. Li inteirinho.

Gosto de Somerset Maugham, um autor que conheci lendo Servidão Humana, livro um pouco maduro para os meus primeiros anos na adolescência quando estava febril para ler os grandes autores. Era um volume emprestado da Biblioteca da Gávea, que eu frequentava assiduamente desde criança.

Os livros e você: clássicos da literatura que podem ampliar a sua visão de mundo, é um grupo de três ensaios que Maugham escreveu para a revista americana Saturday Evening Post. Eles foram coletados e publicado na Inglaterra em 1940. Essa tradução é a primeira no Brasil, feita por Pablo Guimarães, publicada em Piraquara, Editora Vimara: 2024.

Fim de ano, para quem lê, é sempre recheado de listas de livros que ainda não lemos, que queremos ler. E esse livro me pareceu perfeito para que eu selecionasse algo que escapasse dos batidos e lidos russos, e clássicos mais modernos. Sendo um escritor inglês a maioria dos livros mencionados como sugestão para leitura são ingleses. Mas há também russos, franceses e até alemães.

A parte mais charmosa do livro são os comentários que Maugham faz, alguns bastante cortantes, sobre obras constantemente citadas como imperdíveis. Mais que isso, no entanto, é sua postura que, para o leitor comum, livros devem ser sempre agradáveis de ler. Se não o forem, deixe de lado.

Consegui deliciosas citações sobre leituras, que eventualmente, aos poucos colocarei aqui no blog, como costumo fazer. Somerset Maugham faleceu em 1965. Suas sugestões não incluem os escritores mais recentes, nem mesmo muitos dos que já eram conhecidos na primeira metade do século XX. Listas sempre refletem o leitor que as fez. A leitura desse livro foi uma conversa com um dos mais interessantes autores ingleses da primeira metade do século passado.

PS: Sim, anotei alguns nomes. E estarei procurando por suas obras.





Para o 1º dia do ano: uma letra especial de Nelson Motta!

1 01 2026

Marinha, 1946

Yvonne Visconti Cavalleiro (Brasil, 1901-1965)

óleo sobre tela, 34 x 50 cm

 

 

Como uma onda (Zen-surfismo)

 

Canção de Lulu Santos ‧ 1983

Letra de Nelson Motta

 

 

Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia

Tudo passa, tudo sempre passará

A vida vem em ondas

Como um mar

Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é

Igual ao que a gente viu há um segundo

Tudo muda o tempo todo no mundo

Não adianta fugir

Nem mentir

Pra si mesmo agora

Há tanta vida lá fora

Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

Como uma onda no

Nada do que foi será

(De novo do jeito que já foi um dia)

(Tudo passa, tudo sempre passará)

Tudo que se vê não é

Igual ao que a gente viu há um segundo

Tudo muda o tempo todo no mundo

(Não adianta fugir

Nem mentir

Pra si mesmo agora

Há tanta vida lá fora

Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar

Como uma onda no mar)

-*-*-*-

 

 

Por uma dessas circunstâncias da web essa música apareceu para mim diversas vezes nos últimos dias.  Achei apropriada para o começo de um novo ano.  É uma música filosófica.  Perfeita para pensarmos sobre a passagem do tempo e memória. E nesses dias aprendi algo que não sabia.  Foi numa postagem no Instagram de Fabricio Mazocco (@enigmasdorock), que soube que Nelson Motta havia se inspirado em dois livros: A arte cavalheiresca do arqueiro Zen, de Eugen Herrigel e Buda, de Jorge Luis Borges.  Mais ainda, que ele usou um verso de Vinícius de Moraes, A vida vem em ondas como o mar, como uma homenagem ao poeta, que havia acabado de falecer, e que retirou do poema O Dia da Criação. Só boas referências tinham que suscitar a belíssima letra dessa canção.

 

 

O Dia da Criação 

 

Vinícius de Moraes

 

O dia da CriaçãoQue tem como epígrafe as palavras da BíbliaMacho e fêmea, os criouSegundo Gênese, versículo 27
 
Hoje é sábado, amanhã é domingoA vida vem em ondas, como o marOs bondes andam em cima dos trilhosE nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar
 
Hoje é sábado, amanhã é domingoNão há nada como o tempo para passarFoi muita bondade de nosso Senhor Jesus CristoMas por via das dúvidas, livrai-nos, meu Deus, de todo mal
 
Hoje é sábado, amanhã é domingoAmanhã não gosta de ver ninguém bemHoje é que é o dia do presente
 
O dia é sábado
Impossível fugir a essa dura realidadeNeste momento todos os bares estão repletos de homens vaziosTodos os namorados estão de mãos entrelaçadasTodos os maridos estão funcionando regularmenteTodas as mulheres estão atentas
 
Porque hoje é sábado
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábadoHá um divórcio e um violamento
(Porque hoje é sábado)
Há um homem rico que se mata(Porque hoje é sábado)Há um incesto e uma regata(Porque hoje é sábado)
Há um espetáculo de gala(Porque hoje é sábado)E há uma mulher que apanha e cala(Porque hoje é sábado)
Há um renovar-se de esperanças(Porque hoje é sábado)E há uma profunda discordância(Porque hoje é sábado)
Há um sedutor que tomba morto(Porque hoje é sábado)E há um grande espírito de porco(Porque hoje é sábado)
Há uma mulher que vira homem(Porque hoje é sábado)E há criancinhas que não comem(Porque hoje é sábado)
Há um piquenique de políticos(Porque hoje é sábado)E há um grande acréscimo de sífilis(Porque hoje é sábado)
Há um ariano e uma mulata(Porque hoje é sábado)E há um tensão inusitada(Porque hoje é sábado)
Há adolescências seminuas(Porque hoje é sábado)E há um vampiro pelas ruas(Porque hoje é sábado)
Há um grande aumento no consumo(Porque hoje é sábado)E há um noivo louco de ciúmes(Porque hoje é sábado)
Há um garden-party na cadeia(Porque hoje é sábado)E há uma impassível lua cheia(Porque hoje é sábado)
Há damas de todas as classes(Porque hoje é sábado)Umas difíceis, outras fáceis(Porque hoje é sábado)
Há um beber e um dar sem conta(Porque hoje é sábado)Há uma infeliz que vai de tonta(Porque hoje é sábado)
Há um padre passeando à paisana(Porque hoje é sábado)E há um frenesi de dar banana(Porque hoje é sábado)
Há a sensação angustiante(Porque hoje é sábado)De uma mulher dentro de um homem(Porque hoje é sábado)
Há a comemoração fantástica(Porque hoje é sábado)Da primeira cirurgia plástica(Porque hoje é sábado)
E dando os trâmites por findos(Porque hoje é sábado)Há a perspectiva do domingoPorque hoje é sábado (sábado!)




Feliz 2026!

1 01 2026

Japan House, São Paulo, SP.  Foto: Ladyce West

 

Estou de volta.  Não, não me mudei para São Paulo, apesar dela ser uma das minhas cidades favoritas no mundo!  Está atrás de Londres, é verdade, mas é muito boa! 

Dadas as frustrações com obras aqui em casa, ainda não acabadas, resolvi chutar o balde e fui para Rio das Ostras na costa fluminense, passar alguns dias, repensar a vida, o blog, a escrita, a poesia, tudo.  Tive tempo para pensar.  Fora a pele queimada, mesmo na sombra e com protetor solar, que não estava planejada, tudo foi excelente.  Depois de 17 anos completos de blog, este foi o primeiro longo período sem postagens.  Eu me devia. Pelo menos corpo e alma pensam assim.

É claro que desejo a todos vocês sábias decisões para o ano que se inicia.  Que seus sonhos e decisões sejam compatíveis com a realidade, para que no próximo dezembro a lista de realizações, ou conquistas, seja bem maior do que os projetos abandonados ao longo do ano.

Agradeço também aos inúmeros seguidores que me desejaram um Feliz Ano Novo, às centenas de pessoas que comentaram nesse dezembro sobre postagens antigas, e sobretudo aos milhares de assinantes e visitantes desse nosso cantinho de arte, literatura e outras coisas mais.

 

Feliz 2026!