Vento do mar e o sol no meu rosto a queimar…

20 06 2025

Paisagem Rio de Janeiro

Inimá de Paula (Brasil,1918-1999)

óleo sobre tela, 40 X 50 cm





Ritual que se foi…

20 06 2025

Domingo passado estive numa festa de aniversário de duas amigas: mãe e filha. A mãe completava oitenta anos e a filha marcava os cinquenta. Foi uma bonita comemoração: família e amigos reunidos numa sessão dupla de felicidade. Na saída, os convidados receberam uma mini licoreira com o licor italiano à base de avelãs, Fra Angélico, favorito da aniversariante mais velha. A garrafinha veio protegida por um saquinho de organza com cartão marcando as datas das aniversariantes e a frase: A vida é um eterno recomeço. No dia seguinte à noitinha, me preparei para degustar o licor, rememorando aquele momento. A bebida me acompanhou na leitura de A vida secreta das árvores de Peter Wholleben. Essa noite tornou-se especial, fiz duas coisas deliciosas: ler e degustar o licor; Um momento em que me voltei para o passado sobre licores, seus usos e como, no presente, licores praticamente desapareceram de minha vida.

Memórias me levaram à casa de meus avós maternos. Naquele Rio de Janeiro era mais comum as pessoas receberem amigos em casa. Não necessariamente durante o final de semana, nem estou falando de grandes festas. Mas visitas durante a semana, à noite, depois do jantar, quando a mesa já havia sido retirada, e sobrava tempo para minha avó se sentar com o jornal da manhã, lápis em punho, para completar suas palavras cruzadas. Era o sinal para meu avô se esconder no escritório, uma sala não muito grande, coberta por estantes de livros, encapados com papel pardo, etiquetados e enfileirados em prateleiras protegidas por portas de vidro de correr. Minhas memórias desse escritório, ficaram para sempre marcadas pelo perfume de tabaco. Lá, era onde meu avô dava uma cachimbada noturna, impregnando o ar com o perfume doce, delicioso, do fumo, que era guardado solto em um pote de vidro hermético, difícil de abrir, mantido ao lado do umidor onde ele que guardava charutos para ocasiões especiais.

Eram noites comuns. Nada de especial: não eram aniversários, nem ocasiões extraordinárias. Mas de quando em quando, meus avós recebiam uma ou outra visita na semana. Os visitantes chegavam por volta das vinte horas, depois do jantar, vestidos no que hoje acharíamos trajes muito formais. Homens na maior parte do tempo sozinhos para conversar com vovô. Vinham de terno e gravata. Se trouxessem suas esposas, elas também vinham vestidas de modo igualmente formal, perfumadas, com bolsas dependuradas no antebraço. Essas eram as roupas que se usava para sair e visitar amigos. Mas ao contrário do que se possa imaginar, elas não faziam as conversas mais formais. Não. Eram conversas entre amigos, falavam de coisas comuns. Riam-se. Falavam de política, do governo, do trabalho. Brincavam entre si, e comigo, a neta mais velha da família e sabiam meu nome direitinho, ainda que eu não participasse dos encontros, sentada com um livrinho de colorir, ou até mesmo um gibi num canto caladinha, sem que me atrevesse a conversar sem ser chamada.

Natureza morta com licor Bénédictine, garrafas e taças, 1919

George Mosson (França-Alemanha, 1851-1933)

 óleo sobre tela, 55 x 63 cm 

 

 

Nessas ocasiões os amigos de meus avós eram direcionados ao jardim de inverno, uma grande varanda, fechada com janelas de vidro, repleta de plantas tropicais altas e mobiliário vindo de São Paulo de madeira teca, resquícios de sua longa estadia a trabalho naquele estado.  Na varanda, havia uma mesa pequena para duas pessoas em um canto onde os homens se sentavam, frente a frente, onde vovô, em outras ocasiões, também jogava damas comigo e vovó, para não ficar para trás, me ensinou a jogar Burro e Memória, com o baralho. As senhoras, quando vinham, se sentavam em poltronas também de madeira com almofadões de flores diversas.  Vovó trazia uma bandeja com copinhos para licor, que nada mais são do que taças de vinho liliputianos. Junto, vinham duas ou três garrafas de licores diversos, europeus. Servia cafezinho também, acompanhado de açucareiro e pequeninas colherinhas de prata. Não havia preocupação com açúcar, nem havia, que eu saiba, adoçantes industrializados. Essas bebidas eram o bastante para a conversa rolar por algum tempo.  Quando o som do relógio carrilhão da sala adjacente batia dez da noite, naquela longa melodia inglesa do Big Ben, as visitas ou já haviam saído ou estavam no final das despedidas, prometendo verem-se de novo em breve.

Vovô era de Mato Grosso, estado que ainda não havia sido dividido em dois. Aqui no Rio de Janeiro, existia uma verdadeira colônia de mato-grossenses alguns remanescentes da ditadura de Vargas, que havia recebido apoio de pessoas influentes daquele estado, principalmente na campanha de Getúlio para o desenvolvimento da região centro-oeste, conhecida como ‘Marcha para o Oeste’.  Outros, como meu avô, mandados pelas famílias para estudarem no Rio de Janeiro, que simplesmente permaneceram na capital do país, casados com cariocas, trabalhando por conta própria, na indústria ou empregados do governo. Desterrados, procuravam o consolo do sotaque típico da região e referências às famílias conhecidas que representavam. Quando vovô recebia amigos de lá, o esquema era o mesmo, mas os licores servidos eram diferentes: as frutas reinavam, ainda que eu me lembre de uma bebida de folha de figueira, mas serviam licor de pequi, banana e outro, cujo nome me causava acessos de riso desenfreado: furrundu.  Até hoje tenho um sorriso indomável quando me recordo dessa bebida.  O licor de pequi era meu grande conhecido, porque na prateleira mais baixa da cristaleira de vovó, onde ficavam as garrafas de licores, refletidas no espelho ao fundo do móvel, a garrafa de pequi brilhava como nenhuma outra com seu líquido dourado e a mágica da fruta inteira lá dentro.

 

 

Taça de licor, laranja, par de dados

Daniel Montoya Neiderbach (Espanha, contemporâneo)

óleo sobre placa, 31 x 23 cm

 

 

A bebida também foi consumida quando visitas chegavam na casa de meus pais.  Depois que meus avós morreram, lembro que não se precisava mais de visitas formais para os licores virem ajudar a comemorar a ocasião.  A formalidade na cidade já estava se dissipando.  Mamãe e minhas tias serviam licores às amigas, às irmãs, quando jogavam cartas à tarde ou se reuniam numa tarde de aniversário.  A bebida muitas vezes era acompanhada de algum bombom requintado, mais frequente, no entanto, de uma torta de chocolate, nozes ou bolo de amendoim. Durante o final dos anos setenta e a década de oitenta  passada era comum quem viesse de viagem internacional, trazer de presente uma garrafa de licor para um membro da família ou um amigo: Fra Angelico, Cointreau, Baileys entre outros. Não consigo precisar uma data quando na minha família perdeu-se esse hábito.  Talvez a idade da geração de meus pais,  talvez preocupações com saúde, ou até mesmo altos e baixos econômicos do país possam ter contribuído para isso.  Visitas à noite, no meio da semana também rarearam, aconteciam principalmente entre membros da família, meu pai visitando seu irmão, meus tios vindo para um abraço rápido de congratulações pelo aniversário de alguém. Aos poucos perdeu-se o ritual do licor como gesto de boas-vindas. 

Tudo mudou nos últimos quarenta anos. Às vezes precisamos de um gole de licor de amêndoas  para considerar as mudanças sociais por que passamos.  Devo à minha amiga Rose, e a comemoração de seus oitenta anos, essa pausa para reflexão e viagem pelas memórias de infância. 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, junho 2025.





Todo mundo lê!

20 06 2025

Uma história de dois Corgis pelo cachorro de Dickens, de Susan Alison





Palavras para lembrar: Stephen King

19 06 2025

À beira-mar, 1945

Milton Avery (EUA,1885-1965)

óleo sobre tela,  28 x 36 cm

Hunter Museum of American Art, Chattanooga, TN

 

 

“Livros são uma mágica portátil sem igual.”

 

Stephen King





Eu, pintor: Ismael Nery

19 06 2025

Autorretrato. 1927

Ismael Nery (Brasil, 1900-1934)

óleo sobre tela, 131 x 86 cm

Coleção Particular





Filhotes fofos!

19 06 2025

Filhote de Asno Selvagem Persa ou Asiático, uma espécie rara de equino, nasceu no Zoológico de Chester na Inglaterra.  Essa é uma espécie em extinção, acredita-se que haja só 600 exemplares em todo mundo.





A arte do desenho: Constantin Guys

19 06 2025

Uma jovem espanhola

Constantin Guys (França,1802–1892)

aquarela sobre papel, 69 x 58 cm 

The Phillips Collection, Washignton D.C.





Um livro de impacto: J. D. Salinger

18 06 2025

Orgulho, 1977-78

Jack Beal (EUA, 1931-2013)

pastel on placa artística,101 x 81cm

 

 

“O que verdadeiramente tira o meu fôlego é um livro que, quando você termina de ler, deseja que o autor que o escreveu fosse seu grande amigo e que você pudesse chamá-lo ao telefone, a qualquer hora que desejasse.”

J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio

Tradução: Ladyce West




Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

18 06 2025

Natureza morta com cebolas

Benedito José de Andrade (Brasil, 1906-1979)

óleo sobre placa, 24 x 34 cm

 

 

 

Natureza morta com cebolas 

Domingos Gemelli (Brasil, 1903 – 1985)

óleo sobre tela, 20 x 24 cm





Dia a dia…

18 06 2025

 

Muitas vezes não sabemos o impacto que nossas ações podem exercer sobre outras pessoas.  Fui levada à Oficina de Escrita do escritor Luís Pimentel pelas mãos de uma amiga, Magali Lee Cotrim, que estava interessada em escrever memórias.  Fui, ainda sem saber bem como tudo isso funcionava.  Escrever havia sido sempre parte de minha vida, ainda que fosse segredo.  Manuscritos, tenho-os alguns.  Talvez, por haver feito resenhas de livros para jornais e no blog, há 17 anos, algumas centenas de resenhas, meu medo de meus textos não serem bons, sempre me impediu de aparecer como escritora.  

Fui aos primeiros encontros da turma de Pimentel com o coração nas mãos;  O que encontrei lá foram colegas respeitosos, críticos onde deveriam ser;  e Luís Pimentel, cujas palavras, gentis, mesmo quando sugeriam mudanças nos textos, guiaram e apoiaram meu trabalho.

A essa altura, meu marido já se achava adoentado.  Com a pandemia ele piorou.  Tive muito medo dele morrer sem que visse que eu havia levado minha escrita avante. Desde que o conheci, Harry havia me dado todo apoio à escrita.  Aos meus textos em inglês e aos em português. Não fosse por ele eu não teria me dedicado a dois romances engavetados, à tradução do português para o inglês, às críticas literárias.  Todo esse tempo, trabalhando como historiadora da arte e mais tarde galerista.  

No final de 2020 quando ainda dava tempo de meu marido ver a publicação de À meia voz, resolvi publicar.  Luís Pimentel me deu o presente de escrever a orelha do livro, introduzindo essa nova poeta.   Fica aqui mais uma vez meu agradecimento, meu apreço às suas orientações.  Fazer parte de seu círculo de escritores foi uma das mais importantes decisões que já tomei. Sem hesitar faria outra temporada sob seu olhar agudo e carinhoso.  Obrigada, Pimentel.