Praça 15 de Novembro, RJ, 1986
Grover Chapman( EUA-Brasil, 1924-2000)
óleo s obre madeira, 30 X 40 cm
Praça 15 de Novembro, RJ, 1986
Grover Chapman( EUA-Brasil, 1924-2000)
óleo s obre madeira, 30 X 40 cm
Menina lendo livro, 1937
Winifred Pattison (Inglaterra, 1920)
[née Winifred Wheeler]
óleo sobre tela
É gratificante quando sou apresentada a uma nova escritora, em seu primeiro romance, e saio da leitura entusiasmada, imaginando como será bom me encontrar no futuro, com a autora em outra obra de ficção. Tana Moreano presenteia o leitor com prosa direta, sem grandes rebuscados, contando uma história eletrizante, perfeitamente ritmada, sem cenas repetitivas, sem causar um único um momento de tédio. Sua escrita me pegou logo no primeiro capítulo de Cora do Cerrado, [Maringá, Editora: A. R. Publisher Editora: 2024]. Eu já vinha seguindo a escritora no Instagram, em razão dos vídeos em que explicava palavras encontradas no português falado no interior do país, que muitas vezes eu desconhecia. Foi assim que me familiarizei com a escritora e quando o livro apareceu em pré-venda, decidi imediatamente comprá-lo. De fato, o livro será lançado neste fim de semana, no sábado, dia 6 de julho no Centro de Ação Cultural, à Avenida XV de Novembro, Zona 01 em Maringá-PR às 19h. Se puder, vá lá prestigiar o nascimento de uma boa escritora. Porque Tana Moreano é uma engenheira agrônoma, carioca de nascimento e mineira de coração, que por seu trabalho acabou “assimilando vivências e costumes” de diversos locais do Brasil. Esse conhecimento adquirido in loco, essa vivência íntima com a vida recôndita do país, aparece na firmeza da prosa com que relata as aventuras de Cora.
Fui puxada para a história da personagem principal desse pequeno romance, pelo relato da primeira cena do livro, quando somos apresentados ao que irá acontecer em algum ponto da narrativa. Sabemos de antemão que presenciamos as consequências de algo com sintomas de catástrofe acontecida a essa personagem à qual ainda não fomos formalmente apresentados. Contudo, por isso mesmo, desde as primeiras vinte linhas, começamos a torcer por ela. Sabemos que está correndo perigo. Nossa simpatia é imediatamente seduzida por suas ações e a tensão é tanta, que não dá vontade de parar de ler até sabermos como foi que chegamos àquele ponto. Fui fisgada como um peixe com a boca presa no anzol e não resisti.
Ainda que ao descrever esse início eu possa ter passado a ideia de se tratar de um suspense, isso está longe da verdade, pelo menos pelos parâmetros mais comuns dos contos de suspense. Há sim, uma busca tenaz do leitor por resolver o mistério que justificará a cena inicial. Porém, esta é a história de uma mulher que, tendo nascido na cidade grande, conhece um homem do interior e acaba indo morar na fazenda da família dele no cerrado. Jovem, com um filho pequeno de um relacionamento anterior, cujo namorado desapareceu, ela se encontra no início de uma gravidez, desta vez do rapaz que a leva à vida no campo. Sua adaptação a esse novo mundo é repleta de desafios. Mas ela precisa, também, superar limitações interiores para ser bem sucedida na empreitada do viver. Não há como não torcer por Cora.
Além de se tratar de uma trama irresistível, Cora do Cerrado cumpre um papel importante, ao mostrar aos leitores, um exemplo de perseverança e de rigoroso desejo de sobrevivência. Com olhos ‘estrangeiros’, de alguém que não pertence ao local onde vive, ela observa o comportamento daqueles à sua volta. Aprende com as mulheres com quem se relaciona a prática do próprio sustento em ambiente inóspito. Ela se familiariza com o mínimo para superar os obstáculos que lhe são impostos tanto pela natureza, quanto pelos costumes locais e ganha, graças à imensa vontade de se ajustar a esse novo mundo, coragem para superar limitações físicas e emocionais. Cora é uma heroína exemplar.
Ao final do livro me peguei recordando que na minha juventude e até mesmo nas leituras que fiz como jovem adulta, raramente encontrei, na literatura brasileira, exemplos tão atraentes de mulheres vencedoras como Cora. Encontrei sim, sacrifícios semelhantes, mas no geral, lembro-me mais de mulheres que se submetiam com ou sem resignação aos modelos impostos pelos tempos. E considerei quanto ocasionalmente teria sido importante para mim, poder recorrer em hora de dúvida, a um personagem como Cora. Ainda bem que esta veio ´para preencher esse vazio no nosso mundo.
Recomendo sem restrições. Violência atenuada por exemplar discrição. E não é gratuita. Vale a leitura, espero que se transforme em livro de grande sucesso.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Jovem lendo, 2008
Jose van Gool (Holanda, 1945)
óleo sobre tela
Mário Faustino
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
[27/7/1954]
Em: O homem e sua hora e outros poemas, Mário Faustino, org. Maria Eugênia Boaventura, São Paulo, Companhia das Letras: 2009, p.195
Natureza morta,1968
Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)
óleo sobre tela, 38 x 55 cm
Natureza Morta
Martinho de Haro (Brasil, 1907-1985)
óleo sobre placa, 74 x 54 cm
Barão de Javari, Miguel Pereira, 1965
Virgílio Tenório Filho (Brasil, ?)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm
Homem lendo à luz de lampião
Adrien Hebert (França-Canadá, 1890-1966)
óleo sobre tela
Terminei hoje a leitura de As filhas moravam com ele, uma coleção de contos do escritor e jornalista André Giusti, [Nova Lima, MG, Editora Caos e Letras: 2023]. Há muito tempo não me dedicava a um grupo de contos com tanto prazer. Para mim, contos, crônicas e poesia são coletâneas que leio aos poucos, um texto por dia, porque por serem pequenos, em geral, entregam muito, já que não podem se perder na narrativa. Todos os três gêneros têm a habilidade de causar impacto rápido e certeiro. E isso acontece com as histórias deste autor carioca, radicado em Brasília.
Giusti traz contos enraizadas no desvario que nos rodeia e que sem querer assimilamos ao viver numa grande cidade, hoje. Ele retrata a insensatez que nos instiga, corrompe, empurra e muitas vezes atraiçoa na vida cotidiana. Constante nessas vinte histórias é a incredulidade da pessoa de bem que quer simplesmente tocar a vida com calma, segurança e bom-senso. Invariavelmente nos vemos nos personagens das histórias. Se não nos vemos, conhecemos alguém que entra direitinho naquele perfil. No entanto, frequentemente as situações em que elas se encontram, mesmo que corriqueiras, trazem consequências inesperadas, quase absurdas, que as deixam pasmas, beirando a inércia. E fica o profundo sentido de frustração permeando as histórias; pois não é raro, diante de uma consequência imprevisível, que a resposta do homem comum seja apenas uma série de impropérios que aliviam só de modo superficial os desatinos que encontrou.
Vale salientar que André Giusti não é um iniciante no trato da palavra. Jornalista por profissão e autor de pelo menos doze livros, ele traz na sua narrativa algumas preciosas imagens e descrições diretas que não deixam dúvidas sobre sua capacidade de dizer exatamente o que pretende. Cito aqui dois exemplos, o primeiro pela divertida e carinhosa descrição de uma mulher: “Mariana ri com os olhos levemente vesgos e intensamente alegres. Os olhos de Mariana parecem esquilos escapulindo por árvores de um parque.” [110] E em segundo lugar, um exemplo da maneira direta com que nos conta muita coisa com apenas uma frase: “Para desfazer o possível constrangimento real, Robério toma um grande gole de chope, arrota sem conseguir ser discreto e anuncia que tem novidade: vai ser avô, e faz uma cara que nos deixa em dúvida se ele acha bom ou ruim. [60] Estas maneiras variadas na escrita revelam completo domínio da arte. É narrativa que seduz o leitor.
Não sei se estou certa ao dizer que a escrita de Giusti tem o tom do carioca. Penso que ele foi para Brasília, mas que o Rio de Janeiro não saiu dele. Ritmo, irreverência, diálogos e filosofia de vida de seus personagens parecem saídos dos meus vizinhos, dos meus conhecidos, dos meus ouvidos. Mas além disso, sinto nessa coletânea o retrato de como está realmente dura, difícil de gerenciar a vida nos nossos dias, sobretudo o cotidiano do homem, daquele que só pretende levar uma vida comum, de conhecedor de alguma coisa, de vivenciador de algumas belezas e tristezas, de cidadão que quer acertar na educação da filha, no romance com a mulher, no convívio no emprego. Em nenhum momento, que fique claro, isso é explícito nessas histórias. Mas ao terminar a leitura, repassando o que li, fica essa consideração: está difícil manobrar a vida com as exigências que nos foram impostas, a impaciência geral e a intransigência generalizada. Você quer um retrato da vida de hoje? É aqui que vai encontrar.
Recomendo sem qualquer objeção a leitura desse delicioso livro. Cinco estrelas.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.