Mais do que o Natal

24 12 2022
Harry Carter West

Este é meu primeiro  Natal sem meu companheiro de vida, marido, amigo, amante, interlocutor de todas as horas.  A data ainda é mais significativa porque também era seu aniversário.  Sim, nascido no dia 24 de dezembro, como presente de Natal e de aniversário para seu pai, que nascera no dia 25 de dezembro, décadas antes. 

Fiz questão de montar a árvore de Natal, mesmo que não haja comemoração alguma de seu aniversário.  Para Harry, Natal precisava de árvore. Mesmo quando passamos a data em viagem – Grécia, Alemanha e Espanha -, em nossos aposentos nos hotéis sempre havia alguma decoração natalina, trazida conosco ou comprada no local.  Certa vez nos mudamos de endereço nessa época e Harry saiu às pressas, dia 24, para comprar nossa árvore, como é costume nos Estados Unidos, para que o dia 25 contasse com o esplendor merecido. A árvore era um pouco capenga e calva de um lado, mas pusemos num canto da sala e saiu tudo perfeito. Não éramos religiosos, mas crescemos dentro do cristianismo, eu católica, ele presbiteriano, e mantivemos os  rituais das principais comemorações cristãs. Seria impensável passar em branco este primeiro Natal sem ele. Estou feliz por ter enfeitado a casa como de costume.  Harry está presente, hoje aqui comigo.

 

Harry C. West, no jardim da casa de seus pais, Washington, NC

 

O tema das minhas meditações nesses dias tem sido sincronicidade, mão do destino, sorte, coincidência.  Porque tudo conspirava para que jamais  nos conhecêssemos e para nosso encontro não dar certo desde então. Não tínhamos amigos em comum, não fomos apresentados um ao outro, nos apresentamos.  Morávamos  em cidades diferentes, em estados diferentes, profissões diferentes. Experiências de vida diversas: eu, nascida, crescida no Rio de Janeiro; ele americano, crescido inicialmente na Carolina do Norte, depois dos quinze anos estabelecido na Pensilvânia, em colégio interno, The Hill School.  Em comum:  ciências humanas.

Naquela ocasião Harry passava quatro dias no Distrito de Columbia, pesquisando fontes de inspiração para o escritor Nathaniel Hawthorne, na Biblioteca do Congresso (uma das maiores, se não a maior dos EUA).  Eu acabara de defender minha tese de mestrado  e pensava em fazer o PhD em história da arte.  Como estudava na Universidade de Maryland, em College Park, um subúrbio de Washington DC, usava a Biblioteca do Congresso regularmente, a uma pequena viagem de metrô da porta da minha casa.

Minhas manhãs e muitas tardes se passaram no local. Eu estava familiarizada com os pesquisadores regulares, com os quais era comum tomar café ou trocar ideias nas pausas da pesquisa. Portanto, quando Harry entrou no salão Thomas Jefferson, eu sabia que era alguém novo por ali. Pensei  tratar-se de algum membro do staff de um senador ou deputado federal, comum por lá, porque estava vestido de maneira mais formal do que pesquisadores: gravata a meio mastro, paletó de tweed e capa London Fog (pois chovia naquela segunda-feira em DC).  Além disso, entrando pela porta secundária, ele parou para se localizar, o porte seguro, confiante e calmo, que mais tarde eu viria a descobrir ser típico dos alunos do  colégio interno em que ele estudou. Estas escolas preparam o jovem, naquela época só rapazes, não apenas para o sucesso acadêmico, mas também  para assumirem seus destinos profissionais e sociais. Linguagem corporal é importante.  Harry entrou na biblioteca como se a ela pertencesse, como a comandasse, mesmo sendo aquela sua primeira vez lá.

 

Harry no escritório na universidade onde ensinou.

Além disso Harry, quase dez anos mais velho do que eu, projetava a segurança de quem sabia seu lugar no mundo, a confiança em si mesmo propiciada pelo PhD em Literatura Americana por uma das melhores universidades do país,  numa época em que ter um PhD era bem mais incomum.  Divorciado havia quatro anos, com um filho de seis, era um homem do mundo com uma cultura refinada muito acima da média.  Tudo isso eu descobri dois dias depois de vê-lo pela primeira vez. Mantivemos contato visual durante dois dias.  Na quarta-feira, terminando a procura pelos textos que viera consultar,  ele veio até a minha mesa perguntar se eu não queria tomar um café.  Aceitei. Era comum fazer isso  entre os pesquisadores.  E assim começou um relacionamento especial, duradouro, repleto de paixão, companheirismo, carinho, agraciado pelos deuses. 

Impossível descrever a falta que ele faz. Sua voz, suas ideias, seu toque, os olhos sempre carregados de paixão pela vida, pelos textos. Aprendi muito com ele. Foi uma vida a dois inesperada, incomparavelmente feliz. Hoje é dia de honrá-la com especial alegria e gratidão.

 
 
Nós, já morando no Rio de Janeiro.

Happy birthday, love.





Natalinas: Paul Villeneuve

23 12 2022

A árvore de Natal

John Koch (EUA, 1909-1978)

óleo sobre tela

 

“O tempo é quando vamos de um Natal a outro.”

 

Paul Villeneuve





Rio de Janeiro, RJ, Brasil

23 12 2022

Rio de Janeiro,capital da beleza, 1939

Bruno Lechowski (Polônia-Brasil, 1887 – 1941)

aquarela sobre papel, 62 x 80cmm

MNBA





Natalinas: Guillaume Apollinaire

22 12 2022

Marc Chagall | MATERNITÉ AVEC PÈRE NOËL (1954) | MutualArt

Maternidade e Papai Noel, 1954

Marc Chagall (Rússia-França, 1887-1985)

guache sobre papel, 31 x 24 cm

Coleção Particular

 
“É Natal: hora de reacender as estrelas.”

Guillaume Apollinaire





Eu, pintora: Havy Kahraman

22 12 2022

Autorretrato, 2009

Havy Kahraman (Iraque-EUA, 1981)

óleo sobre tela, 172 x 76 cm





Natalinas: Georges Dor

21 12 2022

O primeiro Natal

William Henry Margetson (Inglaterra, 1861-1940)

aquarela, 18 x 28 cm

 

 

“Natal, é a véspera, é a espera.”

 

Georges Dor

 





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

21 12 2022

Natureza morta, frutas e licoreira

Rodolfo Amoedo (Brasil, 1857-1941)

aquarela sobre papel, 39 x 45 cm

MNBA, Rio de Janeiro





Mãe, poesia de Abel Silva

20 12 2022

 

 

COLETE PUJOL (São Paulo, 1913 -1999) Dona do Lar. Óleo s tela. Ass. cie e datado de 1944. 46 x 38 cmDona do Lar, 1944

Colette Pujol (Brasil, 1913 -1999)

óleo s tela,  46 x 38 cm

 

Mãe

 

Abel Silva

 

E então começou a acontecer comigo

de encontrar a todo instante minha mãe.

Passo na fila da carne

lá está ela esperando a vez

chego comovido e irritado

vou tocar-lhe o ombro e dizer

bobagem, mãe!

pede a carne pelo telefone

mas logo percebo o engano me afasto

e a senhora desconhecida

ganha mais um metro na direção do balcão.

No táxi

vou gritar ao motorista que pare

minha mãe está na esquina sob o sol

não há dúvidas é ela

se protegendo da chuva sob a marquise

perplexa no arrastão ondeante de corpos esguios

perigosamente lenta na correnteza de meninos sem mãe

subitamente estrangeira

(minha mãe tão brasileira!)

sob códigos confusos

minha mãe nas mulheres entrevistadas pela TV

reclamando dos preços absurdos de tudo

nos bancos da rodoviária

na fila dos aposentados

minha mãe se multiplicando pelas ruas de minha cidade

onde carrego meu buquê de esperanças devastadas e sonhos implodidos

um mil séculos-luz longe do ninho

do ponto obscuro

uterino

de que hoje sou futuro.

 

Em: Mundo delirante: poesias, Abel Silva, Rio de Janeiro, Europa: 1990, p. 88

 





Nossas cidades: Santana de Parnaíba

20 12 2022

Santana de Parnaíba, 2008

Márcio Schiaz (Brasil, 1965)

óleo sobre tela, 49 x 39 cm





Imagem de leitura — Sir Edwin Henry Landseer

19 12 2022

Elizabeth Wells,  Lady Dyke, sentada com vestido cinza com livro nas mãos, 1831

Sir Edwin Henry Landseer (Inglaterra, 1802-1873)

óleo sobre madeira, 36 x 26 cm