O escritor belga Georges Simenon, um dos mais prolíficos escritores de todos os tempos, mantinha a produção de oitenta páginas por dia. Levou muito tempo para usar uma máquina de escrever. Até fazer isso, ele tinha o hábito de se preparar para escrever, apontando cinquenta lápis que colocava organizados em fila sobre a escrivaninha. Desse modo, se, por acaso quebrasse a ponta de um lápis podia trocá-lo rapidamente sem perder tempo. Além disso, já tendo publicado muitos livros, tinha o ritual de fazer a lista de personagens do livro em que estava trabalhando, num envelope amarelo, para poder se lembrar de seus nomes à medida que a trama se desenrolava.
Acho que foi um erro começar meu relacionamento com Truman Capote através desses Primeiros Contos, com tradução de Clóvis Marques. Conhecido por sua obra À sangue frio, também escreveu outros textos adaptados para o cinema como Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s) além de scripts para o teatro ou scripts feitos diretamente para filmes. Nunca havia lido nada dele. Mas neste Natal recebi de presente este livro de contos, seus primeiros, que só foram publicados depois de seus sucessos, quando redescobertos nos arquivos da Biblioteca Pública de Nova York.
Acredito que essas histórias escritas na adolescência e no início da idade adulta teriam mais interesse para o estudioso da obra de Capote, do que alguém, como eu, que gostaria de se familiarizar com o autor. Essas histórias são bem escritas. Parecem todas perfis de personagens interessantes, talvez para uso futuro. É provável que tenham tido origem em pessoas que o autor conheceu, vizinhos, pessoas da cidade onde cresceu.
Falta em muitas dessas narrativas conflitos interessantes levando a resoluções ou não de alguma questão. A mim pareceu um catálogo de personagens, com belas descrições de caráter e de hábitos peculiares. Capote demonstra compaixão e empatia pelos tipos que descreve. E apesar de ser bastante detalhista nas descrições, sua destreza no contar de histórias (que parece herança da tradição oral comum no sul dos EUA) não chegam a interromper o fluxo narrativo, nem distrair o leitor.
Truman Capote
Voltarei a me familiarizar com a obra de Capote. Certamente essas primeiras histórias tenho certeza não poderiam ser representativas de sua obra madura. Por enquanto não posso dizer que conheço seu trabalho e nem mesmo se gostei de suas observações.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Aquilo que eu mais amo na escrita é o devaneio que a precede. A escrita em si, não, não é muito agradável. Deve-se materializar o sonho na página, assim que se saia do devaneio. Às vezes penso, como é que os outros fazem? Como esses outros autores que, como Flaubert o fazia no século XIX, escrevem e reescrevem, reformulam, reconstroem, e vão condensando a partir da primeira versão até que não reste finalmente quase nada na versão final do livro? Isso soa-me muito assustador. Pessoalmente, contento-me em fazer as correções num primeiro esboço que se assemelha a um desenho que foi feito de uma vez só. Estas correções são numerosas e ligeiras, como uma acumulação de atos de microcirurgia. Sim, é preciso medidas drásticas como faz um cirurgião, ser frio o suficiente com o seu próprio texto de uma ponta à outra, corrigindo, suprimindo, enfatizando. Às vezes basta riscar algumas palavras numa página para que tudo mude. Mas é essa a cozinha do escritor, que é suficientemente chato para os outros.
Sayaka Murata ganhou o prestigiado Prêmio Akutagawa em 2016, por Querida Konbini. Ela está hoje entre escritores mais celebrados do Japão. O Prêmio Akutagawa, é dado duas vezes ao ano [janeiro e julho], a jovens escritores com histórias de sério valor literário, publicadas em jornal ou revista. Este é dos prêmios literários mais cobiçados do país. Querida Konbini, traduzido no Brasil por Ruth Kohl, foi um grande sucesso no Japão principalmente por sua feroz crítica às expectativas sociais sobre a vida cada cidadão.
Esta é a história de Keiko Furukura uma jovem nascida nas proximidades de Tóquio com dificuldades de compreender normas sociais. Portanto, para sobreviver sem criar polêmica, passa a vida limitando seu comportamento às regras que percebe serem importantes, imitando pessoas à sua volta. Por isso parece sempre reagir de maneira esperada e correta. Imita as vozes, a maneira de falar, a entonação, o modo de vestir das colegas de trabalho ou das amigas até se sentir completamente inserida no grupo social ao qual pretende pertencer. Trabalha numa Konbini, loja de conveniência, seu porto seguro, num emprego temporário que consegue aos dezoito anos, estudante universitária, e que ainda mantém na abertura do livro, dezoito anos mais tarde, para incredulidade de todos. Colegas de trabalho e familiares não entendem o motivo de Keiko não procurar trabalho mais seguro, ou “verdadeiro”.
Querida Konbini é uma sátira à sociedade japonesa, sobretudo às expectativas sobre as mulheres: casar e ter filhos sendo considerado uma obrigação de qualquer pessoa normal. Em segundo plano, estão também fortemente criticadas, as expectativas que a sociedade tem sobre o comportamento dentro de um relacionamento entre um homem e uma mulher. Neste ambiente Keiko Furukura, que percebe precisar de um marido ou de um interesse sexual, para melhor se inserir no mundo, persegue um relacionamento com um jovem, Shiraha, também revoltado com o papel social que lhe cabe. As consequências para ela, são incompreensíveis e inesperadas.
A revolta de Shiraha, pode ser exemplificada na seguinte passagem:
” — Li muitos livros de história para ver se descobria desde quando o mundo é errado desse jeito. Li sobre o período Meiji, no século XIX, sobre o período Edo, cheguei até Heian, há mais de mil anos, e o mundo já era errado. Mesmo no período Jomon, na pré-história! … Foi aí que eu compreendi. O mundo em que vivemos hoje não mudou desde aqueles tempos. Quem não contribui para a aldeia é eliminado. Os homens que não caçam, as mulheres que não têm filhos… As pessoas falam muito sobre a sociedade moderna, o individualismo, mas se alguém não se esforça para ser parte da aldeia é estorvado e pressionado por todo mundo e, no fim das contas, acaba expulso.” [87]
Sayaka Murata
Esta é uma narrativa direta, clara. As situações em que Keiko se encontra são frequentemente cômicas para o leitor, ainda que agonizantes para nossa heroína. Aprecio finais abertos ou suspensos, no entanto, o desfecho do livro me deixou insatisfeita. Completamente seduzida por essa moça, que muitas vezes parece ter reações tão pré-programadas quanto um robô, gostaria de ter tido certeza de um futuro melhor assegurado para ela. Mas talvez esse seja o verdadeiro objetivo da narrativa, pessoas como Furukura ou Shiraha não mereçam um futuro tranquilo; como não o teriam tampouco no período Jomon, ou na pré-história do Japão que Shiraha tão bem pesquisou.
Boa leitura, entretenimento que nos faz refletir.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.