Espelho literário

21 10 2017

 

 

claudio dantas, iluminadaIluminada

Cláudio Dantas (Brasil, 1959)

óleo sobre tela, 70 x 100 cm

 

Leio hoje de Tahar Ben Jelloun , o livro Partir. Trata-se de um autor francês de origem marroquina.  Dele já li O último amigo uma pequena joia literária um quase um conto.  Como há tempos me interesso sobre a questão de imigração,  escolhi ler Partir, publicado no Brasil em 2007 pela Bertrand Brasil, cujo tema é justamente o desejo de emigrar para lugares onde se possa viver com decência.

A situação econômica, social e política no Rio de Janeiro tem feito muitos de meus conhecidos emigrarem: Portugal, EUA, Espanha, Israel são alguns dos países de preferência.  Reconheço que a ideia já passou por mim, mas acho que ainda tem jeito, que não é hora de desamarrar o barco.  A decisão pode até ser mais fácil para quem, como eu, viveu a maior parte da vida adulta fora do Brasil, mas é sempre complexa. Por isso mesmo emigração,  ser imigrante em terra alheia, a questão da identidade cultural são todos temas ricos e importantes para mim.

Mas eu não contava, ao ler sobre o Marrocos, de me encontrar diante de um espelho do Brasil. Já logo entre a primeiras 30 páginas, vi detalhadas cenas da realidade marroquina, que levam o personagem principal a tentar emigrar.  Elas parecem descrever o Brasil.  Aqui duas passagens nas páginas 23 e 24.

“Os partidos políticos lamentavelmente fracassaram, não souberam ouvir o que lhes dizia o povo.Eles passaram ao largo disso. Tenho raiva principalmente dos socialistas, que acreditaram numa mudança do governo, que jogaram o jogo do poder e nada fizeram para que a coisa mudasse.”

“É intolerável que um doente que se dirige aos hospitais do Estado seja abandonado porque o hospital está sem recursos. É por isso que intervimos concretamente nos lugares onde o Estado é falho. Nossa solidariedade não é seletiva. É preciso que este país seja salvo; está com comprometimento demais, corrupção demais, injustiça demais e desigualdades. Não pretendo resolver todos os problemas, mas não fazemos outra coisa senão ficarmos de braços cruzados esperando que o governo se ponha a serviço dos cidadãos.”

Em: Partir, Tahar Ben Jelloun, Bertrand Brasil: 2007, página, 23- 24

 

Não quero com isso imaginar que tenho que aceitar essa realidade porque não há solução, porque é assim em qualquer lugar do mundo.  Ao contrário, conheço países em melhores condições e imagino que seria mais fácil para o Brasil chegar aos níveis de desenvolvimento que já presenciei do que o Marrocos, não querendo desmerecer o país africano.

Mas, começo a entender melhor o retrato psicológico de meus amigos que abandonaram o país, e também o retrato dos temores e incertezas que acompanharam meus antepassados, um avô e 3 bisavós ao saírem de suas terras natais, procurando melhores portos onde seus descendentes pudessem viver melhor que eles mesmos.

Esse é um dos encantos da literatura.  Ela nos faz pensar.  Reconhecer nossos problemas pessoais ou sociais.  E é possível que até nos ajude a encontrar soluções.  No momento, este livro me faz pensar sobre o futuro dos meus familiares.





Rio de Janeiro, minha cidade natal!

20 10 2017

 

 

CARLOS CHAMBELLAND (1884 - 1950)Jardim Botânico Óleo s tela 33 x 41 cm -Rio 1949.Jardim Botânico, 1949

Carlos Chambelland (Brasil, 1884-1950)

óleo sobre tela, 33 x 41 cm





Imagem de leitura — Edward Hopper

20 10 2017

 

 

EdwardHopper -- The Barber Shop, 1931Barbeiro, 1931

Edward Hopper (EUA, 1882-1967)

óleo sobre tela, 152 x 198 cm

Coleção Particular





Trova do orvalho

19 10 2017

 

 

outono, folhas, brincadeira, menina

 

 

Pleno outono … e em meu atalho,

sem um amor que me acolha,

invejo a sorte do orvalho

que se abriga em qualquer folha.

 

(Edmar Japiassú Maia)





Eu, pintora: Doris Clare Zinkeisen

19 10 2017

 

 

NPG 6487,Doris Clare Zinkeisen,by Doris Clare ZinkeisenAutorretrato, 1929

Doris Clare Zinkeisen (Grã-Bretanha, 1898-1991)

óleo sobre tela, 107 x 86 cm

National Portrait Gallery, Londres





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

18 10 2017

 

 

MONTEIRO PRESTES - Natureza morta carambolas- Óleo sobre tela, 60 x 90 cmNatureza morta com carambolas

Monteiro Prestes (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 90 cm





Nossas cidades: Itanhaém

17 10 2017

 

ORLANDO BIFULCO. Matriz de Itanhaem - o.s.t. - 34 x 26 cm - assinado no cid.Matriz de Itanhaém

Orlando Bifulco (Brasil, 1937)

óleo sobre tela, 34 x 26 cm





Resenha: “NW” de Zadie Smith

16 10 2017

 

 

The tube stationEstação do metrô, c. 1932

Cyril Edward Power (GB, 1872-1951)

Gravura em linóleo, 29 x 35 cm

 

Há tempos meu marido insiste que eu leia Zadie Smith.  Por isso tenho ambos Dentes brancos e Sobre a beleza, em português e inglês. Mas não foi por aí que conheci a autora. Meu grupo de leitura votou por ler NW  e fiquei entusiasmada.  Sabia que era uma autora excepcional.  Talvez eu tenha exagerado na expectativa, porque achei NW um livro bom mas com problemas. Pelo menos não me agradou como esperava.

O próprio título sugere que o personagem principal de NW não é uma pessoa, mas um lugar: a região de Londres habitada em sua maioria por imigrantes da Jamaica, Irlanda, Índia, China, que se encontra exatamente a noroeste na cidade. É uma área mais pobre, com cultura própria, internacional, ecumênica e, aqui, descrita de maneira vívida e realista. No entanto, às vezes a atenção aos detalhes parece esconder a trama, ou ela é inexistente. Por isso, por ser a história de um local, a narrativa vai para todo lado, sem direção e o texto é picado ainda que às vezes lírico. Não é fácil de seguir, não é user friendly. Mas prende.  Seduz.  Envolve como a atmosfera de um lugar parece rodear tudo o que ali se faz. Lembra maresia em cidade praiana, ou o ar cinza de uma cidade com minas de carvão.  No noroeste de Londres, a colcha de retalhos de culturas se ajustando à inglesa produz uma cacofonia própria, barreira transponível só depois de imersão profunda.

 

NW_1396657414B

 

Há quatro personagens, amigos que se conhecem de infância (Leah, Natalie, Félix e Nathan), vidas comuns, que seguimos através de sketches do dia a dia, em staccato, numa narrativa não linear. Mesmo assim, eles são bem desenvolvidos, tridimensionais, existem em nossa imaginação bem caracterizados.  Eles dão apoio a observações sensíveis que consideram preconceitos de classe e raça.

Talvez a mais impressionante característica desse livro sejam os habilidosos diálogos, que soam verdadeiramente “como se fala” [imagino o trabalho que devem ter dado para traduzir], com o impromptu de interrupções de pensamento e lógica. De fato, Zadie Smith parece querer trazer o caos das conversas simultâneas das grandes metrópoles para perto de nós. Esses diálogos, cheios de gírias e de coloquialismos ecoam a desordenada linha narrativa e ajudam o entendimento do caos que envolve os moradores dos grandes centros urbanos.  Também retrata, em paralelo à conturbada vida citadina, a monotonia de vidas que seguem rotinas por vezes insensatas e o tédio que as permeia. O resultado é um livro que leva à introspecção, apesar do ‘barulho’ que o cerca.

 

01836_ggZadie Smith

 

Difícil dizer porque, mesmo assim, achei esta obra digna de quatro estrelas de um total de cinco.  É como se fosse um voto de confiança. Sinto em Zadie Smith uma escritora que tenta ultrapassar os limites da narrativa linear.  Quase cubista, vendo o mundo por diversos ângulos simultaneamente, ela nem sempre tem sucesso.  O resultado, por mais difícil que a leitura tenha sido em partes, é ainda acima da média dos romancistas que conheço.  Talvez não tenha sido a melhor maneira de ser apresentada à escritora. Mas se este livro marca, deixa vínculo, fica na memória, nada mais lógico do que ler e esperar mais da escritora.  Agora irei em “busca do tempo perdido”. Neste fim de ano  vou me dedicar à leitura de Dentes brancos e/ou  Sobre a beleza.  Estou certa de que não me decepcionarão.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Domingo, um passeio no campo!

15 10 2017

 

Eliana Soares, Paisagem, ast,50x40Paisagem

Eliana Soares (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 50 x 40 cm

 





Flores para um sábado perfeito!

14 10 2017

 

 

Colette Pujol (1913-1999)Vaso de flores azul

Colette Pujol (Brasil, 1913-1999)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm