Manhãs, poesia de Irene de Sousa Pinto

5 04 2013

Ferenc Kiss, Fazenda Torrão de Oouro, 1990, osm, 24x33

Fazenda Torrão de Ouro, 1990

Ferenc Kiss  (Hungria/Brasil,  1944)

Óleo sobre madeira, 24 x 33 cm

Manhãs

Cedo, na roça, estática, à janela,

Gozo destas manhãs a graça imensa;

E o sol, que é generoso, entra por ela

A dar topázios, sem pedir licença.

A luz se expande e a vida se revela

No cafezal e na campina extensa;

Ouço mugirem bois junto à cancela

E o gorjeio das aves que se adensa.

No fio além do telefone, em linha

Como rosários, cantam andorinhas,

Saudando o sol na fímbria do levante.

 E pelo branco laranjal em flor

Semeia o vento o pólen fecundante

Sobre corolas sôfregas de amor…

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 143

Irene Ferreira de Sousa Pinto (Brasil, SP, 1887- RJ, 1944) Nasceu em Amparo, no estado de São Paulo em 1887.  Poetisa e escritora.

Obras:

Primeiros vôos, 1917

Rosa-maria, 1920





Rudyard Kipling no Rio de Janeiro

4 04 2013

Bruno Bronislaw Lechowski (1887–1941),Praia de Copacabana, 1936

Bruno Bronislaw Lechowski (1887-1941)

aquarela sobre papel

Almocei hoje com um amigo vindo de uma Europa cheia de neve e frio, onde o tempo insiste em prolongar um dos piores invernos de que se teve notícias por aquelas bandas.  Sua alegria de voltar aos trópicos foi contagiante e me lembrei também do tempo em que morando fora do Brasil, chegava aqui de visita à família e me encantava até mesmo com o Galeão, porque reconhecia o colorido das folhas verdes da Ilha do Governador e o cheiro do material de limpeza do aeroporto.  Isso só acontece quando se tem muita saudade mesmo!  Voltei para casa e fui correndo dar uma olhadinha em um texto de Rudyard Kipling sobre o Brasil,  um escritor amante dos trópicos, da Índia e de outros lugares também abençoados.  Re-encontrei esse livro na semana passada quando passei em revista meus livros.  Sabe aquela crença: vamos nos desfazer de algumas coisas para dar espaço para outras melhores?  Pois ando nessa vibração, talvez seja a necessidade de contribuir para que o status quo desembeste, mude, saia da mesmice.   Não consegui achar o texto de que me lembrava, mas achei esta introdução ao Rio de Janeiro que considero charmosa.  Espero que vocês gostem.

“Nos países sensatos, não há pressa, nem mesmo para a Saúde ou a Polícia do Porto. Por isso, embora houvéssemos entrado no porto do Rio no começo da tarde, já estava começando a escurecer quando nos aproximamos do cais e toda a cidade e as costas ao lado dela escolheram esse momento para acender constelações e vias-lácteas de desenfreada eletricidade.

Subiram então a bordo homens dispostos, como os homens do mundo inteiro, a mostrar a um estrangeiro a cidade que amavam. Dentro de dois minutos, as linhas escuras dos cais repletos tinham desaparecido e o carro corria por uma avenida cheia de luzes e fortemente quadriculada por filas duplas de folhagem das árvores e marginada e clubes, lojas e cafés iluminados e repletos. Esse mundo de luz cedei lugar de súbito, entre os topos de edifícios gigantescos, a espaços ainda mais vastos de avenidas de pista única, entre árvores, tendo a baía de um lado e franjadas de luzes elétricas que corriam para a frente aparentemente para sempre e se renovavam em colares de pérolas atiradas em volta de cantos indivisíveis. E sempre, acima de tudo, viam-se e sentiam-se os contornos das montanhas cobertas de matas. Todo o mundo estava conosco em carros todos cheios de gente sem chapéu, todos em velocidade máxima, mas não mais rápidos do que certos diabólicos ônibus cujos barulhos funcionais eu iria confundir depois com o trovejar de um aeroplano diante da minha janela no oitavo andar. À nossa direita, um morro cujas luzes profusas subiam e se interrompiam, indicando a meio curvas de caminho.  Conheciam-se bastante os velhos romances para saber que aquilo devia ser Santa Teresa, o bairro onde os funcionários virtuosos e os amantes exilados pelo destino costumavam viver para refazer as suas fortunas. É hoje, como sempre foi, um lugar de aprazíveis residências. Está diante exatamente da entrada da barra – dois lisos dentes de crocodilo de rocha nua que muitos olhos devem ter visto a fechar o caminho para a pátria no tempo em que os homens morriam entre o meio-dia e o crepúsculo. Há visões de casas brancas e cor de rosa com plumas de palmeiras sobressaindo ou, ainda com maior intimidade, frisos de bananeiras tranqüilas por trás de muros de marfim. Ficamos, porém, à beira da água, com a multidão que estava tomando fresco.

A noite estava, razoavelmente, isto é, tropicalmente quente. Chapéus, sobretudos, pressa, hora e outras insignificâncias tinham ficado do outro lado do Equador. A única preocupação que restava era de que aquela cidade de sonho, de folhagem verde intensamente iluminada, de imponente estatuária e montanhas altaneiras desaparecesse de repente se a gente tivesse a coragem de olhar para o lado.  Mas continuou, com uma enorme curva de caminho sucedendo a outra, ainda contornando o mar, ainda iluminada pelas luzes insolentes e onipotentes mas – deve-se pagar algum tributo aos deuses – impregnada do perfume dos carros que voavam. (Deve-se notar que o brasileiro, como motorista, pode paralisar qualquer chofer de taxi da Place de La Concorde. Os sulistas ciumentos dizem que um argentino pisando leva-lhe vantagem. Para mim, ele é mais que suficiente.)

Por fim, a torrente do tráfego se desviou da baía, entrou por um túnel ressoante onde todos buzinavam ao  mesmo tempo e foi sair numa extensão de praia em que as ondas livres do Atlântico Sul se alinhavam sob as estrelas  e se quebravam nas areias de cor de marfim ao pé dos refletores elétricos. Todos os que não estavam sobre rodas passeavam em miríades em calçadas de mosaico junto ao mar. Diante da praia, viam-se casas isoladas cujos proprietários deviam ter perdido a cabeça em todos os detalhes, arrebiques, caprichos, atributos e curiosidades daquilo o que se chama de “arquitetura” e que seus cérebros ou suas posses podiam abranger. E desde que as construções não se pareciam com qualquer outra coisa na terra, ajustavam-se exatamente ao inexplicável cenário que sob os altos céus os contemplavam.

— O nome desta praia é Copacabana – disseram meus companheiros.  – Não faz muito tempo que começou a ser construída. Não. Isso não é a cidade. É apenas um dos seus distritos. A cidade fica a muitos quilômetros de distância. Ainda há muitas outras praias pela frente, mas…”

Em: Cenas Brasileiras: um documento inédito — a presença de Kipling no Brasil, Rudyard Kipling, tradução de Pinheiro de Lemos, Rio de Janeiro, Record: [1977?], pp. 37-38





Gaiola, poesia de José Ildone

3 04 2013
passarinho na gaiola 5Ilustração: desconheço a autoria, 1910-20.

Gaiola

José Ildone

Entre grades

passa

o canto

-manco.

Em: A Lira da minha terra: poetas antigos e contemporâneos do Pará, ed. Clóvis Meira, Belém, Pará: 1993, p. 243

José Ildone Favacho Soeiro (PA, 1942) poeta, prosador e professor de português e de literatura luso-brasileira.





Imagem de leitura — Adrien Moreau

2 04 2013

Adrian Moreau (França 1846-1906), No parque,ostNo parque, s/d

Adrian Moreau (França, 1846 – 1906)

aquarela e guache sobre papel, 37 x 27 cm

Adrien Moreau nasceu em Troyes,na França em 1843.  Foi aluno de Isadore Pils. Inicialmente dedicou-se à pintura histórica, a cenas de gêneros de outras eras. Teve bastante sucesso durante sua carreira, suas obras sendo colecionadas por muitos.  Trabalhou também como ilustrador: Candide de Voltaire, em 1893, The Secreto of Saint Louis, de E. Moreau em 1899 são exemplos de seu trabalho como ilustrador.  Morreu em 1906.





Quadrinha do tropeiro

2 04 2013

henry chamberlain, tropeiros no rj

Tropeiros no Rio de Janeiro

Henry Chamberlain (Inglaterra 1796-1844)

Gravura  em Views and costumes of the city and neighbourhood of Rio de Janeiro, 1822

O tropeiro viajante
que em nossa terra surgiu,
foi marco muito importante
no progresso do Brasil.

(Alda Lopes Rezende)





Chekhov e o comportamento das pessoas cultas

1 04 2013

konstantin-korovin (Russia 1897-1950) In a Boat 1888 Tretyakov Gallery, Moscou

Em um barco, 1888

Konstantin Korovin (Rússia, 1897-1950)

óleo sobre tela

Galeria Tretyakov, Moscou

Passei os olhos na revista eletrônica Brain Pickings e me deparei com um artigo curioso de Maria Popova baseado nas cartas que Anton Chekhov [Anton Chekhov on the eight qualities of cultured people].  Nesse artigo ela mostra o escritor russo descrevendo, para sua família, as características para se viver numa sociedade culta.  O artigo é bastante charmoso com longas citações escritor.  Não vou tentar traduzí-las, mas as listo abaixo, uma breve apreciação do que lá é dito, como indicativo de seu julgamento. E considerando que essa lista foi feita em 1886, parece incrível que possa continuar sendo relevante.

E assim ele lista:

As pessoas cultas, em minha opinião,  preenchem as seguintes condições:

1 – Respeitam a personalidade alheia. Elas não brigam por coisa insignificante e desculpam inconveniências tais como temperatura ambiente, refeição mal feita, brincadeiras de humor duvidoso e a presença de desconhecidos em suas casas.

2 – Têm simpatia para além dos pedintes e gatos.  São sensíveis ao que os olhos não vêem.  Passam a noite em claro para ajudar ao próximo.

3 – Elas respeitam os bens dos outros, e por isso mesmo, pagam suas dívidas.

4 — As pessoas cultas são sinceras e não gostam de mentir, nem mesmo as pequeninas mentiras.  Acreditam que a mentira seja um insulto ao ouvinte e o coloca numa posição inferior à de quem mente.  Não falam demais e, por respeito aos ouvidos dos outros, preferem ficar caladas do que falar.

5 – As pessoas cultas não falam mal de si mesmas para ganhar a compaixão dos outros. Elas não abusam da boa vontade dos outros. Eles não dizem “ninguém me entende”.

6 – Elas não mostram uma vaidade vã. Elas não procuram os diamantes falsos tais como conhecer celebridades, ser reconhecido nos bares… Se fazem um bem não saem por aí divulgando-o, e não se vangloriam de ter entrada em círculos ou lugares onde outros não são admitidos.

7 – Se elas têm talento, elas o respeitam e sacrificam tudo para esse fim.  Têm orgulho de seu talento.  São exigentes.

8 – Elas desenvolvem um senso estético próprio. Elas mantêm higiene rigorosa em todos os aspectos de suas vidas.  Não bebem a toda hora. Elas querem “mens sana in corpore sano” – uma mente sã, em um corpo são.

Espero que todos nós nos lembremos desses conselhos de Chekhov.  Acredito que muitos de nós, quer na vida pública ou privada, possamos dar um renovado lustro em regras tão simples e por vezes tão negligenciadas.





Palavras para lembrar — Alphonse de Lamartine

1 04 2013

Ignace_Spiridon_Portrait_des_jungen_Oskar_Fraenkel_1898

Retrato do jovem Oskar Fraenkel, 1898

Ignace Spiridon (Itália, 1860-1900)

óleo sobre tela

“Todas as grandes leituras marcam uma data na vida”.

Alphonse de Lamartine