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Carta, ilustração de Henry Clive.
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As tuas cartas, querido,
guardadas com muito amor,
de tanto que as tenho lido,
quase mudaram de cor!
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(Téula Athayde)
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Carta, ilustração de Henry Clive.–
As tuas cartas, querido,
guardadas com muito amor,
de tanto que as tenho lido,
quase mudaram de cor!
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(Téula Athayde)
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Bahia… Voz que se exprime
num canto alegre e encantado,
pelo violão de Cayme
e a pena do Jorge Amado!…
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(Augusto Astério de Campos)
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Pateta quer descansar, ilustração Walt Disney.–
Quando acaso sinto, crede,
vontade de trabalhar,
deito-me logo na rede,
até a vontade passar…
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(Augusto Linhares)
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Natividade, 1467-69
Fra Filippo Lippi ( Florença 1406-1469)
Afresco
Catedral de Santa Maria Assunta em Spoleto, Itália
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Menotti del Picchia
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Já o burrinho ruma para a manjedoura. A estrela – seria, este ano, aquele enigmático cometa com nome japonês? – fulge no céu. Bate um pastor na porta da choça do compadre: “Olá Esdras! Acorda, camarada! Vamos para Belém!” As ovelhas balam. Toda a terra é um advento. Até flores estranhas rebentam nos cálices e as corolas atônitas perscrutam na noite um milagre. Os lírios do vale já devassaram o mistério e murmuram com seus lábios imaculados:
— Vai nascer Deus!
Aí está. Vai nascer Deus. “Fenômeno de rotina” – dirá um político despistando um repórter. “Nada demais, senhor jornalista. Todos os anos nasce Deus”. O repórter, apressado e superficial, registra a declaração numa caderneta e telefona os seus apontamentos para o redator de plantão. “O doutor Chuvisco disse que não há novidade: o nascimento de Deus é fenômeno de rotina”. O redator aceita essa explicação bocejando e gosta da palavra “rotina” aplicada ao mistério do Natal, porque a palavra está na moda. E ninguém dá pela transcendência do prodígio. Meu vizinho, Felisbino de Freitas Trancoso, excelente pai de família, saiu cedo para a fila das castanhas. D. Ordália Lopes, que é sentimental e fidelíssima, mesmo porque pesa perto de seis arrobas, comprou uma gravata de seda italiana e uns suspensórios de matéria plástica para presentear o marido. Tenho uma sensível admiradora que me mandou um cromo – sempre fui louco por cromos! – representando o presepe. Ali tudo é lindo: Jesus, tenro e sorridente, de cabelo cacheadinho e grandes olhos azuis abertos, como se um pimpolho que nasce, geralmente tão cheio de rugas e tão feio, pudesse ter aquele tamanho e aquela cabeleira de ouro… São José é um carpinteiro alinhado de túnica e talvez tenha saído nesse instante de uma arca. Maria Santíssima é um amor.
— No Natal do ano passado – diz-me a D. Celestina – meu marido me deu uma geladeira. Fico pensando dentro da noite mágica: “No Natal do ano passado…” Há perfumes no ar que vêm dos cedrinhos do Jardim América e, por causa das árvores do Natal, a gente liga o cheiro da resina ao oriente místico, à chegada daquela divina mãe grávida, morta de canseira na sua marcha ao lado do velho e santo marido, até a cocheira que serviu de berço à salvação do mundo. A imaginação trabalha. Percebe que nos palácios distantes, acordadas pelo fulgor da estrela, os reis poderosos preparam suas caravanas de mirra, ouro e incenso, para ver a criança estranha que uma vaca aquece com seu hálito e um burrinho manso humaniza com a bondade que irradia dos seus olhos…
— “Jornal da noite!” “Jornal da noite!” – berra um garoto sobraçando os últimos vespertinos. Compro uma folha. Não preciso ler pois a manchete metralha os meus olhos: “Dez mil árabes e cinco mil judeus em luta mortal na Palestina. Milhares de mortos e feridos…”
Os sinos de Natal bimbalham. “Glória a Deus na altura e paz na terra aos homens de boa vontade.”
Nasceu um Deus! Este ano nasceu outra vez um Deus!
E me ocorre, fulmineia a interrogação trágica: — mas por que nasce um Deus todos anos? Um arrepio me percorre o corpo. O calendário salta-me à memória pontilhada de guerras, brigas, roubos, bombas atômicas, crises econômicas, manobras políticas ditadas pela cobiça e ambição. No meio dessas memórias os sinos bimbalham. “Paz!” “Paz!” – brada Cristo, o Cristo que nascendo todos os 25 de dezembro há mil novecentos e quarenta e sete anos!
Então, percebo a razão do Natal! Dada a cruel desmemória dos homens é preciso que todos os anos nasça um Deus!
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Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM Propaganda: 1978
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Pato Donald e urso tornam-se amigos, ilustração de Walt Disney.–
Planta a semente do afeto
em tua estrada e verás
brotar um mundo repleto
de compreensão e de paz.
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(Lila Ricciardi Fontes)
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Ó, árvore de Natal!
Hans Stubenrauch (Alemanha, 1875-1941)
óleo sobre tela, 28 x 19 cm
Leilão Christie’s South Kensington, 2012
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Machado de Assis
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Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
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Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
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Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
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E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
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Ilustração, autoria desconhecida.–
Quanta gente nos ilude
e julgamos ser verdade
aquela máscara rude
que finge sinceridade!
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(Gabriel Bicalho)
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Coração, ave sem penas,
às penas do amor sujeito,
não sei se vives ou penas
na gaiola do meu peito.
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(Athayr Cagnin)
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Ano Novo, s/d
Alexandre Gulyaev (Rússia, 1917-1995)
óleo sobre tela
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Lindolfo Gomes
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Nas noites de Natal, da minha infância,
Tinha brinquedos nos meus sapatinhos,
Que um Anjo transformava em doces ninhos,
Iludindo-me à ingênua vigilância.
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Do nosso lar na idolatrada estância,
A mesa posta, com iguaria, vinhos…
Minh’alma respirava a sã fragrância
Dessas flores silvestres dos caminhos.
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Agora no Natal desta velhice,
Seguindo a vacilar por ínvios trilhos,
Arrasto os sapatões, ao léu do fado…
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Mas me revejo em plena meninice,
Ao ver nos sapatinhos de meus filhos
Meus brinquedos, meus sonhos, meu passado…
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Lindolfo Eduardo Gomes (SP 1875 – RJ 1953) Poeta, Jornalista, contista, ensaísta, folclorista, professor e teatrólogo. Passou sua juventudo em Resende, no estado do RJ, mudando-se mais tarde para Juiz de Fora, MG, onde passou grande parte da sua vida profissional tendo redigido para os jornais O Pharol, Jornal do Commercio, Diário do Povo, Diário Mercantil, revista Marília,entre outros.
Obras:
Folclore e Tradições do Brasil, 1915
Contos Populares Brasileiros, 1918
Nihil novi, 1927
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Ilustração de autoria desconhecida.–
A brisa da madrugada
entrando pela janela,
balança a rede bordada
de sonhos, dos sonhos dela…
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(Aurora Pierre Artese)