Quadrinha das tuas cartas

18 12 2012

carta da holanda, Henry Clive (1882 – 1960)Carta, ilustração de Henry Clive.

As tuas cartas, querido,
guardadas com muito amor,
de tanto que as tenho lido,
quase mudaram de cor!

(Téula Athayde)





Quadrinha da Bahia

17 12 2012

baiana

Bahia… Voz que se exprime
num canto alegre e encantado,
pelo violão de Cayme
e a pena do Jorge Amado!…

(Augusto Astério de Campos)





Quadrinha da rede

16 12 2012

rede, tarde na, patetaPateta quer descansar, ilustração Walt Disney.

Quando acaso sinto, crede,
vontade de trabalhar,
deito-me logo na rede,
até a vontade passar…

(Augusto Linhares)





Natal, crônica de Menotti del Picchia

13 12 2012

Natividade, 1467-69

Fra Filippo Lippi ( Florença 1406-1469)

Afresco

Catedral de Santa Maria Assunta em Spoleto, Itália

Natal

Menotti del Picchia

Já o burrinho ruma para a manjedoura. A estrela – seria, este ano, aquele enigmático cometa com nome japonês? – fulge no céu.  Bate um pastor na porta da choça do compadre: “Olá Esdras! Acorda, camarada! Vamos para Belém!” As ovelhas balam. Toda a terra é um advento. Até flores estranhas rebentam nos cálices e as corolas atônitas perscrutam na noite um milagre. Os lírios do vale já devassaram o mistério e murmuram com seus lábios imaculados:

— Vai nascer Deus!

Aí está. Vai nascer Deus. “Fenômeno de rotina” – dirá um político despistando um repórter. “Nada demais, senhor jornalista. Todos os anos nasce Deus”. O repórter, apressado e superficial, registra a declaração numa caderneta e telefona os seus apontamentos para o redator de plantão. “O doutor Chuvisco disse que não há novidade: o nascimento de Deus é fenômeno de rotina”. O redator aceita essa explicação bocejando e gosta da palavra “rotina” aplicada ao mistério do Natal, porque a palavra está na moda. E ninguém dá pela transcendência do prodígio. Meu vizinho, Felisbino de Freitas Trancoso, excelente pai de família, saiu cedo para a fila das castanhas. D. Ordália Lopes, que é sentimental e fidelíssima, mesmo porque pesa perto de seis arrobas, comprou uma gravata de seda italiana e uns suspensórios de matéria plástica para presentear o marido. Tenho uma sensível admiradora que me mandou um cromo – sempre fui louco por cromos! – representando o presepe.  Ali tudo é lindo: Jesus, tenro e sorridente, de cabelo cacheadinho e grandes olhos azuis abertos, como se um pimpolho que nasce, geralmente tão cheio de rugas e tão feio, pudesse ter aquele tamanho e aquela cabeleira de ouro… São José é um carpinteiro alinhado de túnica e talvez tenha saído nesse instante de uma arca. Maria Santíssima é um amor.

— No Natal do ano passado – diz-me a D. Celestina – meu marido me deu uma geladeira. Fico pensando dentro da noite mágica: “No Natal do ano passado…” Há perfumes no ar que vêm dos cedrinhos do Jardim América e, por causa das árvores do Natal, a gente liga o cheiro da resina ao oriente místico, à chegada daquela divina mãe grávida, morta de canseira na sua marcha ao lado do velho e santo marido, até a cocheira que serviu de berço à salvação do mundo. A imaginação trabalha. Percebe que nos palácios distantes, acordadas pelo fulgor da estrela, os reis poderosos preparam suas caravanas de mirra, ouro e incenso, para ver a criança estranha que uma vaca aquece com seu hálito e um burrinho manso humaniza com a bondade que irradia dos seus olhos…

— “Jornal da noite!” “Jornal da noite!” – berra um garoto sobraçando os últimos vespertinos. Compro uma folha. Não preciso ler pois a manchete metralha os meus olhos: “Dez mil árabes e cinco mil judeus em luta mortal na Palestina. Milhares de mortos e feridos…”

Os sinos de Natal bimbalham. “Glória a Deus na altura e paz na terra aos homens de boa vontade.”

Nasceu um Deus! Este ano nasceu outra vez um Deus!

E me ocorre, fulmineia a interrogação trágica: — mas por que nasce um Deus todos anos? Um arrepio me percorre o corpo.  O calendário salta-me à memória pontilhada de guerras, brigas, roubos, bombas atômicas, crises econômicas, manobras políticas ditadas pela cobiça e ambição. No meio dessas memórias os sinos bimbalham. “Paz!” “Paz!” – brada Cristo, o Cristo que nascendo todos os 25 de dezembro há mil novecentos e quarenta e sete anos!

Então, percebo a razão do Natal!  Dada a cruel desmemória dos homens é preciso que todos os anos nasça um Deus!

Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM Propaganda: 1978





Quadrinha do afeto

11 12 2012

amizadePato Donald e urso tornam-se amigos, ilustração de Walt Disney.

Planta a semente do afeto

em tua estrada e verás

brotar um mundo repleto

de compreensão e de paz.

(Lila Ricciardi Fontes)





Soneto de Natal — Machado de Assis

11 12 2012

Ó, árvore de Natal!

Hans Stubenrauch (Alemanha, 1875-1941)

óleo sobre tela, 28 x 19 cm

Leilão Christie’s South Kensington,  2012

Soneto de Natal

Machado de Assis

Um homem, — era aquela noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno, —

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,

A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

“Mudaria o Natal ou mudei eu?”





Quadrinha da aparência

10 12 2012

lobo e carneiroIlustração, autoria desconhecida.

Quanta gente nos ilude

e julgamos ser verdade

aquela máscara rude

que finge sinceridade!

(Gabriel Bicalho)





Quadrinha do coração

9 12 2012

amor, casal, georges-barbier

Oui, 1921,  ilustração Georges Barbier (França 1882-1932).

Coração, ave sem penas,

às penas do amor sujeito,

não sei se vives ou penas

na gaiola do meu peito.

(Athayr Cagnin)





Natal, soneto de Lindolfo Gomes

9 12 2012

Ano Novo, s/d

Alexandre Gulyaev (Rússia, 1917-1995)

óleo sobre tela

Natal

Lindolfo Gomes

Nas noites de Natal, da minha infância,

Tinha brinquedos nos meus sapatinhos,

Que um Anjo transformava em doces ninhos,

Iludindo-me à ingênua vigilância.

Do nosso lar na idolatrada estância,

A mesa posta, com iguaria, vinhos…

Minh’alma respirava a sã fragrância

Dessas flores silvestres dos caminhos.

Agora no Natal desta velhice,

Seguindo a vacilar por ínvios trilhos,

Arrasto os sapatões, ao léu do fado…

Mas me revejo em plena meninice,

Ao ver nos sapatinhos de meus filhos

Meus brinquedos, meus sonhos, meu passado…

Lindolfo Eduardo Gomes (SP 1875 – RJ 1953) Poeta, Jornalista, contista, ensaísta, folclorista, professor e teatrólogo.  Passou sua juventudo em Resende, no estado do  RJ, mudando-se mais tarde para Juiz de Fora, MG, onde passou grande parte da sua vida profissional tendo redigido para os jornais O Pharol, Jornal do Commercio, Diário do Povo, Diário Mercantil, revista Marília,entre outros.

Obras:

Folclore e Tradições do Brasil, 1915

Contos Populares Brasileiros, 1918

Nihil novi, 1927





Quadrinha da brisa da noite

8 12 2012

janela, olhando pelaIlustração de autoria desconhecida.

A brisa da madrugada

entrando pela janela,

balança a rede bordada

de sonhos, dos sonhos dela…

(Aurora Pierre Artese)