Dia 8: Infância, desafio da escrita, #PHpoemaday

8 06 2014

 

 

velocípede, o corredor,O corredor de velocípede. Autor desconhecido, possivelmente russo.

 

Tema: infância

 

O corajoso

Com um chapéu de jornal
Em seu triciclo vermelho
Miguel comemora o Natal
Se esquecendo do conselho
De João, irmão mais velho:
“Preste muita atenção!
Há problemas no jardim,
Perto da antiga paineira
Tem desnível quase certo,
Um descuido e um belo tombo
Acabam com a brincadeira”.
Miguel não se preocupa
Pedala entregue ao seu sonho,
Corpo e alma em disparada,
Reproduzem a corrida
Que na sua imaginação
Lembra a da televisão.
Passeia pelo jardim
Faz curvas de um lado a outro,
Veloz, parece ter asas.
De repente, eis que surge,
O buraco da paineira.
Invés de se desviar,
Cuidadoso como urge,
Miguel se imagina voar
Acelera e sem olhar
Vai ao chão, ponta-cabeça.
Foi um “Deus nos acuda!”
A família surpreendida
Pelos gritos da criançada,
Veio correndo de casa.
Estatelado no chão
Mais surpreso que ferido
Miguel sem perder o estilo
Ainda contou vantagem!
O corte no joelho direito
Precisou de intervenção
Foram três pontos pequenos
E uma grande bandagem,
Que Miguel logo tornou
Em medalha de coragem!

 

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 





Dia 7: Um objeto inanimado, desafio da escrita, #PHpoemaday

7 06 2014

 

 

Good Housekeeping 1936-11Horace C. Gaffron m Ilustração de Horace C. Graffon, capa da revista americana Good Housekeeping, Novembro 1936

 

Tema: um objeto inanimado

 

 

Primeiro amor

Era um cachorro de pano. Chamava-se Tupi. Tinha longas orelhas marrom escuro e um focinho vermelho. O corpo azul-rei de bolinhas pretas contrastava com a coleira de couro enfeitada por estrelinhas de metal dourado. Não era muito fofo. Mas guardava meus sonhos, no macio do colchão, dormindo ao meu lado, naquele espaço estreito entre o meu travesseiro e a grade da cama. Tupi era o companheiro fiel de minhas travessuras. E eu o carregava de um canto ao outro de casa, pela orelha direita, que por isso mesmo já estava descosturando ou pelo rabo, um cotó emborrachado preto.

Na confusão da mudança de residência da família, dei por falta de Tupi e não sosseguei mais. Aqueles homens que empacotavam tudo, que colocavam pratos e copos em caixas, minhas roupas e os lençóis da minha cama em grandes caixas de papelão, deram cabo de Tupi, eu me convenci.

Durante a viagem de um canto a outro da cidade, por entre pacotes e sacolas da mudança, no carro de vovô, chorei. Chorei muito. Esperneei. Lágrimas quentes e soluços do fundo do peito pontuaram minhas falas. Berreiro. Papai dizia que se podia ouvir os meus gritos do Oiapoque ao Chuí. Eu não sabia o que era o Oiapoque, nem o Chuí, e não estava interessada em aprender. Escolhi ficar emburrada. Silenciosa. Ressentida. Não houve conversa dele, de minha mãe, de minhas tias que me contentasse. Passei aquela noite na casa de vovó, enquanto meus pais arrumavam a nova casa. Ninguém ouviu a minha voz. Eu não queria nada com ninguém. Nem mesmo a canja que vovó preparou, meu prato favorito às vésperas dos meus cinco anos, foi suficiente para me alegrar. Nem o jogo do burro, nem a pipoca fresquinha, com refresco de tamarindo. Só aceitei mesmo o colinho da vovó. Porque também ninguém é de ferro e ele era muito macio e quentinho.

Na manhã seguinte, papai veio me apanhar. No caminho me disse que estava tudo bem, que eu ia gostar da nova casa e que o meu quarto já estava arrumado. Disse também que tinha uma surpresa para mim. Quando chegamos, ainda segurando a mão de papai na porta do quarto, vi muitos animais de pelúcia sobre a minha cama, sobre o travesseiro, e no meio deles, escondido, havia um focinho vermelho, farejando o ar do novo quarto. Corri até a cama, me abracei com Tupi. E chorei. Chorei muito, silenciosamente. Papai veio conversar comigo. Acocorou-se, e numa voz baixa explicou como Tupi havia sido empacotado, com todo carinho… Continuei chorando em silêncio e um momento depois me dependurei no pescoço de papai, mantendo Tupi preso firmemente pela orelha. E sem mais demandas, fechei os olhos e dormi. Exausta. Segura. Protegida por meus dois guardiães.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 





Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 6— #PHpoemaday

6 06 2014

 

 

Mark Spain THE LOVE LETTER, Great Britain, Contemp.

A carta de amor

Mark Spain (Inglaterra, 1962)

óleo

 

Tema: Azul

 

Eu sei de cor

 

Silvia Nice

 

Eu sei de cor
Mar, luar, firmamento,
presentes já no paraíso,
cor primária e cor-pigmento
Adão e Eva já sabiam disso?
É cor de menino, é a cor de planetas,
está na bandeira, mas uso em caneta
é bebê, é petróleo, é turquesa, é marinho,
é safira, é viagra, é até ararinha
Se nos olhos, beleza
No sangue, nobreza
Dos quadrinhos pras lentes
é a cor mais quente
Na TV fez sucesso
mas já deu, tô de boa,
meu humor se perdeu
naquela tal Lagoa
Figurando no cine
pintou os sets
quis se destacar
com legenda, foi Jasmine
coloriu a Smurfette
e em 3D foi Avatar
Escravos libertos do plantio do algodão
aliviavam a dor de seus corpos nus
clamavam com a voz do coração
o olhar divino cantando Blues
Estimula mesmo a criatividade
olha só o pinguinho de tinta
no papel da Aquarela
Mas não posso negar a verdade
das sete cores do arco
eu prefiro a amarela.

 

Cores se igualam a amores

Nathalya Delgado

 

Cores se igualam a amores.
Cores se incluem a lugares.
Cores se espalham pelos mares.
Cores que alegram os lares.
Uma cor decora meus amores.
Uma cor se integra aos meus lugares
Uma cor encanta os meus mares.
Uma cor se destaca nos meus lares.





Dia 6: Azul, desafio da escrita, #PHpoemaday

6 06 2014

 

 

Old_guitarist_chicagoO velho violeiro, 1904

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

óleo sobre tela, 122 x 82 cm

The Art Institute, Chicago

 

Tema: Azul

 

Azul o quê?

Não sou fã da cor azul.
Só no céu.
De preferência como pano de fundo
De uma frondosa bananeira,
De uma grande mangueira,
De pitangueiras e jabuticabeiras.
Por trás de uma montanha,
Enquadrando a paisagem bucólica,
Ou contrastando com um flamboyant.
Não há rosas azuis. Nem tulipas.
Nem comidas, nem bebidas.
Fruta tropical não se passa por azul.
Nem o mirtilo que é roxo e europeu.
A baleia azul, não o é…
Tampouco é o “blue cheese”.
Azul para mim é uma cor triste.
Não sou a única.
Picasso triste é azul.
No Irã é a cor do luto.
É a cor do nada, na televisão…
Indefinível, precisa de companhia para existir:
Azul-bebê, azul- turquesa, azul-marinho, azul-celeste, azul-anil,
Azul cobalto, azul-ardósia, azul-petróleo, azul-aço, azul-cadete,
Azul-pólvora, azul meia-noite, azul-furtivo, azul da Pérsia.
Em inglês, significa tristeza.
Are you feeling blue?
Não. Não estou deprimida”, respondo.
Estou verde e amarela…

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014

 

 

 





Dia 5: Pela sua janela hoje, desafio da escrita, #PHpoemaday

5 06 2014

 

 

Burle-Marx2

Sem título, 1941
Roberto Burle Marx (Brasil, 1909-1994)
óleo sobre tela
Coleção Roberto Marinho

 

Tema de hoje: Pela sua janela hoje

 

Por minha janela hoje

Por minha janela hoje vejo o mundo passar.
Por ela, entrou a pena branca de um pássaro em voo,
e a brisa fria que me esfriou as orelhas.
Da minha janela ouço o soluço da araponga na mata;
o zumbido de um jato nos céus; e no buriti, a arruaça dos maracanãs inquietos.
O mangueiral em flor anuncia um verão saboroso,
enquanto a névoa no horizonte lembra os dias curtos de inverno.
Por minha janela, hoje, entrou a réstia de sol com que esquentei minhas mãos,
e o perfume do jasmim que plantamos juntos no portão.
Por ela, vejo que as abelhas continuam na lida,
e os colibris dançam com as flores mais vistosas.
A relva orvalhada me colore de esperança.
No beiral, as lagartixas tomam banho de sol.
Hoje, por minha janela, espero.
Espero por você que não mandou notícias.
Espero por você, enquanto vejo o mundo passar.

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014.





Dia 4: Sua paixão, desafio da escrita, #PHpoemaday

4 06 2014

 

 

 

1754277

 

Sua paixão

 

Sua paixão eram os relógios-cuco.
Tinha mais de oitenta espalhados pela casa.
Cantavam todos em coral ao meio dia.
Quando morreu levou consigo
a voz da passarada.

©Ladyce West, Rio de Janeiro:2014





Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 3 — #PHpoemaday

4 06 2014

 

 

estelles-bartual-rafael (Espanha)Minha filha Amparo, lendo, 1953

Rafael Estelles Bartual (Espanha, 1900-1985)

óleo sobre tela, 100 x 80 cm

www.estellesbartual.es

 

 

 

Tema: ESPELHO

 

Espelho

Victória Albuquerque

Mão direita,
Esquerda mão.
Cabeça nas nuvens,
Pé no chão.
Versificar,
Ver se está bem.
Cicatriz fina,
Aqui também.
Olhar brilhando,
As duas têm.
E o desconhecido
Habita o lado de cá também.

 

 

O Espelho

Ana Carolina Souza


Tantos espelhos
Um em cada canto
Tinha medo de perder
De perder-se
E perdeu
Tantos espelhos
Um em cada canto
Tinha medo de ser esquecida
De esquecer-se
E esqueceu
Esqueceu que era bela
Que era ela
Que era única…

 

 

De Enrique Coimbra outro tipo de contribuição:

 

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Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 2 — #PHpoemaday

3 06 2014

 

 

michael j downs (Canada)Leitura

Michael J. Downs (Canadá, contemporâneo)

www.michaeldowns.com

 

 

O Céu de Hoje

Ariadne Cavalcante

 

O céu de hoje
Tem cor de melancolia
Tem a cara do poeta
Tem nuvens repletas de poesia
E um sol tímido entre frestas.

 

Pelada na cama

 

Marina Lobo

 

De uma fresta do edredom, vejo a moça peladona da previsão do tempo sorrir ao dizer: “Hoje teremos a madrugada mais fria do ano!” Ela deve ter algum problema, claro. Só pinguins, piriguetes e donos de restaurantes de fondue sorriem com o frio. Olho pro céu cinza e espirro. De novo. Para enfrentar o inverno, é preciso mau-humor e um tanto de roupa! Tirar tudo isso e entrar no chuveiro é coisa pra macho! Lavar o cabelo comprido à noite, é só pra quem é corajoso ou feliz de mais! Trocar o pijama e sair pra trabalhar, é atestado de coragem insana profunda. Eu sigo aqui nada pelada, equipada com três casacos, uma rinite, meia gripe e muitas saudades do cara que grita “Olha o mate!” no verão pelado de Ipanema.

 





Alguns favoritos do desafio de escrita, Dia 1 — #PHpoemaday

2 06 2014

 

 

Uli Fritz(Alemanha, 1958), gü liest, 40x80 cm, acryl auf leinwand.www.ulrike-fritz.deBoa leitura

Uli Fritz (Alemanha, 1958)

acrílica sobre tela, 49 x 80 cm

www.ulrike-fritz.de

 

Autorretrato

Victória Albuquerque

 

Sou uma forma nominal,
Não aceito conjunção,
Mas aceito a condição
De manter os pés no chão
Se depois
Puder voar.
Sou forma nominal
Mas não tenho forma
Nem cor, ou traço
Sou nominal,
Mas não sou nome,
Tampouco.
Sou gesto, sou voz,
Sou mente.
Substantivo abstrato,
Inconsequente.
Nem forma, nem nominal,
Transparente.

 

Falso Enigma

Vinicius E. C. Dias

 

Ao reabrir meus olhos,
Levanto-me ainda um pouco ontem.
Dirijo-me ao mesmo banheiro,
Ao mesmo espelho,
Mas me encontro outrem
Hoje.
Espero algum tempo,
Pois se ele não traz compreensão,
Ao menos diminui a tensão
De saber-se desconhecido.
Sorrio então ironicamente.
O espelho retribui:
Mente.
Eu sou meu autorretrato.

 

Auto retrato

Juliane Gamboa

 

Eu temporal

de todas as multidões
de todas as gerações
de todas as rebeliões
de todo caos natural
e de todo equilíbrio consequente:

eu.

eu indeterminada
eu intermediária
eu atrasada
eu encharcada

a vida vem me pedindo
e o tempo vem me podando

é ele que venta na espreita
que faz de mim voo e me ajeita
que me canta, me acerta, me enfeita
e me prepara pra outra estação





Quadrinha do sol

31 05 2014

sol, dia de sol, primavera, dia lindo,Clotilde gosta de um dia de sol, ilustração Maurício de Sousa.

Estava chuvoso o dia,

e veio o sol de repente,

assim, como uma alegria

entrando na alma da gente.

(Augusta Campos)