Café da manhã
Jacques Denier (França, ? — 1983)
óleo sobre tela, 50 x 61 cm
Retrato de minha mãe
Carlos Blanco (Espanha, 1983)
Sete anos bons de Etgar Keret, traduzido por Maira Parula, é uma aventura no cotidiano do autor que nos delicia com humor afiado e perfeito distanciamento crítico para enaltecer o contrassenso da vida diária. Nossa consciência dos disparates existenciais de Keret se aprimora quando somos testemunhas de que essas aventuras habituais se passam no contexto da vida ordinária em Israel. A possibilidade de guerra é real e ressaltada pelos frequentes e pequenos ataques. O despropósito de executar regras e corresponder a expectativas nessas circunstâncias é exacerbado e deveria surpreender qualquer ser pensante, mas até mesmo a absurdos todos nos acostumamos. Etgar Keret toma para si a responsabilidade de mostrar ao seu leitor os disparates diários de nossas vidas quer em Israel, quer fora.
Além disso, com semelhante distanciamento e fina ironia participamos das aventuras do escritor que, como participante de diversas rodas literárias focando suas publicações, encontra-se ora num ora noutro local do mundo, onde poucos têm noção, sensibilidade, ou conhecimento da realidade e dos complexos sentimentos de um judeu fora do ninho. Há também momentos de ternura principalmente quando Etgar Keret alude ou descreve sentimentos sobre seu filho ou pai. Mas, os laços familiares podem ser também vistos com um olhar divertido, como em seu relacionamento com a irmã, casada com um judeu ortodoxo. Aí sentimos a aguçada crítica à incoerência de prescrições religiosas impostas na rotina diária.
Melhor do que descrever seu estilo, será sem dúvida mostrá-lo nessa pequena passagem:
“Quando eu tinha 3 anos, tinha um irmão de 10 e torcia do fundo do meu coração, para ser igual a ele quando crescesse. Não que houvesse alguma chance. Meu irmão mais velho já havia pulado duas séries na escola e tinha uma compreensão invejável de tudo, de física atômica e programação de computadores ao alfabeto cirílico. Mais ou menos nessa época, meu irmão começou a ter uma séria preocupação comigo. Um artigo que leu no Haaretz dizia que os analfabetos são excluídos do mercado de trabalho e o incomodava muito que seu irmão de 3 anos viesse a ter dificuldade para encontrar emprego. Assim começou a me ensinar a ler e escrever com uma técnica singular que chamava de “método do chiclete”. Funcionava da seguinte maneira: meu irmão apontava uma palavra que eu tinha de ler em voz alta. Se eu lesse corretamente, ele me dava um pedaço de chiclete não mastigado. Se cometesse um erro, ele grudava o chiclete que mascava no meu cabelo. O método funcionou como mágica e, aos 4 anos, eu era a única criança na creche que sabia ler.” [73]
Há tempos que não lia algo tão leve. Todas as noites antes de dormir li uma de suas crônicas, podendo me recolher em excelente estado de espírito. Levei um mês para cobrir as trinta e poucas crônicas do livro. Divertido com um humor diferenciado, irônico, Keret lembrou-me muito do prazer de ler crônicas, relatos do dia a dia, sob o ponto de vista do absurdo. Sete anos bons foi minha apresentação a estas crônicas de fino humor. Recomendo a leitura.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Moça lendo
Richard Edward Miller (EUA, 1875-1943)
óleo sobre tela
Bronxville Public Library, Bronxville, NY
Enquanto escrevia Notre-Dame de Paris, Vítor Hugo desenvolveu um método de trabalho bastante excêntrico. Ele retirava todas as roupas e as guardava num armário. O objetivo era evitar quebrar sua concentração e não sucumbir à tentação de ingressar no mundo fora de casa. Nu, ele se sentia obrigado a ficar sentado escrevendo sua obra-prima.
Viviane Villalon(Mans, França)
Votado Melhor Livro de Ficção em 2020, pelos leitores do site Goodreads, com mais de dois milhões de volumes vendidos no mundo, era inevitável que dois de meus grupos de leitura se interessassem por A biblioteca da meia-noite, do inglês Matt Haig, traduzido no Brasil por Adriana Fidalgo. Sempre tento colocar o livro que leio no contexto para que foi criado: que leitores esse autor desejou alcançar? Teve sucesso nesse objetivo? A ambição do autor é ser conhecido como um clássico? Ou sua intenção é uma diversão? Estas perguntas guiam minha perspectiva na resenha.

A biblioteca da meia-noite começa com o desencanto de Nora Seed que, aos trinta e cinco anos, se sente sem perspectivas na vida. Acredita que nada no correr de sua existência deu certo, que suas decisões sabotaram qualquer potencial de sucesso em diversos campos de ação. O desapontamento consigo mesma domina suas ações e pensamentos. Eventualmente, Nora Seed tem oportunidade de conhecer algumas de suas vidas paralelas, caso tivesse feito diferentes escolhas. Ainda que este tema tenha sido amplamente explorado na ficção contemporânea, como na refinada prosa de Kate Atkinson, O fio da vida; na thrilling ficção científica de Blake Crouch em Matéria escura, e mais recentemente, na obra prima, marco na literatura contemporânea, 4321 de Paul Auster, (esses foram os que li), ainda assim, esse início de livro me lembrou bastante o filme A felicidade não se compra, de 1947. Talvez tenha sido a semelhança de atitudes dos principais personagens de filme e livro. A lembrança de Jim Stewart como George Bailey se instalou em minha mente principalmente quando refletia semelhantes surpresas no correr da narrativa entre Nora Seed, deste livro e George Bailey, protagonista do filme de Frank Capra.
Não consegui tampouco esquecer o tom de aconselhamento; a preocupação de mostrar a importância de seguirmos nossos sonhos, confiando no potencial inerente de cada um. Didático? Autoajuda? Não sei bem classificar. Mais sofisticado em linguagem e trama que muitas parábolas contemporâneas criadas por autores com Paulo Coelho, Robin S. Sharma, Rhonda Byrne, este livro tem um pouco de fantasia, de referências à física quântica, muitos diálogos e reflexões. Trata de problemas existenciais e da procura do amor. Ainda que abertamente a proposta do livro não seja um guia de autoajuda, há a distinta preferência por frases de efeito, que nesta obra recaem nas inúmeras citações de versos e máximas de Henry David Thoreau, [o escritor favorito de Nora Seed], Bertrand Russell, Sylvia Plath e outros.
“Ela se deu conta de que não importa o quão sincera a pessoa seja na vida, os outros só enxergam a verdade se estiver próxima suficiente da realidade deles. Como Thoreau escreveu: ‘Não é aquilo para o que você olha que importa, mas o que você vê.‘” [257-8]
A biblioteca da meia-noite é excelente entretenimento. É um texto que nos convida a ponderar sobre nossas escolhas. Portanto tem a habilidade de ficar com o leitor por algum tempo depois da leitura. Como muitos dos livros publicados desde a virada do século usa a popularização da Teoria das Cordas, para explorar a possibilidade de existências paralelas. Pode ser visto também como um livro de aconselhamento, que leva o leitor a se sentir confortável com sua vida e suas escolhas.
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À beira d’água, 1929
Lucien Jonas (França,1880-1947)
óleo sobre tela , 50 x 65 cm
“Eu, porém, continuo repetindo aquela mesma cena. Desde então, já vi a mesma manhã 6.607 vezes.
Coloquei os ovos delicadamente dentro da sacola. São os mesmos ovos que vendi ontem, mas diferentes. A Senhora Cliente insere os mesmos hashis dentro da mesma sacola de ontem, recebe as mesmas moedas e sorri para a mesma manhã,”
Em: Querida Konbini, Sayaka Murata, tradução de Ruth Kohl, São Paulo, Estação Liberdade: 2018, p. 74.
Mulher descansada, 2009
Lole Ferrada Sullivan (Chile, 1962)
Cheguei ao livro Herança, de Miguel Bonnefoy (tradução de Arnaldo Bloch) com boas expectativas. Recebeu o Prix des Librairies, em 2021, na França, que já premiara autores que vim a admirar. Francês, conectado com a América Latina, terra de nascimento de seus pais, e já tendo dois livros premiados, Miguel Bonnefoy parece a voz certa para para abordar cem anos de história de uma família francesa, imigrante para o Chile, como a sinopse relata. Enredo promissor, que começa e finda na França, nos traz uma variante das histórias de imigrantes. Estamos acostumados a saber daqueles que se estabelecem na França vindos de outras culturas; pouco se retrata o francês que saiu para novas terras ou antigas colônias.
Miguel Bonnefoy conta as aventuras e valores das gerações de Lonsoniers que sobrevivem e prosperam no Chile de 1873 a 1973. Retrata também a dualidade de identidades que permeia o coração dessas pessoas que herdam culturalmente a identidade europeia, ainda que vivam em outra terra forjando nova identidade ao sul do Equador. Essa conhecida dualidade de sentimentos vem à tona diversas vezes durante a saga da família, em diferentes gerações, começando com a primeira geração pós imigração, que se vê obrigada a ir lutar no front da Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, outras pessoas irão também se ver abraçadas por essa herança cultural que a cidadania francesa lhes traz, ainda que tenham o Chile como lugar onde vivem e prosperam. Através de décadas todos os descendentes dos Lonsoniers mantêm essa dualidade.
Tenho dois senões quanto à obra. O primeiro tem a ver com a herança literária deixada por de Gabriel Garcia Márquez para dezenas de escritores latino-americanos que insistem em trabalhar no realismo mágico do autor colombiano e sistematicamente deixam a desejar nas suas narrativas. Só há um Gabo. Só houve um Gabo, fenomenal, com grande facilidade de nos levar através de sua mágica a Macondo e seus habitantes. Cem anos de solidão é considerado o segundo mais importante livro da literatura hispânica, tendo Don Quixote de La Mancha, em primeiro lugar. Parte de sua importância está justamente no entrelace de realidade e sonho; na habilidade de seduzir o leitor que passa a não questionar o irreal. Miguel Bonnefoy, claramente admira a escrita de Márquez. Como sabemos disso? Graças ao aforismo criado por Charles C. Colton, escritor inglês de temperamento excêntrico que enunciou: “a imitação é a mais sincera forma de elogio” [Imitation is the sincerest form of flattery]. Esta observação foi mais tarde revista por Oscar Wilde, que a completou, “a imitação é a mais sincera forma de elogio que a mediocridade pode prestar” [Imitation is the sincerest form of flattery that mediocrity can pay to greatness]. Miguel Bonnefoy não é medíocre. É um bom escritor. Tem ritmo, assunto e ideias que merecem melhor tratamento. Ele diminui sua escrita e criatividade ao se prender a um estilo que não é seu. Gostaria de ver a mesma obra, contada à maneira de Bonnefoy e não ao modo de Gabo.
O segundo ponto que ressalto tem a ver com o as duas diferentes narrativas encontradas no livro. Há a que pode ser mais facilmente chamada de realismo mágico que se desenvolve aos poucos, desde o primeiro capítulo, chegando a um ponto máximo nas gerações seguintes, até a última, a geração de Ilario Da. Nesta fase, temos personagens com paixões, com idiossincrasias, com excessos, repletas de mistério sobre o que fazem, o que colecionam, o que pensam e seguimos de surpresa em surpresa, sem chegar a maior profundidade sobre o que os leva às ações, aos sentimentos e comportamentos exóticos que os Lonsoniers demonstram. Mas, subitamente, deixa-se de lado a mágica, o sonho, a poesia para entrar numa narrativa realista extremamente detalhada de todos os males da ditadura chilena de Augusto Pinochet. É uma virada artificial na voz narrativa do livro, que parece encomendada para ter sucesso nos meios políticos apoiados pelo autor. Há uma traição, pode-se dizer, daquele leitor que apesar de ter reserva com a imitação a Gabriel Garcia Márquez, a aceita e está próximo de levar a cabo a leitura, para de repente, se ver preso nos abusos realistas, nas torturas, no dia a dia dos subterrâneos que escondem os agravos de governos ditatoriais, de qualquer naipe que sejam, neste caso na ditadura de Pinochet. Esse novo caminho da história contada, surpreende, desagrada e mostra que Miguel Bonnefoy se rendeu aos ditames do “politicamente correto” empobrecendo em muito o que até então havia sido uma narrativa charmosa ainda que imitativa.
Pena. Este tem todo o jeito de ser um livro que cairá no agrado de muitos leitores. Não posso recomendar sem essas ressalvas.
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Dia de chuva
Josephine Miles Lewis (EUA, 1865 – 1959)
Acho que foi um erro começar meu relacionamento com Truman Capote através desses Primeiros Contos, com tradução de Clóvis Marques. Conhecido por sua obra À sangue frio, também escreveu outros textos adaptados para o cinema como Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s) além de scripts para o teatro ou scripts feitos diretamente para filmes. Nunca havia lido nada dele. Mas neste Natal recebi de presente este livro de contos, seus primeiros, que só foram publicados depois de seus sucessos, quando redescobertos nos arquivos da Biblioteca Pública de Nova York.
Acredito que essas histórias escritas na adolescência e no início da idade adulta teriam mais interesse para o estudioso da obra de Capote, do que alguém, como eu, que gostaria de se familiarizar com o autor. Essas histórias são bem escritas. Parecem todas perfis de personagens interessantes, talvez para uso futuro. É provável que tenham tido origem em pessoas que o autor conheceu, vizinhos, pessoas da cidade onde cresceu.
Falta em muitas dessas narrativas conflitos interessantes levando a resoluções ou não de alguma questão. A mim pareceu um catálogo de personagens, com belas descrições de caráter e de hábitos peculiares. Capote demonstra compaixão e empatia pelos tipos que descreve. E apesar de ser bastante detalhista nas descrições, sua destreza no contar de histórias (que parece herança da tradição oral comum no sul dos EUA) não chegam a interromper o fluxo narrativo, nem distrair o leitor.
Voltarei a me familiarizar com a obra de Capote. Certamente essas primeiras histórias tenho certeza não poderiam ser representativas de sua obra madura. Por enquanto não posso dizer que conheço seu trabalho e nem mesmo se gostei de suas observações.
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O ato de ler
Samir Rakhmanov (Rússia, contemporâneo)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Cães negros de Ian McEwan, [tradução de Daniel Pellizzari] é uma comovente reflexão sobre a Europa, os europeus e as escolhas que fizeram ao final da Segunda Guerra Mundial. Não sou especialista na obra de McEwan, mas é um escritor contemporâneo que me atrai. Depois de ler este quinto livro de sua autoria, reflito que nunca me decepcionou. Como ele, sou da geração baby boom, formada no pós-guerra, marcada pela lembrança que nossos pais ou familiares tiveram de batalhas, de trabalho no serviço de censura, no setor da comunicação, na resistência ao Eixo, na divisão da Europa em dois mundos. Se não somos órfãos dessa guerra, certamente tivemos familiares, amigos da família, namorados de tias, de primas que morreram em navios afundados, que lutaram na Europa ou preservaram a costa brasileira dos submarinos alemães. Nossas mães, tias, primas trabalharam voluntárias, no apoio silencioso às tropas brasileiras; cozeram para a Cruz Vermelha; aviaram remédios para os feridos; deram apoio à transferência de crianças em perigo para o nosso país. É natural, portanto, que esta guerra, cujas histórias tristes, alegres, engraçadas ou de aventuras tenha feito parte da nossa infância, rodeando as mesas dos almoços ajantarados, seja parte da constelação de valores que nos foram imbuídos. É a herança cultural da geração. E vez, por outra, Ian McEwan, fazendo jus à sua geração, se dedica a algum aspecto do pós-guerra, com brilhante sensibilidade.
Neste livro Jeremy, o narrador da trama, angaria dados para a biografia de sua sogra, entrevistando-a poucos meses antes dela morrer, tenta descobrir a circunstância que levou os sogros, Bernard e June Tremaine, profundamente apaixonados um pelo outro desde 1946, quando se conheceram, a se separarem sem tentarem reconciliação, anos depois, após mesmo o nascimento de três filhos. Separaram-se mas continuaram fiéis um ao outro. Tendo participado da guerra e pertencido ao Partido Comunista, ambos eventualmente deixam o partido para trás. Ela se refugia e encontra paz na região Languedoc da França, onde mora com os filhos, enquanto Bernard toma o caminho do engajamento político na Inglaterra. O enredo estreito e tênue é tratado com maestria na narrativa, de tal modo que passamos do final da Segunda Guerra à Queda do Muro de Berlim em 1989; dos campos de concentração alemães à dualidade de sentimentos dos franceses ao perigo nazista ainda rondando o país.
É sempre surpreendente ver como Ian McEwan mantém o interesse do leitor através de leve mas intrigante suspense que nos faz colar os olhos na prosa deliciosamente precisa com que nos presenteia. Ansiosos por descobrir o que está escondido atrás da trama, progredimos pela narrativa meditativa que convida à reflexão. Esta é sua característica. Em Cães negros, McEwan recheia o relato com eventos importantes do final do século passado. Relembra aos leitores e todos de sua geração, a importância do que testemunharam: a Queda do Muro de Berlim, em 1989 ou a política na Polônia dos anos 80, com o partido de Lech Wałęsa. Acontecimentos históricos, tornados emblemáticos do final do século, ganham detalhes de sons, de agitação, de movimento, excitação, perigo iminente. Consegue-se rapidamente imaginar e trazer de volta à nossa imaginação memórias das notícias da época, da importância desses eventos em nossas vidas. Lembro-me, por exemplo, de permanecer atenta à CNN (morava nos EUA) com os olhos imantados à tela, vendo o muro ser removido pedaço a pedaço pelas mãos da população. Este muro que havia feito parte de dezenas de manchetes de jornal, no mundo inteiro, assunto perene na década de 60, quando vez por outra alguém furava a barreira, fugindo para o ocidente; ou era preso ou ferido à bala por tentar sair da RDA. Magnificas descrições desses eventos, mesmo que sucintas, enriquecem nossa experiência.
A proposta de pensarmos nas escolhas às mãos dos europeus depois da guerra é brilhante. Por vezes, nos surpreendemos com a política europeia. Como poderia um movimento neo-nazista ainda sobreviver na Europa? Eles não aprenderam nada? Como eleger alguém de extrema direita ou de extrema esquerda? Oitenta anos depois, vemos essas possibilidades reaparecerem. Porque o fantasma do nazismo não foi erradicado. E europeus, muitos deles repletos da dualidade de sentimentos nem sempre se mostram decididos a erradicar o mal.
June e Bernard Tremaine são emblemáticos da dicotomia que afeta o europeu. Inicialmente engajados no Partido Comunista, eventualmente se desligam à procura, cada qual à sua maneira, de um modo de viver que faça sentido. June logo encontra sua própria natureza contemplativa e acomoda-se a esse novo mundo. Mas Bernard ainda que tenha dado as costas ao marxismo, em sua visita a Berlim durante a Queda do Muro, parece nostálgico, forçado que foi a admitir a falência total do sistema que por tanto tempo defendeu.
Este é um belíssimo livro que nos obriga a considerar o impacto da Segunda Guerra Mundial nas vidas comuns. Uma reflexão trazida de maneira séria e sedutora. Não é a toa que foi um dos finalistas do Booker Prize em 1992.
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Nos degraus
Monica Castanys (Espanha, 1973)
óleo sobre tela
Emily Dickinson