Curiosidade literária

4 07 2022

Leitura, c. 1888

Georges Lemmen (Bélgica, 1865-1916)

óleo sobre placa, 30 x 38 cm

Stephen Crane escreveu a maior obra sobre a Guerra Civil americana quando lançou O emblema vermelho da coragem.  Quando lhe perguntaram como conseguira descrever tão bem, com tanta acuidade cenas de batalha,  tendo nascido cinco anos após o término da guerra, respondeu que tudo que precisou saber, aprendeu observando jogos de futebol americano.





Curiosidade literária

27 06 2022

Menina lendo

Vsevolod Chistiakov (Russia, contemporâneo)

óleo em tela de linho, 40 x 30 cm

Quando saiu da Rússia, fugindo da revolução bolchevique, Vladmir Nabokov deixou para trás também o luxo e a fortuna da família.  Teve que trabalhar para viver tanto na Europa quanto nos Estados Unidos para onde emigrou mais tarde. Nabokov dava aulas particulares e também ensinava tênis.   Ensinou por uma década, em tempo integral, na Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova York.  Mas, mesmo, tendo nesse período obtido respeito da crítica, só veio a ter sucesso comercial em 1958, aos sessenta anos, quando publicou Lolita.  Nesta ocasião parou de trabalhar para outros e se dedicou à escrita pelo ano seguinte.





Leituras de 2022: “A velha senhora”, de Simenon, resenha

26 06 2022

Café Reflexões

Adrian Deckbar (EUA, contemporânea)

 

Frequentemente me perguntam como consigo ler mais de quarenta livros por ano quando ainda tenho outras vidas para cuidar, como minhas aulas, escrever, fazer compras, cozinhar, ter amigos, ver séries, ir ao cinema.  É fácil.  Leio em qualquer lugar.  Nesses últimos dias fiquei presa ao telefone ouvindo música de espera por muitos minutos.  Tempo suficiente para ler A velha senhora de Simenon, com tradução de Raul de Sá Barbosa.  Este livro, que na edição  de bolso que tenho, compreende cento e oitenta e oito páginas, foi inteiramente consumido à espera de que alguém do outro lado da linha me atendesse.

Gosto de Simenon. Gosto principalmente de seus romances “duros”. Mas isso não quer dizer que não goste de sua escrita policial.  Aliás gosto muito dela.  Nesta história temos o Inspetor Maigret resolvendo um assassinato fora de Paris.  O que me atrai nas obras em que Maigret investiga um crime, é que sempre no final acreditamos ter tido todos os elementos necessários para fazer as mesmas deduções que ele faz. Porque é assim a narrativa.  Tudo importa, mas vem em ordem caótica.

 

Simenon é um dos escritores com maior número de obras publicadas e um dos mais traduzidos no mundo. Na introdução a este livro, soube que das mais de quatrocentas e cinquenta obras do autor, setenta e cinco tem o Inspetor Maigret como principal personagem.  Não é só um jogo de palavras que intriga o leitor, aqui e ali há encanto nas descrições de lugares, na atmosfera local das pequenas cidades ou dos bairros em que a história se desenvolve, assim  como nas memórias que alguns detalhes trazem  ao melancólico policial. Aqui está, por exemplo sua primeira impressão da casa que visita pela primeira vez.

“O portão não estava fechado, e ele o empurrou; depois, não achando a campainha, entrou no jardim. Jamais vira tal profusão de plantas numa área tão pequena. Os arbustos em flor eram tão espessos que pareciam uma pequena selva, e no menor espaço livre havia dálias, lobélias, crisântemos e outras flores que Maigret só vira reproduzidas em cores vivas nos pacotes de sementes nas vitrines. Parecia que a velha senhora se dispusera a usar todos eles.” [31]

 

Georges Simenon

 

Uma das características de Simenon é que seus personagens são tridimensionais e sempre caracterizados com alguma ternura, mesmo os mais  infames.  Há uma compreensão do ser humano, quase empatia, mesmo pelos elementos mais desprezíveis, como se Maigret, Simenon, compreendesse as razões dos maus comportamentos mesmo que ele não concorde com eles.

Pode parar para ler esse inteligente romance policial.  Vale um fim de semana em casa, neste inverno gélido, numa poltrona, manta no colo, alguma bebida quente ao lado.  Só não recomendo o cachimbo que Maigret e Simenon têm em comum.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Palavras para lembrar: Santa Teresa de Jesus

24 06 2022

Leitura, 1891

Juan Llimona (Espanha, 1860-1926)

óleo sobre tela,  100 x 67cm

Museu Nacional d’Art de Catalunya.

 

 

“Leia e liderarás; não leia e serás liderado.”

 

Santa Teresa de Jesus





Imagem de leitura — Paul Signac

23 06 2022

No tempo da harmonia, a idade de ouro não está no passado, está no futuro, 1892

Paul Signac (França, 1863-1935)

óleo sobre tela, 310 x 410 cm

Prefeitura de Montreuil, França





Curiosidade literária

20 06 2022

Senhora sentada lendo, década 1930

Roland Wakelin (Nova Zelândia-Austrália, 1887-1971)

óleo sobre madeira

John Steinbeck disse a um amigo que seu cachorro comeu seu primeiro manuscrito, Ratos e homens (1937).  Ficou agradecido porque não só estava só pela metade, como descobriu que a obra necessitava de enormes revisões.







Leituras de 2022: “Oscarina” de Marques Rebelo, resenha.

19 06 2022

Senhora lendo jornal, 1902

William Worchester Churchill (EUA, 1858-1926)

óleo sobre  tela

Boa surpresa ver a reedição das obras de Marques Rebelo pela editora José Olympio.  Desde que me dediquei aos três volumes de O trapicheiro,  comprados num sebo do centro da cidade, não me lembro o ano, sou admiradora da prosa de Marques Rebelo, um dos mais cariocas dos escritores, que andava um tanto esquecido no fundo do nosso baú literário.  Além de prosa deliciosa, de fácil leitura, com narrativa direta, temos na obra dele o retrato da cidade na primeira metade do século passado. 

Não se trata da capital do país glamorosa, construída na arquitetura art déco, cidade de requinte, luxo, peles sobre os vestidos de noite nos bailes no  Hotel Glória, Copacabana Palace, dos luxuosos cassinos,  cidade de residência de diplomatas de  todo mundo, elegante paraíso tropical à moda Hollywoodiana de Voando para o Rio [Flying down to Rio] filme icônico do Distrito Federal em 1933 ou o local de nascimento de um dos personagens mais queridos de Walt Disney: Zé Carioca. A época é a mesma, sem dúvida.   Mas é o Rio de Janeiro dos subúrbios construídos às margens da estrada de ferro.  Estes compõem o pano de fundo das dezesseis histórias contadas em Oscarina.

A preocupação maior de Marques Rebelo está na caracterização do homem comum, seus anseios, desejos, preocupações, o sobreviver diário.  Na prosa  estão estampados valores, padrões de comportamento, crenças, regras, moral tudo que colabora para o ponto de equilíbrio cultural do carioca.  Não há nenhum super-herói, vencedor de grandes batalhas, de odisseias esplendorosas.  Ao contrário participamos das frustrações e pequenas vitórias cotidianas, na melhor tradição literária brasileira com raízes na obra de Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis,  Aluízio Azevedo, passando por Lima Barreto, uma única geração acima de Rebelo.  Do naturalismo-realismo do século dezenove, ele acena ao modernismo por contos sem fechamento, porque a vida é contínua, pelo humor que nos leva de volta ao notável Memórias de um Sargento de Milícias  com semelhante olhar carinhoso sobre a classe trabalhadora brasileira e também pelo linguajar comum, direto, repleto de expressões populares.

Carioca, Marques Rebelo mudou-se ainda criança para Minas Gerais.  É em Barbacena que lê.  Lê muito.  Não só os livros que faziam parte da biblioteca do pai, como jornais e revistas diversos e clássicos. Voltando ao Rio de Janeiro, na adolescência, já tem conhecimento literário mais sólido do que muitos adultos, ciente dos clássicos das literaturas brasileira, portuguesa, francesa.  Mais tarde, quando abandona os estudos no terceiro ano da Escola de Medicina para se dedicar à escrita tem cabedal na arte literária produzida aqui e na Europa, apreciador sobretudo de Manoel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Está formado e destinado a escrever. Oscarina é seu primeiro livro, publicado em 1931.

Marques Rebelo

Dos dezesseis contos neste volume destaco o que nomeia o livro, Oscarina, Em maio, História de abelha, do qual retiro esta passagem, para revelar o sabor da prosa encontrada aqui:

“Assim… assim… o diabo é que a missa seria em dia útil. Manhã perdida. Poucas vendas. Era preciso forçar a freguesia, correr os subúrbios, dar uma repasso nas lojas de Madureira, ver se desencantava um tal de seu Arlindo que prometera, de pedra e cal, pagar as duplicatas vencidas do Pirelli, um caloteiro que lhe passara a casa. Não há por onde escapar: não iria ao cinema ver Greta Garbo, o domingo é que seria perdido e toca a acompanhar o Esteves, estava casando dinheiro como para o Caju. E se não fosse? que sofreria com isso? Pelo contrario ganharia que a fita era muito falada. O Antunes tinha elogiado: uma beleza! O Antunes era uma besta! Mas o Gomes, sim o Gomes era um rapaz inteligente e tinha gostado especialmente do pedaço em que ela mata o marido com um tiro, “um troço muito bem arranjado”, afirmara.” [153]

Se você não se vê na prosa de Marques Rebelo, certamente reconhecerá seu vizinho, o tio de Marechal Hermes, a madrinha de sua prima do Engenho de Dentro, a colega de trabalho de Olaria, o músico trompetista de Riachuelo, o pai do amigo torcedor de futebol, que não perde um jogo no Maracanã, mesmo que seu time não seja grande. Entramos no mundo do vendedor de sapatos de Piedade, do funcionário público sem ambições do Cachambi, do gerente do supermercado do Jardim Sulacap, do dono da quitanda de Rocha Miranda, do apostador no jogo do bicho de Madureira, da feijoada mensal na Pavuna. E com certeza, brincamos com todos esses personagens nas festas características do carioca, da Igreja da Penha como no Carnaval na Avenida Central. O Rio de Janeiro, repleto de carioquices, é tridimensional no mundo de Marques Rebelo.

Recomendo para todos. Leitura agradável, divertida, no melhor estilo literário. Faltou dizer que Marques Rebelo é pseudônimo de Eddy Dias da Cruz e que em 1964 entrou para a Academia Brasileira de Letras. Merecidamente.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Curiosidade literária

13 06 2022

Hora tranquila, 1885

Vittorio Matteo Corcos (Itália, 1859-1933)

óleo sobre tela

 

 

James Joyce gostava imensamente das peças de teatro do norueguês Henrik Ibsen.  Por isso queria mandar uma carta dizendo o quanto admirava o dramaturgo.  Não teve dúvida, foi aprender norueguês básico para poder lhe escrever.  Joyce era fluente em diversas línguas: francês, italiano e alemão. Sabia latim.  E chegou a usar no seu  romance Finnegans Wake palavras em inglês arcaico, provençal, e swahili.

 





Sublinhando…

12 06 2022

Lendo na cama

Carolyn Anderson (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

“Chorar por papai passou a ser sua profissão, sua identidade, sua persona. Anos depois, ao refletir sobre a parcela política  no interior da qual havíamos  todos vivido (o marxismo e o Partido Comunista), e ao dar-me conta de que as pessoas que trabalhavam como bombeiros, padeiros ou operadores de máquinas de costura haviam se percebido com pensadores, poetas e eruditos pelo fato de serem membros do Partido Comunista, entendi que mamãe havia assumido sua viuvez de forma bastante semelhante. Sua viuvez a elevava a seus próprios olhos, tornava-a uma pessoa espiritualmente relevante, emprestava riqueza a seu pesar e retórica à sua fala. A morte de papai se transformou numa religião que oferecia cerimônia e doutrina.  Mulher-que-perdeu-o-amor-de-sua-vida passou a ser sua  ortodoxia: a ela, prestava uma atenção talmúdica.”

Em: Afetos ferozes, Vivian Gorick, tradução de Heloísa Jahn, apresentação de Jonathan Lethem, São Paulo, Todavia: 2019, p: 80.





Imagem de leitura — Francisc Sirato

10 06 2022

Interior com jovem sentada, 1947

Francisc Sirato (Romênia, 1877-1954)

óleo sobre tela