Stephen Crane escreveu a maior obra sobre a Guerra Civil americana quando lançou O emblema vermelho da coragem. Quando lhe perguntaram como conseguira descrever tão bem, com tanta acuidade cenas de batalha, tendo nascido cinco anos após o término da guerra, respondeu que tudo que precisou saber, aprendeu observando jogos de futebol americano.
Quando saiu da Rússia, fugindo da revolução bolchevique, Vladmir Nabokov deixou para trás também o luxo e a fortuna da família. Teve que trabalhar para viver tanto na Europa quanto nos Estados Unidos para onde emigrou mais tarde. Nabokov dava aulas particulares e também ensinava tênis. Ensinou por uma década, em tempo integral, na Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova York. Mas, mesmo, tendo nesse período obtido respeito da crítica, só veio a ter sucesso comercial em 1958, aos sessenta anos, quando publicou Lolita. Nesta ocasião parou de trabalhar para outros e se dedicou à escrita pelo ano seguinte.
Frequentemente me perguntam como consigo ler mais de quarenta livros por ano quando ainda tenho outras vidas para cuidar, como minhas aulas, escrever, fazer compras, cozinhar, ter amigos, ver séries, ir ao cinema. É fácil. Leio em qualquer lugar. Nesses últimos dias fiquei presa ao telefone ouvindo música de espera por muitos minutos. Tempo suficiente para ler A velhasenhora de Simenon, com tradução de Raul de Sá Barbosa. Este livro, que na edição de bolso que tenho, compreende cento e oitenta e oito páginas, foi inteiramente consumido à espera de que alguém do outro lado da linha me atendesse.
Gosto de Simenon. Gosto principalmente de seus romances “duros”. Mas isso não quer dizer que não goste de sua escrita policial. Aliás gosto muito dela. Nesta história temos o Inspetor Maigret resolvendo um assassinato fora de Paris. O que me atrai nas obras em que Maigret investiga um crime, é que sempre no final acreditamos ter tido todos os elementos necessários para fazer as mesmas deduções que ele faz. Porque é assim a narrativa. Tudo importa, mas vem em ordem caótica.
Simenon é um dos escritores com maior número de obras publicadas e um dos mais traduzidos no mundo. Na introdução a este livro, soube que das mais de quatrocentas e cinquenta obras do autor, setenta e cinco tem o Inspetor Maigret como principal personagem. Não é só um jogo de palavras que intriga o leitor, aqui e ali há encanto nas descrições de lugares, na atmosfera local das pequenas cidades ou dos bairros em que a história se desenvolve, assim como nas memórias que alguns detalhes trazem ao melancólico policial. Aqui está, por exemplo sua primeira impressão da casa que visita pela primeira vez.
“O portão não estava fechado, e ele o empurrou; depois, não achando a campainha, entrou no jardim. Jamais vira tal profusão de plantas numa área tão pequena. Os arbustos em flor eram tão espessos que pareciam uma pequena selva, e no menor espaço livre havia dálias, lobélias, crisântemos e outras flores que Maigret só vira reproduzidas em cores vivas nos pacotes de sementes nas vitrines. Parecia que a velha senhora se dispusera a usar todos eles.” [31]
Georges Simenon
Uma das características de Simenon é que seus personagens são tridimensionais e sempre caracterizados com alguma ternura, mesmo os mais infames. Há uma compreensão do ser humano, quase empatia, mesmo pelos elementos mais desprezíveis, como se Maigret, Simenon, compreendesse as razões dos maus comportamentos mesmo que ele não concorde com eles.
Pode parar para ler esse inteligente romance policial. Vale um fim de semana em casa, neste inverno gélido, numa poltrona, manta no colo, alguma bebida quente ao lado. Só não recomendo o cachimbo que Maigret e Simenon têm em comum.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Roland Wakelin (Nova Zelândia-Austrália, 1887-1971)
óleo sobre madeira
John Steinbeck disse a um amigo que seu cachorro comeu seu primeiro manuscrito, Ratos e homens (1937). Ficou agradecido porque não só estava só pela metade, como descobriu que a obra necessitava de enormes revisões.
Boa surpresa ver a reedição das obras de Marques Rebelo pela editora José Olympio. Desde que me dediquei aos três volumes de O trapicheiro, comprados num sebo do centro da cidade, não me lembro o ano, sou admiradora da prosa de Marques Rebelo, um dos mais cariocas dos escritores, que andava um tanto esquecido no fundo do nosso baú literário. Além de prosa deliciosa, de fácil leitura, com narrativa direta, temos na obra dele o retrato da cidade na primeira metade do século passado.
Não se trata da capital do país glamorosa, construída na arquitetura art déco, cidade de requinte, luxo, peles sobre os vestidos de noite nos bailes no Hotel Glória, Copacabana Palace, dos luxuosos cassinos, cidade de residência de diplomatas de todo mundo, elegante paraíso tropical à moda Hollywoodiana de Voando para o Rio [Flying down to Rio] filme icônico do Distrito Federal em 1933 ou o local de nascimento de um dos personagens mais queridos de Walt Disney: Zé Carioca. A época é a mesma, sem dúvida. Mas é o Rio de Janeiro dos subúrbios construídos às margens da estrada de ferro. Estes compõem o pano de fundo das dezesseis histórias contadas em Oscarina.
A preocupação maior de Marques Rebelo está na caracterização do homem comum, seus anseios, desejos, preocupações, o sobreviver diário. Na prosa estão estampados valores, padrões de comportamento, crenças, regras, moral tudo que colabora para o ponto de equilíbrio cultural do carioca. Não há nenhum super-herói, vencedor de grandes batalhas, de odisseias esplendorosas. Ao contrário participamos das frustrações e pequenas vitórias cotidianas, na melhor tradição literária brasileira com raízes na obra de Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Aluízio Azevedo, passando por Lima Barreto, uma única geração acima de Rebelo. Do naturalismo-realismo do século dezenove, ele acena ao modernismo por contos sem fechamento, porque a vida é contínua, pelo humor que nos leva de volta ao notável Memóriasde um Sargento de Milícias com semelhante olhar carinhoso sobre a classe trabalhadora brasileira e também pelo linguajar comum, direto, repleto de expressões populares.
Carioca, Marques Rebelo mudou-se ainda criança para Minas Gerais. É em Barbacena que lê. Lê muito. Não só os livros que faziam parte da biblioteca do pai, como jornais e revistas diversos e clássicos. Voltando ao Rio de Janeiro, na adolescência, já tem conhecimento literário mais sólido do que muitos adultos, ciente dos clássicos das literaturas brasileira, portuguesa, francesa. Mais tarde, quando abandona os estudos no terceiro ano da Escola de Medicina para se dedicar à escrita tem cabedal na arte literária produzida aqui e na Europa, apreciador sobretudo de Manoel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Está formado e destinado a escrever. Oscarina é seu primeiro livro, publicado em 1931.
Marques Rebelo
Dos dezesseis contos neste volume destaco o que nomeia o livro, Oscarina, Em maio, História de abelha, do qual retiro esta passagem, para revelar o sabor da prosa encontrada aqui:
“Assim… assim… o diabo é que a missa seria em dia útil. Manhã perdida. Poucas vendas. Era preciso forçar a freguesia, correr os subúrbios, dar uma repasso nas lojas de Madureira, ver se desencantava um tal de seu Arlindo que prometera, de pedra e cal, pagar as duplicatas vencidas do Pirelli, um caloteiro que lhe passara a casa. Não há por onde escapar: não iria ao cinema ver Greta Garbo, o domingo é que seria perdido e toca a acompanhar o Esteves, estava casando dinheiro como para o Caju. E se não fosse? que sofreria com isso? Pelo contrario ganharia que a fita era muito falada. O Antunes tinha elogiado: uma beleza! O Antunes era uma besta! Mas o Gomes, sim o Gomes era um rapaz inteligente e tinha gostado especialmente do pedaço em que ela mata o marido com um tiro, “um troço muito bem arranjado”, afirmara.” [153]
Se você não se vê na prosa de Marques Rebelo, certamente reconhecerá seu vizinho, o tio de Marechal Hermes, a madrinha de sua prima do Engenho de Dentro, a colega de trabalho de Olaria, o músico trompetista de Riachuelo, o pai do amigo torcedor de futebol, que não perde um jogo no Maracanã, mesmo que seu time não seja grande. Entramos no mundo do vendedor de sapatos de Piedade, do funcionário público sem ambições do Cachambi, do gerente do supermercado do Jardim Sulacap, do dono da quitanda de Rocha Miranda, do apostador no jogo do bicho de Madureira, da feijoada mensal na Pavuna. E com certeza, brincamos com todos esses personagens nas festas características do carioca, da Igreja da Penha como no Carnaval na Avenida Central. O Rio de Janeiro, repleto de carioquices, é tridimensional no mundo de Marques Rebelo.
Recomendo para todos. Leitura agradável, divertida, no melhor estilo literário. Faltou dizer que Marques Rebelo é pseudônimo de Eddy Dias da Cruz e que em 1964 entrou para a Academia Brasileira de Letras. Merecidamente.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
James Joyce gostava imensamente das peças de teatro do norueguês Henrik Ibsen. Por isso queria mandar uma carta dizendo o quanto admirava o dramaturgo. Não teve dúvida, foi aprender norueguês básico para poder lhe escrever. Joyce era fluente em diversas línguas: francês, italiano e alemão. Sabia latim. E chegou a usar no seu romance Finnegans Wake palavras em inglês arcaico, provençal, e swahili.
“Chorar por papai passou a ser sua profissão, sua identidade, sua persona. Anos depois, ao refletir sobre a parcela política no interior da qual havíamos todos vivido (o marxismo e o Partido Comunista), e ao dar-me conta de que as pessoas que trabalhavam como bombeiros, padeiros ou operadores de máquinas de costura haviam se percebido com pensadores, poetas e eruditos pelo fato de serem membros do Partido Comunista, entendi que mamãe havia assumido sua viuvez de forma bastante semelhante. Sua viuvez a elevava a seus próprios olhos, tornava-a uma pessoa espiritualmente relevante, emprestava riqueza a seu pesar e retórica à sua fala. A morte de papai se transformou numa religião que oferecia cerimônia e doutrina. Mulher-que-perdeu-o-amor-de-sua-vida passou a ser sua ortodoxia: a ela, prestava uma atenção talmúdica.”
Em: Afetos ferozes, Vivian Gorick, tradução de Heloísa Jahn, apresentação de Jonathan Lethem, São Paulo, Todavia: 2019, p: 80.