Intimidade
Edmond Aman-Jean (França, 1858-1936)
Óleo sobre tela
Coleção Particular
A leitura
Angelo Guido Gnocchi (Itália-Brasil, 1893-1969)
óleo sobre tela, 30 x 43 cm
Escrita em números: é impressionante saber os limites autoimpostos por alguns escritores, para o mínimo de palavras produzidas por dia. Aqui vai uma amostra:
Ray Bradbury — escrevia 1.000 palavras por dia desde os 12 anos de idade
Raymond Chandler — não tinha um limite específico, mas sabe-se que escrevia 5.000 palavras por dia
Arthur Conan Doyle, William Golding, Norman Mailer — diziam escrever 3.000 palavras por dia
Ian Fleming escrevia 2.000 palavras/dia, 5 dias por semana, 6 meses, para cada livro de James Bond
Ernest Hemingway — considerava 500 palavras, bom trabalho diário
Stephen King — escrevia 2.000 palavras por dia mas não contava os advérbios
Jack London — escreveu 1.000 palavras por dia, todos os dias de sua vida
Anthony Trollope — escrevia 250 -palavras a cada 15 minutos, marcados no relógio
Thomas Wolfe — não parava até alcançar as 1.200 palavras diárias
EXCEÇÕES
James Joyce considerava duas frases perfeitas, um bom dia de trabalho
Dorothy Parker dizia que não podia escrever cinco palavras sem trocar sete
Irmã da pintora
Florence Fuller (África do Sul- Austrália, 1867-1946)
aquarela sobre papel
O retorno, livro que li em 2012, de Dulce Maria Cardoso, me seduziu com sua linguagem, e suavidade ao tratar nuances nos sentimentos. A autora me encantou pela escrita poética e fluida. Passaram-se dez anos e voltei minha atenção para Eliete: a vida normal que acabou de ser lançado no Brasil. Foi bom ver, que pelo menos no primeiro terço do livro, o charme da escrita de Dulce Maria Cardoso permaneceu intacto ainda que o assunto tratado não se prestasse a tom meditativo de O retorno. De fato, foi o humor que se imiscuiu na narrativa que me surpreendeu, assim como o tratar de episódios corriqueiros e não tão introspectivos que eu havia atribuído à sua voz narrativa.
Eliete: a vida normal é completamente diferente do livro que li anteriormente. Partimos da vida frustrada de uma dona de casa, classe média portuguesa, vivendo em Cascais, que depois de formar uma família, com duas filhas, encontra-se naquela fase tão comum das pessoas de meia-idade: cuidar dos filhos, do consorte e dos pais, que envelhecem. Vende imóveis como profissão porque não conseguia saber a que mais poderia se dedicar. Tudo contribui para o caos generalizado, quando projetos de vida, planeamento e desejos até mesmo banais são descartados pelo bem comum. Neste ambiente, Eliete se sente só. Rendeu-se ao desmazelo, não atrai mais o desejo do marido. Isso é agravado pelo fato de não ter se sentido atraente ou sedutora, na juventude, detalhe ainda mais pesaroso, já que sua irmã conseguiu superar os entraves da juventude, e desfruta de vida interessante aos olhos de Eliete.
O que diferencia a história dessa personagem é o meio por que decide resolver seu problema. A época é a atual. Eliete é viúva do celular. Todos à sua volta estão mais interessados na telinha dos jogos ou das redes sociais, deixando-a unicamente só apesar de fisicamente próxima. Sente-se desnecessária, negligenciada. A vida é enjoada e exaustiva. A bela natureza de Cascais a aborrece. “Deus era um compositor minimal repetitivo naquele lugar, mar e vento, vento e mar, até o chilreio dos pássaros soava sempre ao mesmo.” Irônica, Eliete reflete: “Aprendi assim, de uma só vez, que as pessoas podiam morrer como os bichos e que a utilidade das suas mortes era o sofrimento que causavam aos outros.” Mas o que mais a aflige é o passar do tempo, a vida em branco, a meia idade, como quando corta os longos cabelos, por já não ser tão jovem: “Parecia haver quase um sadismo na satisfação com que o cabeleireiro me cortava o resto da juventude que eu tanto quisera preservar e que, ao contrário do cabelo, não voltaria a crescer.” É fabulosa a narrativa conduzida por Eliete, para justificar suas decisões, ações intempestivas.
Dulce Maria Cardoso continua a encantar com sua prosa. Deixou de lado a magia nostálgica de O retorno; enveredou pelo cáustico comentário da realidade contemporânea. Eliete é vítima desta realidade, mas acha, um meio de se refazer. “O passado foi feito por outros, mas o presente é feito por nós” justifica-se.
Marquei exatas cinquenta e sete frases ou passagens neste livro, de acordo com Goodreads. Muitas foram pelo delicioso descobrir de expressões portuguesas: ‘biquinhos dos pés’, para na ponta dos pés; ‘o roçagar das sedas’; mas boa parte por excelentes descrições da alma feminina. Apesar disso, o livro se prolonga onde é desnecessário. Se dividíssemos a obra em três, o primeiro terço é fantástico, o último é bom, mas o meio se prolonga, torna-se repetitivo. O ritmo se esvai, leva junto o entusiasmo pela leitura. No momento em que a história parece pachorrenta, é mais fácil deixar a leitura de lado por alguns dias. Por isso, e só por isso Eliete: a vida normal, não recebe o máximo de cinco estrelas. São quatro as que dou, com gostinho de três e meio.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Jovem rapaz deitado, 1931
Bror Hillgren ( Suécia, 1881-1955)
óleo sobre tela, 61 x 61 cm
Honoré de Balzac deu a toda sua obra o nome de Comédia Humana. Sob esse título há praticamente a totalidade de sua escrita criativa, que se concentra nas histórias, aventuras e desgraças de uma extensa família francesa. Através dos anos, o número de seus personagens cresceu tanto que Balzac desenhou uma árvore genealógica pelas paredes de três cômodos em sua residência, para poder se lembrar das conexões familiares e datas de nascimento daquelas figuras que vieram de sua imaginação.
Retrato duplo do ator Emil Poulsen e sua esposa, 1885
Peder Severin Krøyer (Noruega-Dinamarca, 1851-1909)
pastel sobre papel, 57 x 69 cm
Nivagaards Museu,Dinamarca
“Os livros nos fazem viajar no tempo. Todos os leitores de verdade sabem disso. Mas os livros não nos levam para o momento em que foram escritos. Eles nos fazem lembrar de nós mesmos em outra época.”
Em: Oito assassinatos perfeitos, Peter Swanson,tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, São Paulo, Jangada: 2022
A volta
Jasmine Saintonge (Canadá, contemporânea)
óleo sobre tela, 119 x 76 cm
O pianista da estação ganhou o Gande Prêmio RTL-Lire 2021 [RTL: rede de televisão francesa e Revista Lire]. Este prêmio difere dos outros do país; é dado pelo público: cem leitores escolhidos cada qual por diferentes livreiros, votam na obra vencedora. Um dos requerimentos entre os competidores é que sejam autores que não precisam de maior reconhecimento. Não ficou claro as coordenadas desta última categoria. Procurei saber sobre essa distinção após a leitura do livro, já que minha opinião contrasta tanto com o galardão concedido.
Trata-se da história de um homem, Joseph Marty, de sessenta e nove anos, que passa a vida tocando pianos públicos em estações de trem, metrô, aeroportos, lugares de passagem. Nômade, sempre em movimento, como se sua própria vida fosse um interminável e contínuo rondó. Qual seria o motivo? Para descobrirmos as razões visitamos o passado do pianista, órfão de ambos os pais aos quinze anos. Segue-se então mais uma história de órfãos que são maltratados nos orfanatos, sofrendo física e emocionalmente. Reconheço que neste momento, tive que decidir se continuaria ou não a leitura.
Fui leitora assídua minha vida inteira. Desde os seis anos de idade ler foi meu maior e constante entretenimento. Criança, adolescente, adulta, morando aqui no Brasil, e em diferentes países, li. Como consequência o número de histórias de órfãos que li é incontável da Cinderela à Pequena órfã Annie, de Oliver Twist e David Coperfield a Jane Eyre, Harry Potter, Poliana e outras dezenas mais de clássicos da literatura mundial. As histórias de órfãos têm, comumente, o sofrimento da criança ou adolescente em primeiro plano. E o tema logo me pareceu batido, cansativo e não tive curiosidade de ir em frente. Li, o livro inteiro porque foi selecionado pelos leitores de um grupo de leitura a que pertenço. E usei de muitos subterfúgios para manter meu interesse. Procurei por orfanatos nos Pirineus, onde a trama se desenrola, viajei via internet por diversos internatos já fechados na área. A história começa em 1969; procurei por fotos de cidades dos Pirineus da década de sessenta. Enfim, fiz o que pude para manter meu interesse neste livro.
A prosa de Jean-Baptiste Andrea, com tradução de Júlia da Rocha Simões, é suave, competente. Há bons momentos e posto abaixo passagens me pareceram interessantes. Foram quatorze marcações.
“O velho Rothenberg me dava aulas de piano. Ele era mais enrugado que papel amassado – rosto, pescoço e mãos num vertiginoso braille de rugas. Eu queria passá-lo a ferro a cada vez que o via. Mas quando ele tocava. Quando ele tocava, reis magos pegavam a estrada. Princesas exóticas e longínquas eram tomadas de languidez em seus palácios de areia. Até a sra. Rothenberg, uma sombra murcha que cheirava a pétalas e naftalina, voltava a ser a rainha do verão que ele havia seduzido, sessenta anos antes, sob uma nogueira em flor.”
“O ódio, como a oração, se alimenta de silêncio.”
Tenho outro senão: Joseph Marty passa muito tempo sem tocar piano. Como, sem treino algum, sem qualquer dedicação de horas diárias de ensaio, ele consegue tocar com tanta perfeição? Quem é capaz de pegar e largar qualquer instrumento musical, e fazer uma performance como se tempo algum houvesse passado?
Este livro não me tocou. Não me emocionou. Não é ruim. Tenho certeza de que muitos leitores não foram expostos a tantos personagens órfãos. De fato, interessante notar que hoje há muito menos órfãos no mundo do que havia no passado, graças às descobertas médicas e ao cuidado com prevenção de doenças que temos. Acho uma história romântica para corações que gostam de se sensibilizar. É um livro de passagem. Os personagens adolescentes passam por situações que eventualmente os tornam adultos. Mas, francamente, achei o tema, o assunto, na fronteira com o lugar-comum. Duas estrelas de cinco.
Retrato de Lindy Guiness, 1965
Duncan Grant (Grã-Bretanha, 1885-1978)
óleo sobre madeira, 60 x 50 cm
Não foram só perdas, tive ganhos durante a pandemia. Um deles foi ler cinco volumes seguidos de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, não acabei, mas progredi bastante. Até então, havia lido duas vezes o primeiro volume dos sete: No caminho de Swan. Primeiro, há muito tempo, quando estudava para o doutoramento em história da arte. Centralizando meus estudos na arte moderna, entre 1863 e 1945, Proust era leitura obrigatória, pelo menos o primeiro volume, para melhor entender a sociedade da virada do século. Muito mais tarde, reli o mesmo volume na preparação de um curso sobre Proust e a cultura da virada do século, tendo como eixo essa obra. Foi um sucesso. Mesmo assim, a continuação do curso, cobrindo outros volumes nunca passou de projeto. Os anos seguiram. A pandemia chegou. No primeiro ano, tive tempo e paz para me dedicar de novo à leitura de Proust e voltar a me apaixonar pela escrita, assim como milhares e milhares de pessoas o fizeram através do século XX.
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Não vou aqui tratar dos encantos da narrativa proustiana, todos já sabem. Prosa minuciosa, que merece ser lida com cuidado, pausadamente, saboreada. Sentimos a necessidade de absorver cada vinheta e memorizá-las,como se pudessem agora fazer parte das nossas próprias memórias. Mas há mais. Proust fascina também por aspectos misteriosos de sua existência, doente, escrevendo na cama; sofrendo dores e observando o mundo à sua volta. Uma vida enigmática. Não é de surpreender, portanto, que haja leitores atraídos pela intimidade de sua vida; pessoas arrebatadas que gostariam de absorver cada detalhe sobre o intrigante escritor. Esse é o fenômeno retratado em Sobretudo de Proust, ocorrência que toma conta do conhecido industrial e perfumista francês Jacques Guérin, que move montanhas para conseguir documentos, textos, mobiliário, tudo que se imagine sobre Marcel Proust. Que fique claro, no entanto, Guérin foi capaz de agregar uma respeitadíssima coleção de livros raros e manuscritos de outros escritores como Lautréamont [Isidore Lucien Ducasse] um dos queridinhos dos surrealistas. Ele foi também figura importante junto aos movimentos artísticos, literários e musicais da primeiras décadas do século XX.

Lorenza Foschini
Sobretudo de Proust: história de uma obsessão literária, de Lorenza Foschini, tradução de Mário Fondelli, mostra a procura, a caça, podemos dizer, do que restou do espólio de Proust. Jacques Guérin consegue contato com herdeiros de escritor francês, que para sua surpresa, estão paulatinamente se desfazendo, queimando, os manuscritos que receberam com a morte de Proust. É a cunhada de Proust, Marthe Dubois-Amiot, o personagem mais estarrecedor desta aventura. Mas a tenacidade de Guérin na procura e retenção dessa papelada dá certo. Hoje os manuscritos de Marcel Proust sob sua tutela são conhecidos como Cahiers Guérin.
O livro que nos conta essa história é delicioso. Pequenino, com aproximadamente cem e poucas páginas, é um deleite para quem gosta de mistérios, de livros, manuscritos e papelada em geral. É também um retrato acurado do colecionador sério, do sentimento que envolve aqueles que se entregam a uma paixão, a um amor, que procuram e retêm objetos de valor, que muitas vezes só eles, colecionadores veem sua importância no momento, esforço pelos qual gerações futuras agradecem. Este não é o primeiro livro da autora sobre Proust. Talvez sua admiração pelo escritor tenha embalado a narrativa delicada e sedutora que encontramos no volume. Recomendo a leitura, sem restrições.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.