Retrato do Sr. X, 1906
[Retrato de Pierre Loti]
Henri Rousseau (França, 1844-1910)
óleo sobre tela, 61 x 50 cm
Kunsthaus, Zurique
Retrato do Sr. X, 1906
[Retrato de Pierre Loti]
Henri Rousseau (França, 1844-1910)
óleo sobre tela, 61 x 50 cm
Kunsthaus, Zurique
Dois macacos na floresta, 1909
Henri Rousseau [Le Douanier](França, 1844 – 1910)
óleo sobre tela, 64 x 50 cm
Coleção Particular
Houve profundo conflito entre minhas expectativas e o resultado da leitura de Estamos todos completamente transtornados, de Karen Joy Fowler. Obra aclamada, finalista do Man Booker Prize, vencedora do Pen/Faulkner Award não passou de uma leitura mediana, às vezes irritante pelo gancho, muito forçado, pelo jogo de esconde-esconde com o leitor, numa tentativa de atiçar o interesse até descobrirmos, só na página 88, (nesta tradução de Geni Hirata), o verdadeiro segredo da irmã desaparecida.
A narrativa é fácil de ser seguida, a linguagem é moderna quase coloquial mas, como a própria narradora admite, a história começa no meio. Esse ir e vir do passado ao presente e ao meio da história, essa narrativa picada, cortada em pedacinhos, não adiciona nem tem grande valor estilístico. É obra plena em humor. Mostra personagens interessantes. Mas a profusão de eventos, de memórias, de atividades de personagens secundários, que recebem nome e sobrenome, descrições detalhadas e inúteis, é irritante. Há uma abundância do desnecessário, detalhes que distraem a atenção do drama familiar acumulam curiosidades factuais dispensáveis, veladas pela constante mudança na linha do tempo. Mais de uma vez questionei se iria ou não terminar a leitura.

Não gosto de literatura com agenda, ou seja, literatura que defende um ponto de vista político, luta social, direitos humanos, direitos dos animais, religiões, e outros assuntos do dia a dia. Ensaios, dissertações, artigos em revistas especializadas se prestam para isso. A boa literatura mostra, não pontifica. A literatura perde quando se encontra com estas “boas intenções” dos autores. A narrativa em defesa de um argumento empobrece e estreita a mente, características que se opõem à literatura. Livros com agendas temáticas parecem-se com obras de autoajuda ou religiosas. Infelizmente, Estamos todos completamente transtornados pertence a este grupo. Por usar o subterfúgio da narrativa na primeira pessoa, a autora evita argumentos contrários. Temos então uma obra proselitista, de catequese. Uma história, um romance, que não passa de apostolado, de propaganda de causa, com excesso de números, dados, informações científicas, sem disfarce.
Karen Joy Fowler
Não vou revelar a causa, nem a virada da narrativa quando descobrimos a verdadeira natureza de Fern, irmã de Rosemary, filha caçula da família Cooke. Mas não gostei de me sentir manipulada em diversos níveis. Primeiro nesta descoberta, e depois na pregação, no partidismo em favor da agenda da autora, que muito me comove, e com a qual posso até concordar plenamente. No entanto, submeter valor literário a qualquer causa como esta, é depreciar a imensa porta para o auto conhecimento, para a imaginação, para a maturação emocional revelados pela leitura. Há aqui uma reversão de valores que acho detestável.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
O sonho, 1910
Henri Rousseau, “Le Douanier” (França, 1844-1910)
óleo sobre tela, 204 x 298 cm
MOMA, Nova York
Não gosto de literatura criada com objetivo político, com a intenção de instruir, ensinar, ilustrar um problema. Literatura didática, com viés político ou social, destrói a potencialidade de execução de uma boa ideia. Este é o caso de Um velho que lia romances de amor, do chileno Luís Sepúlveda, com tradução para o português de Josely Vianna Baptista. Uma ideia tão boa! Uma apelo tão interessante, descoberto pelo próprio autor que diz; “ … e pôs-se a andar no rumo de El Idilio, de sua cabana e de seus romances que falavam do amor com palavras tão belas que às vezes o faziam esquecer a barbárie humana.” [94] No entanto, gostar de ler romances de amor para Antônio Bolívar, personagem principal desta novela situada na Amazônia equatoriana, é simplesmente um acidente de percurso, como poderia ser contar escamas de peixes ou fazer colares de sementes vermelhas. É chamariz, um elemento decorativo na narrativa, secundário e não explorado. Luis Sepúlveda tinha uma ideia interessante nas mãos, muito boa mesmo, mas preferiu a dogmática posição político-social de defesa do meio ambiente, sacrificando no desenrolar da história a significância do mundo de devaneios e fuga que, pela leitura, podiam encapsular Antônio Bolívar, protegendo-o da rusticidade do mundo que habitava.

Fora a restrição acima, essa pequena obra se respalda em excelentes descrições da selva amazônica. Luís Sepúlveda consegue desde o início dar a sensação do calor opressivo, a umidade asfixiante, da muralha verde insuperável da jângal, da brutalidade necessária para a sobrevivência no matagal distante. Alguns de seus personagens são um tanto caricaturais, como o coronel que insiste em adentrar a floresta de botas, ou até mesmo o dentista com suas diversas dentaduras prêt-à-porter. Também achei a referência aos “bandidos” americanos, uma visão simplória do explorador, com viés político muito usado, que empobrece a causa defendida. Em contrapartida, as descrições do povo shuar, indígenas que vivem na floresta amazônica entre o Peru e o Equador são magníficas.
Luís Sepúlveda
Esta é uma obra descomplicada, formulada com uma única ideia em mente: o abuso da exploração sem trégua da Amazônia. Tem a intenção de um romance de aventuras muito aquém de um clássico como H. R. Haggard de As Minas do Rei Salomão. Ganha muito com os conhecimentos passados pelo convívio do autor com os índios shuar, durante sua estadia no Equador. Como literatura é um trabalho trivial, com linguagem simples, enredo e narrativas sucintos. Um velho que lia romances de amor se beneficiou bastante pelo momento em que foi lançado 1989, mesma época do assassinato do brasileiro Chico Mendes, seringueiro e ambientalista, amigo pessoal do autor, a quem o livro, nesta edição é dedicado. É uma obra usada frequentemente nas escolas em alerta às questões ambientais. No Brasil, foi publicado pela Ática, editora responsável por muitas obras paradidáticas. Não me impressionou.
Observação sobre esta edição: Capa de Ettore Bottini. Em lugar nenhum deste livro se menciona que a capa tem a diagramação de Bottini, mas a obra retratada é um detalhe do quadro O sonho, do pintor francês Henri Rousseau (1844-1910). Só porque já está em domínio publico não alivia a responsabilidade da editora de identificar a obra principalmente quando o livro é fartamente usado nas escolas do país.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.