Casario
Franz Josef Widmar (Austria/Brasil, 1915-1995),
óleo sobre eucatex, 60 x 50 cm
Carnaval
Nelson Jungbluth (Brasil, 1921 – 2008)
acrílica sobre tela
“1914. A grande ambição carnavalesca era usar lança-perfume. Havia tubos para crianças, finos como dedos. Bisnagava-se até cachorro!
Na terça-feira gorda, o chão da Avenida tinha um palmo de confetes, os préstitos eram o delírio do ouropel — clarins, marchas triunfais, fogos-de-bengala, caracolantes ginetes abrindo os cortejos — gato, baeta, carapicu! — bamboleantes sóis, planetas, constelações, Vulcano, Júpiter, Netuno, mitológicos deuses paralisados em gestos de sarrafo e papelão, giratórias esferas rutilantes que se abriam em gomos para desvendar, por instantes deslumbrados, deidades semi-nuas, atirando beijos, para a multidão comprimida, com a ponta dos dedos inatingíveis.
Saímos de tardinha, providos de farnel — sanduíches, pastéis, coxinhas de galinha — levávamos horas no bonde se arrastando aos arrancos, íamos postar-nos numa esquina propícia, sobre caixotes, para esperar o desfile de proverbial atraso.
Mas se a chama foliona se extinguia na cidade, entre missas, sinos e beatas, na manhã de quarta-feira, prolongava-se em nossa casa por muitos dias além com restos de serpentinas pendentes dos gradis, saldos de confetes tapizando sala de jantar, trono, capitel, concha ou nenúfar, donde Madalena reclinada, soberana, envolta em rotos filós de antigos cortinados, com as faces tingidas por carmim, os cabelos coroados por um desperdício de fitas, atirava em gestos longos cachoeiras de beijos para uma suposta multitude de súditos e adoradores. E a mim, dormido ou acordado, me perseguia incessante, priapística, a luxuriosa visão daquelas deidades apoteóticas, floração de um horto inacessível, habitantes olímpicas, deusas! deusas! pois como poder entrosá-las na fauna feminil que eu conhecia, mesmo a esterlina mulher de doutor Vítor, que era estrangeira e fumava?”
Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada, pp. 217-218
Retrato de Winifred Robers, 1913
Eleanor Fortescue Brickdale (GB, 1871-1945)
òleo sobre tela
José Jorge Letria
Nem dez vidas me bastariam, eu sei,
para ler os livros que fui arrecadando
e que me desafiam para que
me perca neles como um peregrino
nas rotas de um mitigado desespero.
Sou eu que pertenço aos livros
e não o contrário, já o disse umas tantas vezes,
pois o que eles vão entesourando
é a pequenez do tempo que me resta
para os ler e neles me encontrar.
Os livros falam de vidas e de guerras
e eu só falo do que os livros contam,
esquecido que ando do que vivi
e bem podia e devia contar-vos.
São os livros que me acenam,
apontando-me para os mostradores
dos seus relógios imóveis e opacos,
assim como quem diz: por mais que vivas,
por mais que faças, tu partirás
e nós, bem ou mal, havemos de ficar,
porque não nos cansamos de viver
a ficção de que são feitas estas vidas.
Em: Cintilações da Sombra 2: antologia poética, coordenação Victor Oliveira Mateus, Fafe, Portugal, Labirinto e Núcleo de Artes e Letras de Fafe: s.d., p. 50
Dependurada
Burton Silverman (EUA, 1928)
óleo sobre tela, 116 x 81 cm
Coleção Particular, Carolina do Norte
Horas de lazer, 1895
Henry Siddons Mowbray (EUA, 1858 -1938)
óleo sobre tela, 30 x 40 cm
Museu de Arte Americana, Smithsonian
Washington DC
Uma leitora, 1996
Francine Van Hove (França, 1942)
óleo sobre tela
“Era Primavera e eu estava em Siena. Entretido o dia inteiro em minudentes pesquisas nos arquivos da cidade, eu costumava flanar à noitinha, após o jantar, pelo caminho agreste de Monte Oliveto, onde, ao crepúsculo, grandes bois brancos, jungidos arrastavam, como nos velhos tempos de Evandro, um carro tosco de rodas maciças. Os sinos da cidade anunciavam a morte serena do dia; e a púrpura do ocaso baixava com melancolia majestosa sobre a cadeia de colinas rasas. Quando já os negros esquadrões de pegas se haviam apossado das muralhas, só, no céu de opala, um gavião volteava, de asas imóveis, por sobre um roble isolado.
Eu caminhava de encontro ao silêncio, à solidão e aos inofensivos espectros que avultavam à minha frente. Insensivelmente a maré da noite inundava os campos. O olhar profundo das estrelas tremeluzia no céu. E, nas sombras, ao redor das moitas, os pirilampos faziam palpitar os seus fachos amorosos.”
Em: O poço de Santa Clara: contos, Anatole France, tradução de João Guilherme Linke, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira: 1978, p. 3
Que saudades dos folguedos
dos meus Natais mais risonhos…
em que singelos brinquedos
amanheciam meus sonhos!
João Freire Filho