Ilustração revista americana dos anos 50.
Num beijo fez imortal
o nosso amor sem ressábios:
um romance original
escrito por quatro lábios.
(Lilinha Fernandes)
Ilustração revista americana dos anos 50.
Num beijo fez imortal
o nosso amor sem ressábios:
um romance original
escrito por quatro lábios.
(Lilinha Fernandes)
Inverno
Dana Krinsky (Israel, 1969)
óleo sobre tela, 50 x 60cm
Augusto Cury
Augusto Cury
Paisagem rural, 1946
José Marques Campão (Brasil, 1892- 1949)
óleo sobre tela colada em madeira 92 X 74 cm
Vaso de flores, petúnias
Marques Júnior (Brasil, 1887- 1960)
óleo sobre tela, 54 x 45 cm
A noite antes das provas, 1895
Leonid Osipovich Pasternak (Rússia, 1862-1945)
óleo sobre tela
Musée d’Orsay, Paris
Marina da Glória
Jorge Vieira (Brasil, 1952)
óleo sobre tela, 74 x 64cm

Na imprensa nazista, aparecem artigos sobre a situação nos países do norte da África ocupados pelo exército francês. A rádio alemã começa até mesmo a difundir transmissões em árabe. Ouvimos, perplexos, esses jornalistas, que, de Berlim, apelam para que peguemos em armas contra a França. Parece que os soldados alemães são lançados de paraquedas no meio da noite, nos vilarejos perdidos da Argélia. Trazem latas de comida e oferecem chocolate às crianças. Estão lá para tentar nos convencer a aderir ao exército hitleriano, que promete expulsar a França do país. Prometem que, graças à Alemanha, nossas crianças serão escolarizadas e a Argélia voltará a ser uma terra islâmica. Anos mais tarde, nesses mesmos vilarejos, encontraremos metralhadoras e um capacete alemão. Nossos avós encolherão os ombros: “Era um jovem soldado alemão que foi lançado de paraquedas aqui… Ele trouxe comida e nós o escondemos”. ”
Em: As verdadeiras riquezas, Kaouther Adimi, tradução Sandra M. Stroparo, Rio de Janeiro, Rádio Londres: 2019, página 65
Autorretrato com cavalete, 1892
Louis Anquetin (França, 1861-1932)
óleo sobre tela, 22 x 15 cm
Natureza morta
Fernando P. (Brasil, 1917- 2005)
óleo sobre tela, 81 x 65 cm
Cartão postal, menino napolitano com senhor músico.
Seria muito fácil brincar com o título do livro de Domenino Starnone, notando que depois de Assombrações, [tradução de Maurício Santana Dias] não conseguimos escapar das fugidias memórias que nos assombram depois a leitura. Obra certa, na hora certa? Talvez. Faz mais de um ano e vira-volta eu me encontro pensando numa ou noutra imagem que ele me proporcionou.
A história é simples. Um desenhista, ilustrador de livros, Daniele Malarico, de setenta anos, deixa Milão onde mora, no norte da Itália, para passar um fim de semana em Nápoles, sua cidade natal. Vai com uma tarefa: cuidar do neto, Mario. Filha e genro não estão disponíveis e têm um casamento em perigo. A tarefa não lhe agrada, mas sente um quê de responsabilidade, ou sua filha não poderia tê-lo convencido a fazer isso. A perspectiva de rever a casa onde cresceu, que é agora habitada pela filha, marido e neto, não é sedutora; deixou-a para trás há muito tempo.

Lá pela década de quarenta do século passado Thomas Wolfe avisava You can’t go home again. O lugar onde crescemos e vivemos nos primeiros anos de vida, não é o mesmo que carregamos dentro de nós adultos. Nunca foi. Nunca será. O que dele lembramos não é o que outros veem, não é o que muitos percebem. O contraste entre o homem de hoje e o de ontem traz lembranças que assustam, assombrações que nos mantêm desconfortáveis.
Daniele visita a casa natal depois de passar a vida tentando esquecê-la e os segredos que ali viviam. Ambição, criatividade e a inevitável vontade de ser o que acredita ser seu destino o levaram para longe e para a sublimação do passado. Simultaneamente está se tornando consciente a cada dia da velhice, do corpo que não mais reflete o que foi, o adulto de sucesso. Num fim de semana, confinado na casa da infância contempla no neto, menino irritante e importuno, sua própria infância. Há que confrontar finalmente o menino que foi e que traz dentro de si. Há que confrontar os fantasmas do passado. As assombrações que o aterrorizam.
“…Depois aquela fase passou, mas agora eu tinha mais mortos na memória do que na infância — quantos conhecidos e amigos meus haviam partido depois de terríveis doenças –, e mesmo as angústias se centuplicaram, tanto que às vezes, em Milão, eu acordava de chofre, certo de que ladrões e assassinos estavam na minha casa, e perambulava insone pelos cômodos, estremecendo quando um reflexo de luz projetava na parede a folhagem móvel das árvores do pátio como se fosse uma presença feroz. O que é que me preocupa — disse a mim mesmo — mais do que ansioso, eu deveria estar melancólico: já vivi grande parte da vida e agora eu mesmo me aproximo da hora da morte, caberá a Mario me descobrir atrás de uma porta ou nos cantos escuros da casa. Quantas aparências o cérebro era capaz de por em órbita com seu circuito de emoções. O menino não tinha medo do escuro, mas, depois daquele nosso convívio, talvez ele temesse minhas aparições.” [88]
Domenico Starnone
Em Assombrações Daniele Malarico trabalha nas ilustrações de um conto de Henry James, The Jolly Corner. No final do livro acompanhamos as notas que Danielle faz para si mesmo, uma espécie de diário das ilustrações, das considerações que faz ao longo do trabalho. No entanto, não ficamos sabendo do conteúdo da obra ilustrada. Não é gratuita aparição deste conto de Henry James. The Jolly Corner é uma das histórias de fantasmas mais conhecidas de Henry James. Ela descreve a visita que um homem faz à sua casa natal em Nova York depois de trinta e três anos de ausência. Ao visitá-la pondera sobre a escolha profissional que fez, e é obrigado a considerar quem poderia ter sido, caso tivesse escolhido outro destino.
Sutil, este pequeno romance, com menos de duzentas páginas, é rico em sabedoria. Numa quase meditação é uma obra que fica entranhada na alma do leitor. Bela prosa e desenvolvimento do tema. Vale a leitura.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.