
Marco Padrão e Ilha Porchat ao fundo Praia do Gonzaguinha, São Vicente, SP, 1968
Agostinho Batista de Freitas (Brasil, 1927-1997)
óleo sobre tela, 46 x 65 cm

Marco Padrão e Ilha Porchat ao fundo Praia do Gonzaguinha, São Vicente, SP, 1968
Agostinho Batista de Freitas (Brasil, 1927-1997)
óleo sobre tela, 46 x 65 cm

Casario
Francisco Céa (Brasil, 1908 – 1978 ?)
Cesídio Ambrogi
Meu vilarejo – um cromo estilizado:
O Largo da Matriz. Uma palmeira.
A cadeia sem preso nem soldado.
Calma em tudo. Silêncio. Pasmaceira.
Andorinhas em bando, no ar lavado.
O rio. O campo além de uma porteira.
Um velho casarão acaçapado
— Nossa casa tranquila e hospitaleira.
O Cruzeiro lá em cima, em plena serra,
Braços abertos para minha terra…
E eu criança e feliz. Que doce idade!
Hoje, porém, meu Deus, quanta emoção!
Do meu peito no triste mangueirão,
Cavo e soturno, o aboio da saudade…
Em: 232 Poetas Paulistas: antologia, ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 209.
Cesídio Ambrogi nasceu em Natividade da Serra, a 22 de maio de 1894. Faleceu em 27 de julho de 1974. Professor, escritor, jornalista, poeta eclético. Fundador da “Sociedade Taubateana de Ensino” e considerado presidente perpétuo da União Brasileira de Trovadores (UBT-Taubaté). Casou-se em 1920 com Petronilha Chiaradia, que faleceu em 1933. Tiveram dois filhos. Cinco anos depois, contraiu matrimônio com a advogada, professora e também trovadora Lígia Teresinha Fumagalli com quem teve mais cinco filhos.
Obras:
As moreninhas, 1923

Um momento de descanso, 1885
John White Alexander (EUA, 1856-1915)
óleo sobre tela, 66 x 86 cm

Flores de março, 1998
Wega Nery (Brasil, 1912-2007)
óleo sobre tela, 98 x 68 cm

Igreja da Glória
Bruno Lechowsky (Polônia-Brasil, 1889 – 1941)
aquarela, 31 x 21 cm
Bordadeira
Franz Xaver Simm (Áustria, 1853 – 1918)
óleo sobre tela, 94 x 68 cm

Natureza morta com peixes, 1946
Ernani Vasconcellos (Brasil, 1912 – 1988)
óleo sobre tela, 60 x 81 cm

Sem título
Alan Feltus (EUA, 1943)
óleo sobre tela
Voltei a um livro que li no finalzinho do ano passado, Poesia Pura de Binnie Kirshenbaum, [tradução de Lourdes Menegale], publicado no Brasil em 2002. Cansada da mesmice dos best-sellers, este livro mostrou-se bom antídoto para o tédio. Não se trata de obra prima merecedora de prêmio, mas uma distração inteligente, com uma heroína pronta para seduzir essa leitora. Lila Moscowitz é tipicamente nova-iorquina, com um pouco mais de trinta anos, grandessíssima mentirosa que ocasionalmente racionaliza suas fábulas: “é um daqueles casos em que uma mentira personifica uma verdade maior. Uma verdade metafórica, porque a verdade literal serviria apenas para distorcer a realidade…” [15]. Poeta de sucesso, sem pudor na linguagem ou no sexo, encontra-se permanentemente estressada, sem poder escrever uma linha satisfatória, desde que seu casamento com Max terminou. Angustiada com tarefas cotidianas e vida amorosa insossa, quer ser especial, como qualquer heroína de Woody Allen ou Almodóvar e um pouco das mulheres de Sex and the City. Lila passa os dias pensando no casamento falido. Enquanto isso aproveitamos de pequenas e deliciosas reflexões cotidianas, em passagens até mesmo prosaicas, como uma visita a um hospital, que valem ser ressaltadas.
“É cruel, pensei, levar flores para pessoas que estão morrendo. É como se você estivesse apressando o funeral. Sem falar em esfregar no nariz deles a fragilidade da vida. Uma lembrança brutal de como uma coisa suave e fresca torna-se marrom nas bordas, o perfume se transforma em mau cheiro, tudo numa questão de dias. Os moribundos não precisam ter isso num vaso na mesa-de-cabeceira”[76].

Lila não quer a vida comum, porque ela é só “para os que não fazem questão do melhor.” Procura desesperadamente sentir-se especial, e aí está a fonte do desespero e a prisão em que se encontra. Definitivamente uma mulher contemporânea, que se imagina merecedora de muito mais do que o que consegue, vive correndo de lugar em lugar, de pessoa em pessoa, em círculo com assustadora velocidade, à procura do que parece inatingível: felicidade e satisfação consigo mesma. Lila é adorável na sua franqueza, mas às vezes cruel. Inteligente, ela mostra a desconcertante procura por uma felicidade inatingível.

Talvez seja o humor a característica mais encantadora deste livro, quer nas observações do dia a dia, quer nas justificativas que Lila encontra ou fabrica para si mesma, um sorriso é inescapável do leitor atento. Encontrei-me frequentemente suspendendo a leitura para poder refletir sobre o que acabara de ler, com a sensação de surpresa e diversão sobre o ponto de vista adotado. Fora isso, Poesia Pura é um livro sem maiores ambições, cuja grande virtude está no entretenimento inteligente.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

Homem lendo, 1995
Harry Elsas (Alemanha-Brasil, 1925 – 1994)
óleo sobre tela, 80 x 60cm

Homem com cavalos
Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885 – 1962)
óleo sobre tela, 32 x 40 cm
Wilson W. Rodrigues
Deixa o meu balaio velho
que guardei como lembrança
do tempo em que no balaio
levava muita esperança…
Eu mesmo fiz o balaio,
entrancei-o em sua trança,
cantando as minhas cantigas
que aprendi quando criança.
Com o balaio nas costas,
tive tanta ilusão mansa,
pensei até que amaria
a filha do rei de França.
Com tanta coisa sonhei!
Tudo se foi sem tardança…
Só meu balaio ficou
com minha desesperança.
Em: Bahia Flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 55.