Considerações sobre novas regras Hollywoodianas, por Ronaldo Wrobel

13 09 2020

Retrato de Louis Guillaume, 2006

Alexi Worth (EUA, contemporâneo)

“Acho que seu projeto não contribui para um mundo melhor.”

O professor disse aquilo à queima-roupa enquanto analisava os trabalhos da turma. Enfim: eu estava fora da disputa. Eliminado.

Eu estudava roteiro para cinema em 1999 com um diretor que buscava boas ideias para um projeto internacional. Longa metragem de ficção, tema livre. Cada aluno tinha preparado uma sinopse com perfil de personagens e uma breve justificativa do projeto: seus propósitos, o porquê de seus propósitos, público alvo etc. Acho que meu erro foi esse: eu só queria contar uma história. Nada de transformar o mundo, salvar a natureza, erradicar a miséria, fazer criança gostar de brócolis. O professor nem chegou a comentar a sinopse, só disse que ela não contribuía para um mundo melhor.

Pensei nisso semana passada, quando a Academia de Hollywood divulgou os novos critérios para a admissão de filmes concorrentes ao Oscar de melhor filme a partir de 2024: 1. a história deve ser centrada em um grupo pouco representado, 2. ao menos um dos atores principais ou coadjuvantes devem pertencer a uma etnia ou grupo racial pouco representado, 3. pelo menos 30% dos papéis secundários devem ser preenchidos por duas das seguintes categorias: mulheres, grupos raciais ou étnicos, LGBTQI+, pessoas com deficiência física ou cognitiva. Também há exigências semelhantes para a equipe técnica, empresas financiadoras e distribuidoras e profissionais de marketing, tudo com o intuito de promover “uma comunidade igualitária e inclusiva”. Mas, afinal, o que é uma comunidade igualitária e inclusiva? Como promovê-la?

Tenho certo receio de conceitos vagos com pretensões universais. Prefiro ouvir o mecânico da geladeira explicar o vazamento na cozinha e propor soluções. Nada contra salvar a Terra, mas há muita esperteza por trás dessas nebulosas benignas. Minhas contribuições para um mundo melhor têm sido mais modestas, focadas em resultados pontuais. A imensa maioria da população faz a mesma coisa e é assim que o mundo se salva todos os dias, sem estardalhaço, sem Oscar.

Há cerca de quinze anos resolvi escrever um romance histórico e conversei com sapateiros e alfaiates idosos. Um deles é Fausto Marques, alfaiate tradicional na Gávea, português de nascença, que me mostrou tecidos e instrumentos de trabalho no pequeno ateliê enquanto preparava um paletó com um zelo impressionante. Voltei para casa convencido de que o Seu Fausto contribuía para um mundo melhor, muito embora ele só quisesse fazer roupas de qualidade – ou justamente por isso?

Outro dia conheci um apreciador de carros antigos que coleciona livros raros sobre o tema. Comentando o impacto da Segunda Guerra na economia inglesa, ele contou que em 1948 a indústria Jaguar ainda produzia carros projetados na década de 30, enquanto os americanos estavam anos-luz à frente em estilo e tecnologia. Tenho certeza de que esse estudioso também contribui para um mundo melhor, a exemplo dos enfermeiros que cuidaram de minha avó em sua internação hospitalar ou das gentilíssimas atendentes do restaurante Delírio Tropical, perto de minha casa, que servem saladas com um bailar de mãos sempre ágil e delicado, pinçando folhas, compondo os pratos como se pincelassem um quadro. Conheço uma manicure que luta diariamente para tornar o mundo melhor. Seu campo de batalha são unhas e cutículas. Também conheço porteiros, feirantes, aposentados, médicos, tosadores de cachorros, secretárias, advogados que são muito bons no que fazem e tornam o mundo melhor o tempo todo, inclusive quando estão no metrô, no elevador, na farmácia, no barbeiro, no trânsito, em qualquer lugar.

Sempre achei que um bom texto pode melhorar o mundo pelo simples fato de ser bom, pois aquilo que é bom faz o bem. Cresci lendo grandes autores em linhas às vezes singelas, crônicas do dia-a-dia, artigos de jornal. Textos e arroubos maravilhosos apareciam em qualquer lugar, não apenas nas obras consagradas. Eu me sentia feliz, inspirado, com vontade de aprender mais, de ser melhor, de escrever bons textos e mostrá-los para todo mundo. Nem sempre as pessoas entendiam o que eu queria dizer porque nem sempre eu era claro ou sequer sabia o que estava dizendo. Melhorei bastante, mas nenhum texto é imune às surpresas pregadas pela liberdade interpretativa dos leitores, principalmente quando o autor quer transformar o mundo em vez de dizer algo mais palpável.

Me pergunto o que os novos critérios de Hollywood teriam feito com “Laços de Ternura”, Oscar de melhor filme em 1984, centrado numa complexa relação entre mãe e filha, ambas brancas, heterossexuais, classe média-alta, cercadas por coadjuvantes igualmente brancos. Prefiro não pensar nos estragos causados ao maravilhoso “Muito Além do Jardim” (1979), com protagonistas brancos, alguns multimilionários, enquanto negros secundários e esporádicos faziam o papel de negros secundários e esporádicos.

A coisa é pior do que parece, pois não bastará a menção a grupos marginalizados ou improváveis nas telas. Um dos aspectos mais perversos da censura ideológica é que ela não apenas define aquilo que pode ser mostrado, mas COMO aquilo deve ser mostrado. Que ninguém se atreva a abordar a minoria X, Y ou Z sem agradar ao dirigismo temático de Hollywood, mesmo que os roteiristas e diretores pertençam às tais minorias. Peço um minuto de silêncio para negros, gays, deficientes e afins que simplesmente não queiram falar sobre suas diferenças ou que pretendam mostrá-las sem as lentes validadas pelo olimpo hollywodiano. Outro minuto de silêncio para os excelentes profissionais que nunca terão vez no mercado porque seus talentos não contribuirão para um mundo “mais igualitário e inclusivo”.

Tomara que eu esteja errado, mas consigo prever a ascensão de oportunistas e patotas fechadas, a produção de obras paradidáticas que serão fracassos de bilheteria (como já acontece), equipes de criação forçando a barra para satisfazer Hollywood e o chefe do projeto aos gritos: já falei mil vezes que precisamos botar a pºhh@ de um v1^d0 na história! Por outro lado, veremos cada vez mais alternativas para profissionais e audiências desinteressadas em transformações utópicas.

Se as novas regras de Hollywood não funcionarem a contento, paciência. Nada de desespero. Ainda há muita gente contribuindo para um mundo melhor e você nem precisa assistir à entrega do Oscar para conhecê-las. Basta fazer unhas com a Dirce, encher o tanque do carro com o Camilo, ler um bom texto ou ser atendido pelas moças do Delírio Tropical da Gávea.

De Ronaldo Wrobel, com permissão de sua página no FaceBook





Rio de Janeiro, um parque à beira-mar

11 09 2020

Pedra da Gávea, s/d

Jorge Drumond Furtado de Mendonça (Brasil, 1879 – 1933)

óleo sobre tela, 45 x 60 cm





Festa de reis, texto das memórias de Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930)

10 09 2020

Rodrigues Lessa (Brasil, 1972)Folia de Reis,2006,ast,30 x 40 cmFolia de Reis, 2006

Rodrigues Lessa (Brasil, 1972)

acrílica sobre tela, 30 x 40 cm

Reunidas as famílias na Marmota, partiu o imenso terno às oito ou nove horas da noite. Cada família levava alguns de seus agregados que tinham filhas que dançassem bem o lundu, única dança então conhecida em nossa terra, à exceção de uma valsa de que depois falarei. Eram também convidados alguns desses agregados só pela estima ou deferência que mereciam do proprietário; iam como meros espectadores. Algumas senhoras iam a cavalo, bem como os homens. Todas as famílias, porém, levavam carros puxados a bois, não só para as senhoras que preferiam aquele modo de transporte, como para os meninos, agregados e mucamas. porque iam também as que dançavam bem ou tinham boa voz para tirar os reis.

Os instrumentos musicais eram ordinariamente flauta, rebeca e violão. Chegando a certa distância apeavam-se os que iam nos carros, cujo chiado estridente podia ser ouvido na vivenda. Os que iam a cavalo prosseguiam até mais perto. Então, reunidos, a pé, no maior silêncio, dirigiam-se à casa do proprietário. Não tanto para causar surpresa aos donos da casa, que haviam sido avisados, mas para que se conservassem as portas fechadas e em silêncio, talvez para simular surpresa. Era a praxe.

No silêncio profundo da noite, rompiam de repente os sons das vozes e instrumentos. Era de um efeito agradabilíssimo. Às trovas em referência ao nascimento do Messias, seguiam-se as de saudações aos donos da casa e outros membros da família. Vinham depois as quadras mais ligeiras e alegres,  pedindo para ser aberta a porta. Com pequenas variantes, tudo isto era obedecido até há pouco tempo. Aberta a porta, era a sala invadida em alegre alvoroço. Não ricamente mobiliada, como acontecia com as nossas vivendas campestres, todas muito simples, a sala estava, porém, adornada com o mais precioso adereço para os hóspedes. a alegria e bom acolhimento dos donos da casa. Então, todos em pé formavam a circunferência de um grande círculo vazio que devia ser ocupado pelos que dançavam. Somente os instrumentistas tinham cadeiras.

As mais peritas cantadeiras entoavam as alegres cançonetas chamadas chulas, acompanhadas dos instrumentos e palmas dos assistentes. Algumas dessas chulas não deixavam de ter o sainete da graça e o espírito popular. Depois, o que dirigia o samba, logo que terminava a última copla, saía na roda dançando, acompanhado dos instrumentos. Os homens não tinham em grande apreço o lundu baiano, executado pelo sexo masculino. Portanto, só saíam dançando para ter lugar de tirar as belas raparigas. Davam algumas pernadas, sempre em ar de galhofa, e iam topar –– era  o termo —em uma das dançadeiras. Cantavam então a segunda copla no final da qual saía à roda a rapariga. Se era bonita e conhecido seu mérito dançante, as palmas dobravam de entusiasmo e estrepitosos bravos cruzavam-se no ar. Isto não durava muito tempo: todos desejavam o descanso depois da caminhada. Era dado o sinal, e a dançarina topava mo instrumentista da viola ou do violão. Eram oferecidas bebidas, e todos se dispersavam pelas salas e outros aposentos, conversando alegremente.

Findo o breve descanso, devia recomeçar o samba. Desta vez, porém, não foi assim. Todos ardiam na impaciência de ver as danças altas — assim eram chamadas — que iam ser executadas pelos sobrinhos de minha mãe. Estas danças eram de bem poucos ali conhecidas, e foi tal a aglomeração de espectadores, que com dificuldade deixaram o espaço, no centro da sala, para a execução das mesmas. Vi, pela primeira vez, a gavota, a cachucha, o minueto, o fandango e o solo inglês, que foi o mais apreciado em razão das múltiplas figuras ou modos de dançar. O rapaz mais moço, Manoel Paulino, de treze anos, era muito vivo e engraçado, sendo por isso muito aplaudido. Do mais velho, Pedro da Trindade, já sério e refletido, diziam: “Dança bem, mas não tem a graça do outro.” Depois houve a repetição do samba, a que não assisti, Minha mãe nessas ocasiões tratava de arranjar um cômodo para agasalhar-me o sofrimento dos olhos, que foi o constante martírio de minha vida, não me permitia perder as noites,  e ela, pouco apreciadora do samba, não voltava à sala.

Pela manhã, encontrei as senhoras cuidando dos preparativos do almoço. Todas, parentas e amigas, auxiliavam a dona da casa, embora não fosse preciso, visto o crescido número de escravas empregadas em todas as casas no serviço doméstico. Mas é que todas aquelas senhoras tinham muito garbo de boas donas de casa e gostavam de ostentar seus conhecimentos culinários, embora muito simples, como era tudo naquele tempo. Os homens, ao se levantarem da mesa, dispersavam-se pelas salas da frente, e as senhoras agrupavam-se nos aposentos interiores, onde estas conversavam sobre coisas domésticas e costuras, que mostravam, comentando a beleza ou os defeitos. Em todas as casas havia costureiras e rendeiras escravas que trabalhavam para a família. Depois do suculento almoço, todos voltavam às suas vivendas satisfeitos,  a combinar novos reisados, que repetiam na maior parte das casas.

Em: Longos Serões do Campo; infância e juventude, Anna Ribeiro de Goes Bittencourt (1843-1930), volume II, Rio de Janeiro, Nova Fronteira:1992, pp 52-55





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

9 09 2020

Bananas II, 1987

Glauco Rodrigues (Brasil, 1929 – 2004)

serigrafia aquarelada, 60 x 80 cm





Sete de Setembro

7 09 2020

Bandeira do Brasil em 1822





Insensatez proíbe a página deste blog no FaceBook

6 09 2020

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Há dez dias, a página da Peregrina Cultural no FaceBook foi denunciada como tendo conteúdo impróprio.  Estou portanto impedida de publicar as postagens deste blog tanto no perfil do blog como no meu perfil particular.

Já cansei de reclamar pelos meios que o FaceBook oferece, sem solução e sem resposta. Este blog é, no entanto, seguido por professores e algumas escolas brasileiras e cinco fora do Brasil.

Tenho tido cuidado de não colocar obras de arte que possam ofender, colocar poesias e textos que tampouco ofendam os mais restritos padrões.  E porque alguém determinou que não gostou de alguma  opinião ou imagem (eu nem sei o que poderiam ter considerado impróprio) estamos todos, eu e meus leitores, surpresos.

Se você conhece alguma maneira de apressar o processo de re-aprovação do blog, ficaria imensamente grata. Já esgotei minha capacidade.  O blog pode ser passado pelo tweet, mas não pode ser colocado em nenhum perfil do FaceBook.

Agradeço desde já aos mais de cinco mil visitantes diários, aos quase onze milhões de visitantes neste período de doze anos de postagens, que tentam mostrar riquezas culturais nossas e de outros locais. 

Obrigada.





Em casa: Gustave Caillebotte

6 09 2020

Homem na sacada, 1880

Gustave Caillebotte (França, 1848- 1894)

óleo sobre tela, 116 x 97 cm

Coleção Particular





Imagem de leitura — Charles E. Waltensperger

3 09 2020

Um bom livro

Charles E. Waltensperger (EUA, 1870 – 1931)

[Atribuído]

óleo sobre placa, 35 x 28 cm





Em casa: Henrik Nordenberg

2 09 2020

Interior com jovem à janela

Henrik Nordenberg (Suécia, 1857 – 1928)

óleo sobre tela, 80 x 61 cm





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

2 09 2020

Natureza Morta

Humberto Cozzo (Brasil, 1900 – 1973)

óleo sobre tela, 50 x 65 cm