Repetindo um texto meu de 2013

3 07 2023
Nós duas, Praia do Flamengo, Rio de Janeiro

 

 

Há datas que são indeléveis para cada um de nós.  O aniversário de minha mãe é uma delas, para mim.  Hoje ela faria 88 anos.   E é só agora, 6 anos após sua morte que começo a vê-la no espelho que me reflete pela manhã.  Sempre fomos muito diferentes, minha mãe e eu.  Física e emocionalmente.  Dois dias antes de seu falecimento, e após viver comigo e com meu marido pelos últimos cinco anos em que lutava contra doença incurável, minha mãe, num gesto de boa vontade, nos chamou para dizer: “sim, eu poderia ter vivido com vocês.”   Como se  até então não o tivesse feito.  Era uma admissão final de que havíamos encontrado uma área comum, uma faixa em que nossos comportamentos, por mais divergentes que fossem, haviam se mesclado e atingido uma zona de conforto.  Eu me surpreendi. Para mim nunca houve qualquer resistência em ter minha mãe comigo, muito pelo contrário, sempre gostei de sua companhia.  Era uma mulher inteligente, informada, sensível.  Só não aprovava grande parte do meu comportamento.  E porque saí de casa muito cedo, para ela, eu provavelmente parecia mais estranha do que realmente era.  Mesmo que tivesse vindo visitá-la nos últimos 20 anos antes do meu retorno oficial ao Brasil, por um mês, uma ou duas vezes por ano.  Ter morado no exterior e adquirido hábitos mais estrangeiros do que brasileiros certamente contribuiu para que ela sentisse um estranhamento que não era recíproco.

Enquanto ela era muito linda, com cabelos naturalmente negro-azulados, olhos verdes com uma estrela amarelo-dourada dentro deles e a pele branco-leite, um tipo comum na Europa do norte, principalmente na Irlanda; eu nasci de cabelos vermelhos cor de cenoura que, depois de caírem, viraram louros e mais tarde louro-escuro bem cor de chumbo; olhos azuis, pele muito clara,  mais para o dourado.   Enquanto nela, as cores lilás e tons frios de azul e rosa caíam bem; em  mim essas mesmas cores tornavam a pele amarelada; só os tons de terra, o verde-musgo, os beges, coral e marrons coloriam favoravelmente.  E, no entanto, hoje ao acordar e me olhar no espelho, com freqüência vejo minha mãe refletida,  a olhar-me de volta.  Temos algo em comum,  a idade anda nos fazendo semelhantes. O cabelo de repente é igual ao corte que ela usava?  Ou será que é a maneira como as rugas aparecem em volta dos olhos?  Temos a mesma boca, isso é verdade, larga, pronta para o riso, nós duas ríamos com facilidade. É de família.  Mamãe era mignon, ombros pequenos, mãos alongadas como as de sua mãe, unhas ovaladas.  Eu tenho as mãos de papai, largas e quadradas, ombros largos; e não demonstro fragilidade.  E, no entanto, sou eu a “manteiga derretida”, cujas lágrimas são incontroláveis quando me machucam emocionalmente. À moda inglesa, — que ela não era – mamãe conseguia manter o famoso “stiff upper lip” que me escapa.  Nas dores físicas fomos semelhantes, duras e sem choros.  Não sou ciumenta; não escondo o jogo; detesto manipulação emocional.  Não me incomodo com o que os outros pensam de mim; não faço grandes sacrifícios pela vaidade; não tenho medo de médico, de dentista e nunca vou a eles acompanhada.

Mamãe contava uma história que leu quando era criança na Revista Tico-tico.  Era sobre um menino pobre que vivia no andar térreo de um edifício e que tinha por vizinho de cima um menino rico.  Da janela o menino pobre via os papéis de bala coloridos que o menino rico jogava fora e para não se sentir mal, o menino pobre imaginava os papéis de bala serem borboletas, que voavam coloridas pelo jardim.  Essa historieta infantil descreve as diferenças entre mãe e filha.  Mamãe era uma sonhadora.  Seus pés finos e pequeninos  a mantinham levemente presa ao chão; eu por outro lado provavelmente teria colecionado os papéis coloridos do menino do andar de cima.  Tenho os pés quadrados, largos, romanos, que fazem meus sonhos serem bastante atados à realidade que me cerca.   Sou aventureira, flor selvagem, rústica; mamãe era flor de estufa, delicada e caprichosa.

Mas então o que herdei dela para que a veja a me olhar do outro lado do espelho?  Dela, herdei  a sensibilidade para as artes visuais; a curiosidade, a necessidade de estar em dia com as notícias;  herdei também a facilidade para línguas, a necessidade de viver em um ambiente belo e confortável; a  impaciência, o humor quase apalhaçado e a dificuldade de lidar com bebês.  Nós duas sempre preferimos as crianças quando elas já sabem falar.  E, no entanto, há horas em que sinto que um gesto meu é um eco dela; que uma observação que faço, ela teria feito; que o modo como ando na rua reflete o andar dela.  É,  por mais diferentes que tenhamos sido, a semente não cai nunca muito longe da árvore.  Feliz aniversário minha mãe.

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2013.

 

PS: Hoje seria o aniversário de minha mãe.  Ela completaria 98 anos.

 





Encontro carioca

1 06 2023
Encontro com a amiga e também escritora Lenah Oswaldo Cruz, em um café no Leblon, RJ.
 
Caso vocês não saibam, Lenah é autora de A voz do tempo, um livro absorvente. São memórias de suas angústias e incompreensão ainda menina, depois adolescente, e finalmente jovem mulher, para entender a paixão de Dora e Luiz, seus pais, paixão que se autodestruiu mas que gerou frutos fecundos.
 
Lenah tem sido também uma das maiores incentivadoras da minha escrita, tanto na poesia como sobre arte. Foi uma prazer imenso passar umas horinhas em sua companhia.




Um agradecimento…

11 05 2023

Fui inundada com comentários sobre o blog a partir do momento que mencionei os quinze anos de existência.  Fora os telefonemas (ainda bem a maioria se identificou através do Whatsapp) antes de ser cortado ou bloqueado por mim.  Fiquei verdadeiramente emocionada.  Muito obrigada.  Aqui, uma coletânea de alguns desses comentários.  Muitíssimo obrigada!

 

No BLOG

Rômulo, Parabéns por ser uma pessoa inspiradora e dedicada. É incentivador para todos. Sucesso sempre.

Luciana, Parabéns Peregrina Cultural! Eu como uma das cinco mil torço muito pelos seus próximos quinze anos e mais.

Sílvia, Gosto da leveza e da variedade de de suas postagens Parabéns

Sonia, Parabéns pelo brilhantismo de seu blog, seus clubes de leitura, suas resenhas, comentários. Sigo e aprecio muito. Parabéns.

Eduardo, Uma vez, eu li que o destino de todo bom blog é deixar de existir, encerrar suas atividades, precisamente por ter bom conteúdo. Isso em grande parte é verdade. Mas você “fugiu à regra”, Ladyce. Parabéns.

Liliane, Feliz tudo!

Nato, Parabéns, Ladyce!

Rose, Parabéns, Ladyce! Por tudo isto Vc é uma vencedora que muito admiro!

 

No FACEBOOK

Francisca, [Corações]

Regina, 15 anos ininterruptos num universo ultra diverso não é pra deixar passar. Tem meu respeito e meu aplauso, Ladyce.

Nilva, Parabéns, Sra. Peregrina Cultural pela obstinação, inclusive. Que venham outros 15, pelo menos!

Izabel, Que bom quando encontramos nosso caminho!

Hermes, Uau Ladyce West que legal. Parabéns pela energia, pelas reverberações, pelos ecos, pelas ressonâncias!

Dirlene, Mais uma sua importante faceta que chega a meu conhecimento. Parabéns e AVANTE, companheira de estudos.

Maria, Congrats!

Perla, parabéns e que venham mais 15 anos!

Marilda, Que maravilha, querida Ladyce!! Sua contribuição para nossa combalida cultura é importantíssima!! Longa vida à Peregrina Cultural e seu brilhante blog

Maria,  parabéns!

Natthalia, Linda Ladyce, você me inspira

Magali, Parabéns Ladyce que sua inspiração seja cada dia maior!

Vera, Parabéns

Ladyce, Você foi uma inovadora… sempre esteve à frente!!!

Maria, Você é exemplar!

Carmen, Parabéns

Esther, Parabéns querida mestra

Marly, Merece um bolo de aniversário, parabéns e os votos de que continue a nos guiar para vermos as belezas que posta de uma maneira quase sempre mais rica do que nosso olhar inicial!

Ronaldo, Parabéns, Ladyce querida!!! Belo projeto!

Maria Helena, Genial! Parabéns!

 

No WHATSAPP

Maria Eugênia, Parabéns querida amiga

Graça, Parabéns, parabéns

Elizabeth, A vida de todos ficou mais interessante vc acrescentando o interesse pela leitura. Parabéns pelo seu trabalho e incentivo.

Neusa, Parabéns pelo sucesso!

Fabiana, Querida Ladyce,  Parabéns ao Blog!!  Taurino como a Magali! Rsrs 

Lucia, Uau! Parabéns Peregrinacultural! Muito bom! Sempre passo lá; é um oásis  na internet … Uma história de  sucesso! 

Gisela, Parabéns pelo seu empenho e sucesso durante este tempo. Que vc comemore muitos anos a mais.

Camille, Parabens Ladyce! Mais de onze milhões e quatrocentas mil visitas!!!!!!! Tive que ler e reler esse número! Que incrivel! 🙂

Ana Maria, Ladyce, parabéns pelos 15 anos do Peregrinacultural, que o sucesso continue cada vez mais!

Lucia, Ladyce, acabei de ler o histórico da Peregrina Cultural…que trabalho sensacional que vc vem fazendo nesses últimos 15 anos!!!Parabéns, mil vezes parabéns!!!

Rosi, Ladyce, parabéns!!! Você é admirável, belíssimo trabalho!

Monica, Parabéns Ladyce, pelo trabalho sensacional 

Inez, Many congratulations, Ladyce!  Parabéns pelo seu blog que encanta tantos leitores e admiradores de arte!

N.B. Que bacana, Ladyce.  A primeira vez que vi seu nickname foi no Orkut ainda. Achei muito bonito, significativo. Parabéns por essa fidelidade a um objetivo. Que venham mais 15, 30 etc.

Sonia, Que beleza,Ladyce !!! Parabéns!!!

Sara,  Ladyce! Merecedora de muitas homenagens. Parabéns , mestre e amiga.

Angela, Parabéns Ladyce!!! Você é uma fonte de inspiração e um exemplo para todos nós!!

Alfredo, Querida peregrina Ladyce West! Ser peregrina não é para qq um. Ser peregrina significa buscar sempre o conhecimento aonde ele estiver, perto ou longe. Muitos peregrinos entendem que chegada a um território já significa sua fixação. Você Ladyce parece que já nasceu peregrina desde pequenininha. Uma honra ter você como um símbolo de garra sempre em busca da arte, do conhecimento e principalmente da solidariedade humana. Meus agradecimentos por tudo que você nos inspira.  Abraços afetuoso por sua peregrinação.

Luciana, Parabéns debutante! Muito sucesso sempre!!

Cláudia, Parabéns, Ladyce!  Manter essa atividade tão rica e com tamanha assiduidade não é fácil! Só mesmo com muito amor e dedicação!

Liliane, E foi através do blog q achei nossa joia rara Ladyce 

Marly, Comemoro o frescor que você imprime em cada vertente de seus múltiplos trabalhos!

Renata, Parabéns Laydce ! É muito bom saber que um trabalho deu certo e continua dando!

Helianete, Parabéns Ladyce! Sonhos concretizados é um privilégio de poucos. Que sua plataforma (não sei se é) continue a dar muitos frutos.

Célia, Parabéns Ladyce. E uma grande realização e motivos pra ser divulgado e apreciado. Gostei muito da sua peregrinação cultural. Vou divulgar para amigas que amam ler. Continue com esse lindo trabalho. Bjss

Nanda, Parabéns pelo trabalho, Ladyce!

Ana Lucia, Parabéns!!! Que venham muitos outros  “15 anos!!” Sucesso sempre!! Bjs

Murilo, Parabéns, Ladyce. Belíssima obra, sempre em construção! Vá em frente, você se realiza e todos gostam.





Lugares imaginários: Antares

11 05 2023
Antares, desenho de Érico Veríssimo.

Antares é o município criado por Érico Veríssimo para contar a história de Um incidente em Antares.   Localizada ao  noroeste do Rio Grande do Sul, no Brasil, sua população é de um pouco mais de vinte mil habitantes. Cidade próxima de São Borja, foi primeiro chamada de  Povinho de Caveira.  Ela conta com o alto rio Uruguai como meio de transporte e ligação com a Argentina.  Neste município duas famílias batalharam pelo poder: descendentes de Francisco Vacariano e Anacleto Campolargo.  Mas em 1925, com a visita do futuro ditador do país, Getúlio Vargas, os dois campos, graças às boas falas e promessas de futuro brilhante, Vargas  une as duas famílias para o bem do Rio Grande do Sul.

Acima, mapa desenhado pelo escritor localizando todos os pontos essenciais da cidade que ele documentava.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

10 05 2023

Natureza morta, 1962

Marysia Portinari (Brasil, 1937)

óleo sobre tela, 45 x 55 cm

 

 

 

 

Natureza Morta, 1997

Plínio César Livi Bernhardt (Brasil, 1927 — 2004)

óleo sobre tela, 33 x 46 cm





15 anos! FELIZ ANIVERSÁRIO!

8 05 2023
Festa de aniversário da Magali,  ilustração Maurício de Sousa.

 

 

Hoje a WordPress avisa: fazemos aniversário. Seria bom comemorarmos. Esta parceria dura quinze anos. Não sabia quando comecei o blog que viria a ser tão importante para mim, para professores, para escolas públicas através do Brasil, para quem quisesse aprender uma coisinha de cada vez.  Das crianças aos adultos, do contemporâneo ao resgate cultural Um detalhe por dia. Passo a passo lembramos do que já fomos, já fizemos e ainda somos.

Não imaginei que teria o grande número de seguidores,   nem a projeção que a Peregrina Cultural conseguiu. Hoje com um pouco mais de onze milhões e quatrocentas mil visitas únicas, ou seja ninguém foi contado mais de uma vez.

Para mim, é um hobby, um passatempo a que me dedico diariamente. Quase não estive ausente nestes anos. Pago à plataforma uma taxa anual para não ter anúncios. Não vendo nada. Mal anuncio meus cursos de história da arte, ou meus livros. Tenho direito a domínio próprio, mas ainda não tive a paciência de me embrenhar pelas escolhas digitais que terei que fazer.

Mantive a aparência por quinze anos. Comecei com um conteúdo um pouco diferente. Mas tudo muda. Mudei porque muitos outros brasileiros foram aos poucos preenchendo melhor do que eu poderia fazer alguns campos de interesse.

 

Mas o objetivo principal é mostrar a importância da leitura, das artes e da história.

Quero agradecer às cinco mil pessoas que recebem avisos diários sobre o blog e a todos que me visitam. É doce saber que há alguém, lá do outro lado da minha telinha, que liga para o que posto. É um prêmio!

 

Muito obrigada todos. Em frente por mais quinze anos? Será?  Vamos ver…

 

PS: O nome da Peregrina Cultural é Ladyce West,





Poesia moderna

6 05 2023




Outono: Friedrich Nietzsche

30 04 2023

Outono, 1877

James Jacques Joseph Tissot (França, 1836-1902)

óleo sobre tela, 216 x 108 cm

Museu de Belas Artes de Montréal

“Percebi que o outono é mais uma estação para a alma do que para a natureza.”

Friedrich Nietzsche





Para o Dia das Mães

30 04 2023




Todo mundo lê…

28 04 2023
Ilustração Louis Wain.