Autoria desconhecida.
Por mais conforto e carinho
numa gaiola dourada,
a ave não esquece o ninho
e a liberdade ceifada.
(Severino Campelo)
Autoria desconhecida.
Por mais conforto e carinho
numa gaiola dourada,
a ave não esquece o ninho
e a liberdade ceifada.
(Severino Campelo)
Ilustração de Anne Mortimer.
O meu gato é meu amigo…
Em casa, na falta dela,
assiste a T V comigo,
do futebol à novela.
(Dari Pereira)
Katie
Aldo Balding (GB, 1960)
óleo sobre tela, 70 x 50 cm
No ano passado, coloquei aqui no blog, a tradução de Bárbara Heliodora, do Soneto 18 de Shakespeare, um dos mais conhecidos mundialmente. Mas, há outras, muitas outras, e se compararmos podemos ver como a cada tradução o poema muda um tanto… São todas boas e traduzidas por conhecidos poetas, mas a dificuldade da tradução de poesias é evidente. Vejamos, por curiosidade o que acontece.
O soneto pode aparecer nesta forma 4-4-3-3 ou seguido. Optei por 4-4-3-3 para aumentar a legibilidade na tela.
ORIGINAL EM INGLÊS
Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm’d;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course, untrimm’d;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou ow’st;
Nor shall Death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st;
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-
NA TRADUÇÃO DE BÁRBARA HELIODORA (Brasil 1923 — 2015)
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÃO DE EMMANUEL SANTIAGO (Brasil, 1984)
Poderei comparar-te ao fulgor do verão?
Tu és tão mais amável e tão mais ameno:
A tormenta de maio a flor tolhe em botão
E o verão se consome num prazo pequeno.
Quando faz calor, o olho do céu nos fulmina,
Outras vezes oculta a dourada nudeza;
E, de tudo que é belo, a beleza declina
Por acaso ou por sua fugaz natureza.
Mas, sem fim, teu verão não conhece fastio,
Nem sequer perde o viço no curso das eras,
Nem a Morte te envolve em seu manto sombrio,
Pois no verso indelével o tempo superas:
…….. Enquanto homens houver, e olhos prontos a ver,
…….. Enquanto isto for lido, tu hás de viver.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÃO DE VASCO GRAÇA MOURA (Portugal, 1942 – 2014)
Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em Maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da Natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:
enquanto alguém respire ou possa ver
e viva isto e a ti faça viver.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÃO DE PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS (Brasil, 1919 – 1992)
A um dia de verão como hei de comparar-te?
Vencendo-o em equilíbrio, és sempre mais amável:
Em maio o vendaval ternos botões disparate,
E o estio se consome em prazo não durável;
Às vezes, muito quente, o olho do céu fulgura,
Outras vezes se ofuscava a sua tez dourada;
Decai da formosura, é certo, a formosura,
Pelo tempo ou o acaso enfim desadornada:
Mas teu verão é eterno, e não desmaiará,
Nem hás de a possessão perder de tuas galas;
Vagando em sua sombra o Fim não te verá,
Pois neste verso eterno ao tempo te igualas:
Enquanto o homem respire, e os olhos possam ver,
Meu canto existirá, e nele hás de viver.
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NA TRADUÇÃO DE CARLOS DE OLIVEIRA (Brasil/Portugal 1921 – 1981)
Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.
-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.
NA TRADUÇÂO DE GERALDO CARNEIRO (Brasil, 1952)
Te comparar com um dia de verão?
Tu és mais temperada e adorável.
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável.
O sol às vezes brilha com rigor,
Ou sua tez dourada é mais escura;
Toda beleza enfim perde o esplendor,
Por acaso ou descaso da Natura;
Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte rirá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
Enquanto alguém respire e veja e viva,
Viva este poema, e nele sobrevivas.
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NA TRADUÇÃO DE IVO BARROSO (Brasil, 1929)
Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
Enquanto houver viventes nesta lida,
Há-de viver meu verso e te dar vida.
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NA TRADUÇÃO DE THEREZA CHRISTINA ROQUE DA MOTTA (Brasil, 1957)
Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amenas
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:
Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;
Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:
Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto, e ele te fará viver.
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NA TRADUÇÃO DE JORGE WANDERLEY (Brasil, 1938 -1999)
Comparar-te com um dia de verão?
Tens mais doçura e mais amenidade:
Flores de maio, ao vento rude vão
Como o estio se vai, com brevidade:
O sol às vezes em calor se exalta
Ou tem a essência de ouro sem firmeza
E o que é formoso, à formosura falta,
Por sorte ou por mudar-se a natureza.
Mas teu verão eterno brilha a ver-te
Guardando o belo que em ti permanece.
Nem a morte rirá de ensombrecer-te,
Quando em verso imortal, no tempo cresces.
Enquanto o homem respire, o olhar aqueça,
Viva o meu verso e a vida te ofereça.
Ilustração, A. E. Marty
Meu lenço, na despedida,
tu não viste, em movimento:
lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento.
(Carlos Guimarães)
Ilustração Art Frahm
Zalina Rolim
É inteligente e graciosa;
Mais limpa, que ela, não há:
Focinhito cor-de-rosa,
E chama-se Resedá.
Muito orgulhosa e faceira,
Não quer saber da cozinha,
E, à sesta, sob a roseira,
Dorme um sono de rainha.
Gosta do sol, ama as flores,
Corre por todo o jardim,
E tem, no dorso, em três cores,
A maciez do cetim.
Em pequenino açafate,
Todo acolchoado e felpudo,
De vivo tom escarlate
Tem o berço de veludo.
É toda mimos da sorte,
Gatinha de estimação,
Defende-a, contra o mais forte,
Das patas vivo arranhão.
Mas é boazinha e correta;
Não provoca ásperos tratos;
Somente mostra-se inquieta,
Se escuta rumor de ratos.
Então – adeus, gentileza! –
É toda instinto animal,
De um salto, atira-se à presa…
E é como as outras, tal qual.
Largo de Santa Cecília, 1960
Durval Pereira (Brasil, 1918- 1984)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Ribeiro Couto
São Paulo da garoa intermitente,
Da penumbra que às vezes coadjuva
A nostalgia… — Quem, meu Deus, não sente
Um pouco desse ambiente… desta “Chuva”…
A chuva fina molha a paisagem lá fora,
O dia está cinzento e longo… um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora…
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.
Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta…
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
Se um de nós vai falar e recua depois.
Dentro de nós existe uma tarde mais fria…
Ah! para que falar? Como é suave, brando
O tormento de adivinhar — quem o faria?
As palavras que estão dentro de nós chorando…
Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando,
Chove dentro de nós… Chove melancolia…
Em: 232 Poetas Paulistas:antologia, ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 239-40.
Jangada do Ceará, 1988
Win Van Dijk (Holanda/Brasil, 1915-1990)
óleo sobre tela, 46 x 55 cm
Conversas de marinheiro
ouço nas conchas do mar.
São almas de jangadeiros
Que não puderam voltar.
(Hegel Pontes)
Paisagem
Leopoldo Gotuzzo (Brasil, 1887 – 1983)
óleo sobre tela, 61 x 46 cm
Sonia Carneiro Leão
Gotinha meiga e mansa
acaricia meu rosto,
descendo suave
a trilha da saudade.
Lá fora as rosas rosas
E os hibiscos dourados
saúdam o outono.
Negro curió entre os poleiros
saltita de júbilo e gorjeia,
mesmo nos confins
das grades da vida.
Só eu,
do outro lado das coisas,
choro.
Tornei-me o poro por onde passa,
no vazio de uma lágrima,
o peso de tua falta.
Sol na manhã enevoada, Beth Whitney, aquarela.
Nossa estrada, que era igual,
dividiu-se em dois caminhos:
eu, regando o roseiral,
você…contando os espinhos.
(Vanda Fagundes Queiroz)
Auto-retrato, Retratando o cotidiano em Vina-Lituânia, s/d
Lasar Segall (Lituânia/Brasil, 1889 – 1957)
óleo sobre papelão, 67 x 47 cm
Ladyce West
Na indolência de um domingo de verão,
quando o sol cerceia o movimento e o calor detém a brisa,
Quando o bafo quente das calçadas se ergue lento,
envolve o corpo e reprime pensamentos,
Quando a inércia paralisa insetos,
cala pássaros, esconde peixes,
No meio da tarde indiferente,
preguiçosa, frouxa e incandescente,
Um solitário acordeon se faz ouvir.
É gemido desditoso, lamento sofrido.
Queixume penoso.
No ar estagnado do bairro,
por entre casas sonolentas e mudas torres de igrejas,
por cima do asfalto amolecido das ruas,
mascarando o borbulhar do riacho,
vibram notas saudosas, melodias sofridas,
canções de outras eras, de outras terras.
Gemidas.
A nostalgia se espalha.
Manta transparente, que envolve.
Aderente.
Libação sonora, suadouro enlutado,
carpindo na tarde.
Canto solitário de imigrante europeu,
Chora a terra, a distância,
a perda do lugar em que nasceu.
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2019.