Natureza morta, 1988
Ingres Speltri (Brasil, 1940)
óleo sobre eucatex, 80 x 20 cm
Vaso com planta e maçãs,1996
Taia Aguiar (Brasil, contemporânea)
óleo sobre tela, 100 x 131 cm
Natureza morta, 1988
Ingres Speltri (Brasil, 1940)
óleo sobre eucatex, 80 x 20 cm
Vaso com planta e maçãs,1996
Taia Aguiar (Brasil, contemporânea)
óleo sobre tela, 100 x 131 cm
Um comodista sofrendo de gota: a dor é representada por um diabinho queimando o pé da vítima. Caricatura de G. Cruikshank, 1818. Litografia colorida.
“Não tenho visto meu amigo João Brandão nas livrarias nem nos teatros nem nos comícios nem nas maratonas. Que se passa com ele? Fui visitá-lo e encontrei-o de perna esticada, curtindo modesta variedade de gota — a gota dos pobres, disse-me ele.
— E como é a gota dos pobres?
— É a gota dos que não comeram nem beberam em excesso, não chafurdaram nos prazeres da mesa, e no entanto…
Não me pareceu deprimido, mas conformado. Tinha ao alcance da mão dois livros, e contou-me:
— O Álvaro esteve aqui com esses santos remédios. Recomendou que eu trocasse a colchicina por La goute et l’humour e Les goutteux célèbres. Tenho lido um pouco de cada um, e já posso mover com o dedão do pé direito, nesse lance simpático de separá-lo do dedo vizinho. Restabelecer a mobilidade dos dedos do pé, mesmo que não seja para andar, constitui um prazer de que a gente não se dá conta quando a máquina está em perfeito funcionamento, você sabia?
Eu não tinha reparado nisso, nos pequenos prazeres de pequenas partes do corpo desempenhando sem alarde suas funções rotineiras. E João continuou:
— A gente só lê coisas a respeito de uma doença quando ela nos pega pelo pé literalmente ou não. Aí começa a ler coisas desalentadoras que acabam tornando a doença mais pesada. O Álvarus teve a gentileza de me convidar a rir da minha gotinha, ou pelo menos a sorrir.
E folheando os volumes:
— Todo mundo diz que gota é doença de nobre, por ser de nobre e até de reis, como Carlos V, e Lupis XVI, mas eu posso orgulhar-me da companhia de nobrezas de outro tipo, a meu ver mais estimulantes e honrosas. Veja aqui: Chateaubriand e Lamartine eram gotosos. Montaigne também. E Leibnitz. E Cellini. E Rubens. A confraria é tão numerosa e brilhante que dá vontade de perguntar. E Dante também não era? Não está faltando Shakespeare nessa lista? Vai ver que se esqueceram de Homero… Me sinto muito reconfortado, palavra.
Antes que ele fizesse o elogio da gota, disse-lhe que não precisava exagerar….”
-.-.-.
Para o final da crônica, Gota, com humor, veja abaixo.
Em: Moça deitada na grama, Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, Record, 1987, pp: 131-132
Marinha
Herculano Campos (Brasil, 1912-1996)
óleo sobre tela, 60 x 81 cm
Marinha, 1977
Inimá de Paula (Brasil,1918-1999)
óleo sobre eucatex, 50 x 65 cm
Vaso de flores, 2011
Yara Tupynambá (Brasil, 1932)
acrílica sobre madeira 34 x 20 cm
Flores, 2012
Marcia Brener (Brasil, contemporânea)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Domingo na Urca, Rio de Janeiro, 2013
Mauro Ferreira (Brasil, 1958-2021)
óleo sobre madeira, 40 x 60 cm
Auto-retrato, 1965
Flávio de Carvalho (Brasil, 1899-1973)
óleo sobre tela, 90 cm x 67cm
Museu de Arte Moderna de São Paulo
Pescaria deliciosa, 1984
Azor Feres (Brasil, 1911-2005)
óleo sovre tela, 50 x 70 cm
“Domingo é dia de pescaria – mas, evidentemente, só para quem sabe pescar. E nem sempre o pescador, armado de anzol, e tendo ao lado uma latinha com iscas, pode desempenhar seu ofício em isolamento semelhante ao daquele colega que, sentado a uma mesa, se dedica a capturar, no improfundável rio da vida, os fugidios peixes do espírito.
O curioso aproxima-se do pescador acomodado sobre as pedras, procura inteirar-se do seu sucesso, faz-lhe perguntas sobre o mar que, cativo de uma enseada, é apenas prateado pedaço de si mesmo, como uma pétala é flor. O homem que se desfatigara no silêncio e na espera sente-se, por sua vez, como um peixe que no fundo das águas, resiste à investida de um anzol dotado de imperdoável engodo. Desejaria não ser agarrado, naquele momento, por voz nenhuma, não beber esse elixir de curiosidade, tédio e convivência que as criaturas servem umas às outras, quando conversam. Diz que o mar está parco, e mostra-lhe o que angariou: uma cocoroca, alguma finas piabinhas cor-de-chumbo, dois gordos peixes-porcos que agonizam estatelados dentro do vasilhame.
E, gratuitamente, ou porque se sentisse na obrigação de dar um esclarecimento suplementar, ou porque não desejasse que o interlocutor o comesse por estreante ou desafortunado, ajuntou:
— Domingo passado, o mar estava melhor.”
Em: Lêdo Ivo, seleção do autor, prefácio de Gilberto Mendonça Teles, São Paulo, Global: 2004, (Coleção Melhores Crônicas- direção de Edla van Steen, “Viagem em torno de uma cocoroca“, p. 133
NOTA: Lêdo Ivo (1924-2012) foi não só um grande poeta, mas um excelente cronista, e também romancista. Precisa ser mais lembrado. Uma das coisas que me encanta sobremaneira na sua prosa é a inteligente criação de palavras que eu imediatamente adiciono ao meu dicionário digital. Além disso aprecio a expansão dos significados que ele consegue dar a palavras já existentes, Nesses três parágrafos que introduzem a crônica “Viagem em torno de uma cocoroca“, vejamos as palavra inventadas: improfundável, desfatigara; a expansão do verbo comer [que o interlocutor o comesse por estreante], parco [Diz que o mar está parco], fora as maravilhosas figuras de linguagem [se dedica a capturar, no improfundável rio da vida, os fugidios peixes do espírito.]; [um anzol dotado de imperdoável engodo] engodo no lugar de isca. Seus textos são assim, riquíssimos de viradas de significados, inesperadamente poéticos. Vale lê-lo.
Camponês com carros de bois
Durval Pereira (Brasil, 1917-1984)
óleo sobre tela, 60 X 120 cm
Carro de bois, 1930
Oscar Pereira da Silva (Brasil, 1867-1939)
óleo sobre tela, 35 x 47 cm
Copos de leite, 1984
Carlos Scliar (Brasil, 1920-2001)
Vinil colado e encerado sobre tela, 56 x 37 cm
Jarro com flores, 1952
Arcangelo Ianelli (Brasil, 1922-2009)
óleo sobre tela, 72 x 60 cm