Palavras para lembrar — Voltaire

4 05 2012

O grande mistério das cores, 2008

Delphine Cossais (França, 1972)

Delphine Cossais

“Vamos ler e vamos dançar: dois passatempos que nunca trarão perigo para o mundo.”

Voltaire





Imagem de leitura — Georges Croegaert

2 05 2012

Lendo as notícias, s/d

Georges Croegaert (Bélgica, 1848-1923)

Óleo sobre madeira,  27 x 22cm

Leilão Bonhams

Georges Croegaert,  nasceu na Antuérpia na Bélgica em 1848. Estudou na Academia de Belas Artes e a partir de 1876 passou a exercer a sua profissão em Paris onde passou o resto de sua vida profissional. Sua especialidade consistiu em pequenos retratos femininos de estilo próprio à Belle èpoque e por muitas pinturas anticlericais que fizeram um gênero na época.  Expôs entre 1882 e 1914 no Salão de Paris e no estrangeiro.  Faleceu em Paris em 1923.





Formigas históricas, texto de Viriato Corrêa

2 05 2012

São Luiz do Maranhão, s/d

Fernado Castelo Branco (Brasil, contemporâneo)

Pintura

http://casteloartes.blogspot.com.br/

Formigas históricas

Viriato Corrêa

Naquele primeiro decênio do século XVIII os frades capuchinhos do Convento de Santo Antônio de S. Luiz do Maranhão estavam de um azar horrível.

A horta, a linda horta que cultivavam na gorda e vasta terra do quintal do convento, não dava positivamente nada. A couve era pouca para a sopa e os cozidos, o repolho não chegava sequer a arredondar, o cebolinho não medrava, a alface, o nabo, a bertalha — uma miséria.

E tudo isso por que? Porque as malditas saúvas, as infernais formigas, proliferavam assustadoramente por todos os cantos do terreno dos frades.

Era uma canseira aquilo. Quando a plantinha ia começando a viçar, quando os tomates, os pepinos, a alface, o coentro, a celga, tudo ia dando os primeiros sinais de vida, zás!  lá vinham as formigas e, numa noite, inutilizavam o trabalho de um mês inteiro. Um inferno.

O superior dos capuchinhos fez tudo que era humanamente possível fazer contra formigas: regos em roda dos canteiros de plantas, figi à boca dos buracos, água abundante na “panela mestra” dos formigueiros, mas tudo foi inútil. As formigas desapareciam por uns dias, por semanas, mas voltavam sempre, cada vez mais numerosas e cada vez mais daninhas.

Da horta já tinham passado para o pomar. As laranjeiras ficavam peladas de dia a dia, os tamarindeiros não tinham mais folhas, as jaqueiras já não vingavam uma carga. Um pavor!

Os frades reuniram-se, conferenciavam, tramavam, rezavam à beira dos formigueiros, mas tudo baldadamente. O demônio das formigas voltavam, voltavam sempre, às fieiras, aos milhões, destruindo e devastando.

Uma manhã o irmão dispenseiro acordou alarmando o convento.  Estava tudo perdido para a comunidade capucha de S. Luiz do Maranhão!  As formigas agora já se não satisfaziam com o pomar e a horta.  Tinham invadido (parecia incrível, mas tinham!) a despensa da ordem e estavam (que raios de formigas!) a furtar, rigorosamente a furtar, a farinha com que os frades faziam os seus ricos pirões!

Ilustração: desconheço a autoria.

A fradalhada pôs as mãos na cabeça.  Aquela perseguição dos diabólicos himenópteros iria até à destruição total da Ordem no Maranhão. Era o cerco com todos os característicos, era o assédio da fome.

E os frades vieram à despensa verificar o estrago.  Um deles solta um grito aterrador.  A desgraça não estava somente no furto da farinha: as formigas cavavam os seus buracos, afundavam as suas “panelas” debaixo dos alicerces do convento, e as paredes abaladas nos fundamentos, acabariam por vir abaixo, mais tempo menos tempo.

Aquilo era uma invasão de propriedade!  aquilo era o esbulho de um direito!  Para as situações extremas as extremas medidas.

E qual o remédio? Processar as formigas, e processá-las judicialmente. Talvez que a autoridade do juiz desse um remédio aquele abuso.

E os frades capuchos propuseram a ação no foro eclesiástico de S. Luiz. Quanto à data da propositura da demanda não há nenhuma segurança histórica. João Francisco Lisboa*, que teve o processo nas mãos e que dele tirou uma cópia, não lhe encontrou as primeiras folhas.

O processo segue a marcha regular dos processos comuns. Os frades oferecem a acusação e testemunham-na. São pobres, vivem de esmolas e estão sendo insistente e irremediavelmente lesados pelas formigas “animais de espírito contrário ao Evangelho”. As formigas não só os roubavam, tirando-lhes o pão da boca com a destruição da horta e do pomar e subtração da “farinha de pão guardada para o cotidiano abasto da Comunidade”**, como também os queriam expulsar de casa. E terminavam pedindo que fossem mortas as formigas.

O juiz nomeia um curador para as rés. Este, a 17 de janeiro de 1713, contradiz as testemunhas apresentadas pelos frades. As testemunhas são irmãos terceiros da Ordem de S. Francisco, ligados intimamente aos capuchinhos e, portanto, suspeitas de parcialidade.

A 24 do mesmo mês e do mesmo ano o juiz, o padre vigário geral, o licenciado José Teixeira de Morais, despreza os embargos de contradita oferecidos pelo procurador das formigas.

Antes, em dezembro do ano anterior, tinha havido a inquirição das rés.  Cinco testemunhas foram por elas apresentadas.  De uma delas conserva-se o nome – o capitão Urbano Rodrigues – que, no tempo, dizia ter 94 anos de idade. É uma testemunha a valer. Afirma que as formigas não podem ter malícia nenhuma no prejuízo que estão dando aos frades, pois que não há nelas o uso da razão, visto que são irracionais e, pelo que se sabe, os irracionais não conhecem a diferença do bem e do mal.  Afirma ainda que elas eram naturais da terra: sempre ali viveram, sempre se espalharam por todos aqueles lugares da cidade e dos matos e que (aí é que, segundo a gíria moderna, “matou os frades na cabeça”) quando os religiosos ali chegaram, já ali estavam as formigas.

Ilustração do livro “Palestina Pitoresca”, sem notação de autoria.

Começaram os debates escritos nos autos.  O procurador dos capuchos faz carga sobre as destruidoras dos haveres do convento; o procurador das rés defende-as rigorosamente.

A defesa citada pelo padre Manuel Bernardes é interessante. O Criador dera às formigas o benefício da vida, elas tinham portanto o direito de conservá-lo por aqueles meios que Deus lhes ensinara. Que na praxe e execução destes meios serviam ao Criador, dando aos homens os exemplos das virtudes que acautelando os futuros, e guardando para o tempo de necessidade: “Formicae populus infirmus qui proeparat in messe cibum sibi”.

E mais: que o trabalho que elas punham na sua obra era muito maior, respectivamente, que o dos frades em ajuntar, porque a carga era muitas vezes maior que o corpo, e o ânimo que as forças. Que, apesar dos frades serem mais nobres e dignos do que as rés (para os autores da ação este argumento devia ter sido decisivo) diante de Deus não passavam eles de miseráveis formigas. As rés não estavam a usurpar direitos: quando os capuchinhos ali chegaram, já elas ali viviam e que, portanto não deviam ser esbulhadas e, se isso fosse tentado,  “apelariam para a coroa a regalia do Criador que tanto fez os pequenos como os grandes, e a cada espécie deputou seu anjo conservados”.

E finalmente: a terra era de Deus e não deles, os frades.

Passam-se seis meses.  Há como uma pedra em cima da demanda.

As formigas, ao que parece, teimam em destruir os cebolinhos, os nabos e os repolhos dos frades. Eles continuam a ação. Recomeçam-na requerendo a reinstauração da instância perempta. O vigário forâneo, o licenciado Manuel Homem, defere-lhes o pedido.  Procede-se a diligência. A certidão, João Lisboa fez conhecida:

“ Eu, escrivão do eclesiástico, abaixo assinado, fui ao Convento de Santo Antônio dos Capuchos, e sendo lá na sua cerca, citei as formigas em sua própria pessoa por todo o conteúdo da petição e despacho acima, lendo-lhes tudo verbum ad verbum, havendo-lhes nesta forma a citação por feita, em fé do que passei a presente em S. Luiz 19 de junho de 1716 – Joseph Guntardo de Backmannz”.

Pelo que diz o padre Manuel Bernardes, a demanda foi até a sentença final. O juiz determinou que os frades sinalassem dentro da cerca do quintal do convento, um lugar para as formigas viverem e que estas, sob pena de excomunhão, não mudassem de vivenda, “visto que ambas as partes podiam ficar acomodadas sem mútuo prejuízo”.

“Lançada a sentença, é o autor da Nova Floresta quem escreve, foi o religioso, de mandado do juiz, intimar, em nome do Criador, aquele povo, em voz sensível, nas bocas dos formigueiros. Caso maravilhoso, e que mostra como se agradou deste requerimento aquele Supremo Senhor, de quem está escrito, que brinca com as suas criaturas: Ludens in orbe terrarum! Imediatamente: It nigrum campie agmen, saíram a toda pressa milhares daqueles animalejos, que formando longas e grossas fieiras, demandaram em direitura o sinalado campo, deixando as antigas moradas e, livres de sua molestíssima opressão, aqueles santos religiosos, que renderam a Deus as graças por tão admirável manifestação do seu poder de providência.”

Frade no jardim, gravura italiana 1416.

Nada disso é verdade.  A demanda das formigas não foi até a sentença final.

João Lisboa, que estudou o processo, afirma no Jornal de Timon que a questão  parou a 20 de junho de 1714, quando é nomeado o novo curador ad litem para as formigas. Parou no termo de vista dado ao procurador dos frades.

E há uma circunstância interessante para mostrar a falsidade das afirmações do grande estilista português.

Em 1714, nos autos da demanda das formigas, ainda se escreviam termos de vista às partes e, a Nova Floresta, onde vem a narração do feito, impressa em Lisboa de 1706, já conta da sentença final.

A demanda das formigas houve.  João Lisboa teve-lhe os papéis nas mãos cento e cinquenta anos depois.

Por onde eles andam agora é o que ninguém sabe.

Em 1860, mais ou menos, frei Vicente de Jesus deu-os de mimo a um particular.***

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*           João Lisboa — Jornal de Timon.

**         Padre manuel Bernardes — Nova Floresta.

***       João Lisboa — Obra citada.

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Em: Terra de Santa Cruz: contos e crônicas da História Brasileira, de Viriato Corrêa,  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira:1956





Palavras para lembrar — Sir Christopher Wren

1 05 2012

A leitora, 1960

Jean Cocteau (França, 1889-1963)

litografia policromada

 “Escolha um autor como você escolhe um amigo.”

Sir Christopher Wren





Palavras para lembrar — Charles W. Eliot

29 04 2012

Lendo juntas, s/d

Jan Pieter Frederik Portielje ( Bélgica, 1826-1895)

Óleo sobre tela, 63 x 81 cm

Christie’s NY 2005

“Os livros são os mais quietos e constantes amigos; eles são os mais accessíveis e os mais sábios conselheiros, e os mais pacientes dos professores”

Charles W. Eliot





Imagem de leitura — Didier Delamonica

28 04 2012

O livro e a rosa, 2010

Didier Delamonica (França, 1950)

www.bonzasheila.com

 

Didier Delamonica nasceu em Lille, na França em 1950.  Depois de estudar na École Nationale Supérieure des Arts et Industries Textiles, dedicou-se a duas carreiras simultaneamente, publicidade e pintura.   Tendo se estabelecido como pintor, abandonou a publicidade e hoje se dedica exclusivamente à pintura.





O medo do novo e o conhecimento: “O pintor de retratos” de Luiz Antonio de Assis Brasil

28 04 2012

A paisagem do fotógrafo, 2008

Michael Orwick (EUA, 1975)

óleo

http://michaelorwick.blogspot.com

O novo, o encontro com o desconhecido, sempre causa ansiedade.  O mundo é mais confortável, a vida é mais segura se sabemos o que nos espera, como agir e que reação ter em diferentes circunstâncias.  Assim como hoje debatemos o futuro do livro em papel por causa das publicações digitais, no século XIX, com o aparecimento da fotografia, os pintores, antes de descobrirem como essa nova tecnologia iria auxiliá-los, temeram por seu futuro profissional.  É nessa virada de tecnologia, quando a fotografia parece interferir com a pintura,  que se enraíza o romance O Pintor de Retratos, de Luiz Antonio de Assis Brasil, [LPM:2001/2005, 5ª edição].

Luiz Antonio de Assis Brasil sempre me cativa com sua linguagem despojada, quase seca, em que consegue em uma frase, não muito longa, passar um mundo de informações e capturar sentimentos.   Com excelente domínio da narrativa, com poucos traços e não mais que duas centenas de páginas, ele conta a vida inteira de um homem, um pintor de retratos, italiano, que confrontado com a fotografia, perde a noção que tem de si próprio.  Diante da devastadora imagem, cara a cara com aquele retrato de si mesmo, fotografado pelo grande Félix Nadar, nosso herói se desintegra emocionalmente e num momento de desvario, emigra para o Brasil, onde se estabelece na mais meridional das províncias, na terra das revoluções.  O Rio Grande de Sul o acolhe desconfiado, mas é lá que finalmente acredita renascer, crescer e finalmente apresentar a imagem exterior que, fotografada, mostraria ao mundo como ele é, ou o que ele pensa de si mesmo.   Se consegue ou não, o leitor só descobre no final, mas como toda boa história é o meio, é o processo que fascina.

Arraigado à pintura por tradição familiar, treino e medo da nova tecnologia, Sandro Lanari chega à letárgica Porto Alegre determinado a ganhar a vida como pintor e obcecado pela imagem de Sarah Bernhardt que viu em Paris fotografada por Nadar.   Quando consegue fixar sua atenção numa jovem que se parece com a atriz francesa, entreabre-se o caminho do crescimento, mas terá ainda muito chão a percorrer até se conciliar com a vida no Novo Mundo.  Só quando aceita trabalhar, vagando de estância em estância, retratando senhores da terra, começa sua verdadeira introdução à vida brasileira, ao novo continente e a si próprio.  Mergulha em um mundo tão diferente daquele em que foi criado que acaba por se despir dos conhecimentos profissionais, reconhecendo-os válidos exclusivamente para o solo europeu. Na água do banho vão também seus preconceitos.  A caminhada brasileira, por ironia do destino e pela própria sobrevivência, transforma-o em fotógrafo.

E vai ser como fotógrafo que conseguirá a essência do que desejava expressar em seu trabalho.  Num campo de batalha gaúcho, fotografando o lado vitorioso,  Sandro Lanari vence  uma batalha pessoal, consegue a expressão máxima de sua arte,  uma obra que o faz, finalmente, poder erguer a cabeça com orgulho: capturou o lampejo de vida nos olhos de quem fotografava.  Daí por diante, pazes feitas com a fotografia, tem sucesso garantido.  Torna-se um  respeitado membro da comunidade,  pai de quatro filhas, imigrante abastado.   Para ter certeza de seu sucesso, só lhe falta a última e única constatação de sua legítima identidade, uma nova visita a Félix Nadar.

Luiz Antonio de Assis Brasil

Com um final inesperado, O pintor de retratos nos faz refletir sobre a autoestima, a visão  que temos de nós mesmos, contrastada com a imagem que os outros têm de nós; sobre o preconceito e o medo do novo, do desconhecido; sobre a nossa própria aceitação.  Tudo isso colorido pela paisagem gaúcha de antanho, pelos costumes peculiares de época, com um sabor histórico na medida certa.  Uma leitura que nos enriquece e deleita.





Palavras para lembrar — Jorge Luis Borges

26 04 2012

Moça lendo na varanda, s/d

Carl Schmitz-Pleis (Alemanha, 1877-1843)

óleo sobre tela, 79 x 59 cm

“O livro é uma das possibilidades de felicidade de que dispomos.”

Jorge Luis Borges





“Um caso de verão” de Elin Hilderbrand: um mundo de transgressões

26 04 2012

Os valsistas, s/d

Jack Vettriano (Inglaterra, 1953)

Raramente escrevo sobre um livro sobre o qual me sinto tão ambivalente.  Mas há alguns aspectos em  Um caso de verão, de Elin Hilderbrand [Bertrand 2011] que superam as características de que não gosto: 1) parece ter sido escrito com a possibilidade de um filme no futuro, de fácil revisão para um roteiro cinematográfico; 2) há quase tantos diálogos quanto narrativa e frequentemente esses diálogos não trazem informações necessárias, estão ali para imprimir uma leveza, um ritmo de leitura considerado mais fácil;  3)  tem todo o jeito de livro de mulherzinha.  No entanto, suas qualidades superam as birras com que convivi durante a leitura, e por isso, me posiciono aqui para explicar.

É um livro que demonstra as diferenças entre o amor e a paixão: no que se baseiam esses sentimentos, como eles se expressam e o que eles nos fazem fazer.  Paixão e amor são contrastados do início ao fim do romance através de Claire, nossa heroína, o único personagem realmente tridimensional na história.  Não estamos falando simplesmente de uma paixão amorosa, mas paixão pela profissão, pela sua arte, paixão por aquilo que nos tira o sono e  ao que nos dedicamos sem contar horas ou esforço; paixão que leva ao descontrole sobre nossas ações ou emoções.  Como o título retrata, Claire, dona de casa, mãe de quatro filhos, artista de vidro, bem conceituada, com peças em importantes coleções e museus do país, bem casada e ainda enamorada de seu marido, tem um caso, desenvolve, inexplicavelmente, uma paixão por outro homem com quem mantém um relacionamento extraconjugal.

As razões para isso, ainda que não especificamente mencionadas, são pequenas e provavelmente teriam sido contornáveis se Claire não estivesse passando por um momento de grande fragilidade emocional por ser considerada, e se sentir,  culpada pelo nascimento prematuro do último filho, consequência atribuída ao excesso de trabalho.  Mas seu trabalho, sua vocação, era sua paixão e percebemos isso quando depois de meses sem entrar no ateliê  para fazer esculturas de vidro ela se aproxima dele com reverência e volúpia, passando horas desenhando e pensando nas possíveis soluções para a encomenda que recebera.  A justificada permissão para trabalhar vem como uma dádiva, das mãos de quem aprecia sua arte, de um colecionador de arte, e era uma obra beneficente.  Ele, um benfeitor, um mecenas.  Quem não sabe que amar o meu trabalho é me amar?  Quem resistiria à uma pequena transgressão?

Ao fundo, nos relacionamentos do dia a dia, nas viradas de sorte corriqueiras do cotidiano temos um mundo de outros personagens que, como Claire, são transgressores de grande ou pequeno porte:  perdem dinheiro no jogo, bebem, coletam uma pequena fortuna em roubos de colarinho branco; personagens que se revelam na inveja e na maledicência.  Quem merece ser punido?  E como?  Por que motivo?  O padre católico não é capaz de responder aos questionamentos de Claire…  E assim, essa mulher, que tenta manter simultaneamente uma família e uma profissão, procura um ponto de equilíbrio entre o que faz e aquilo que acredita ser correto, vivendo, por um ano, no olho do furacão, no eixo centrífugo de um território transgressor.

Elin Hilderbrand

Frágil, meio-morta, meio-viva, Claire necessitava de algo mais do que a sua família para se sentir satisfeita, bem consigo mesma e sem culpa pelo nascimento prematuro de seu bebê, sem essa mesma culpa que a impulsionou à transgressão.  Claire toma suas decisões no final do livro, mas fica evidente que ninguém tem a resposta certa e que essa vai depender de cada um.  Por esse questionamento, por essas posições, sim, esse romance cresce e ganha em impacto.

Este livro foi a escolha do meu grupo de leitura para o mês de maio.  Andávamos muito cansadas de sagas familiares, de ficção histórica, da Segunda Guerra Mundial, de antissemitismo, enfim de uma série de livros pesados, que nos pareciam todos variações sobre um mesmo tópico.  Um caso de verão foi escolhido para virar uma esquina, para dar uma mexida num caminho que parecia repleto de desgostos sem fim e, de fato, ele nos trouxe uma dinâmica diferente e válida, principalmente por trazer à tona aspectos psicológicos importantes com os quais convivemos diariamente.  É leitura boa, rápida e ideal para um bom fim de semana chuvoso.





Palavras para lembrar — Stéphane Mallarmé

25 04 2012

Louise Tiffany lendo, 1888

Louis Comfort Tiffany (EUA, 1848-1933)

[Filha do artista]

óleo sobre tela

Metropolitan Museu, Nova York

“Na leitura, um único e silencioso concerto nos é dado às nossas mentes; todas as nossas faculdade mentais estarão presentes nessa exaltação sinfônica”.

Stéphane Mallarmé