Leituras de 2022: Sete anos bons de Etgar Keret, resenha

16 02 2022

Retrato de minha mãe

Carlos Blanco (Espanha, 1983)

Sete anos bons de Etgar Keret, traduzido por Maira Parula, é uma aventura no cotidiano do autor que nos delicia com humor afiado e perfeito distanciamento crítico para enaltecer o contrassenso da vida diária. Nossa consciência dos disparates existenciais de Keret se aprimora quando somos testemunhas de que essas aventuras habituais se passam no contexto da vida ordinária em Israel. A possibilidade de guerra é real e ressaltada pelos frequentes e pequenos ataques. O despropósito de executar regras e corresponder a expectativas nessas circunstâncias é exacerbado e deveria surpreender qualquer ser pensante, mas até mesmo a absurdos todos nos acostumamos.  Etgar Keret toma para si a responsabilidade de mostrar ao seu leitor os disparates diários de nossas vidas quer em Israel, quer fora.

Além disso, com semelhante distanciamento e fina  ironia participamos das aventuras do escritor que, como participante de diversas rodas literárias focando suas publicações, encontra-se ora num ora noutro local do mundo, onde poucos têm noção,  sensibilidade, ou conhecimento da realidade e dos complexos sentimentos de um judeu fora do ninho.  Há também momentos de ternura principalmente quando Etgar Keret alude ou descreve sentimentos sobre seu filho ou pai.  Mas, os laços familiares podem ser também vistos com um olhar divertido, como em seu relacionamento com a irmã, casada com um judeu ortodoxo. Aí sentimos a aguçada crítica à incoerência de prescrições religiosas impostas na rotina diária. 

Melhor do que descrever seu estilo, será sem dúvida mostrá-lo nessa pequena passagem:

“Quando eu tinha 3 anos, tinha um irmão de 10 e torcia do fundo do meu coração, para ser igual a ele quando crescesse. Não que houvesse alguma chance. Meu irmão mais velho já havia pulado duas séries na escola e tinha uma compreensão invejável de tudo, de física atômica e programação de computadores ao alfabeto cirílico. Mais ou menos nessa época, meu irmão começou a ter uma séria preocupação comigo. Um artigo que leu no Haaretz dizia que os analfabetos são excluídos do mercado de trabalho e o incomodava muito que seu irmão de 3 anos viesse a ter dificuldade para encontrar emprego.  Assim começou a me ensinar a ler e escrever com uma técnica singular que chamava de “método do chiclete”. Funcionava da seguinte maneira: meu irmão apontava uma palavra que eu tinha de ler em voz alta. Se eu lesse corretamente, ele me dava um pedaço de chiclete não mastigado. Se cometesse um erro, ele grudava o chiclete que mascava no meu cabelo. O método funcionou como mágica e, aos 4 anos, eu era a única criança na creche que sabia ler.” [73]

Etgar Keret

Há tempos que não lia algo tão leve.  Todas as noites antes de dormir li uma de suas crônicas, podendo me recolher em excelente estado de espírito.  Levei um mês para cobrir as trinta e poucas crônicas do livro. Divertido com um humor diferenciado, irônico, Keret lembrou-me muito do prazer de ler crônicas, relatos do dia a dia, sob o ponto de vista do absurdo.  Sete anos bons foi minha apresentação a estas crônicas de fino humor.  Recomendo a leitura. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

16 02 2022
Takaoka - Natureza Morta

Natureza morta, 1940

Yoshiya Takaoka, (Japão-Brasil, 1909-1978)

óleo sobre tela,  62 x 77 cm





Nossas cidades: Niterói

15 02 2022

Igreja do Saco de São Francisco

Diógenes Sodré (Brasil)

óleo sobre madeira, 41 x 32 cm





Curiosidade literária

14 02 2022

Moça lendo

Richard Edward Miller (EUA, 1875-1943)

óleo sobre tela

Bronxville Public Library, Bronxville, NY

Enquanto escrevia Notre-Dame de Paris, Vítor Hugo desenvolveu um método de trabalho bastante excêntrico.  Ele retirava todas as roupas e as guardava num armário.  O objetivo era evitar quebrar sua concentração e não sucumbir à tentação de ingressar no mundo fora de casa.  Nu, ele se sentia obrigado a ficar sentado escrevendo sua obra-prima.

 





Domingo, um passeio no campo!

13 02 2022

Fazenda

Riokai Ohashi (Japão, 1895-1943)

óleo sobre cartão colado em placa, 31 x 40 cm





Eu, pintora: Maggie Laubser

12 02 2022

Autorretrato, 1928

Maria Magdalena (Maggie) Laubser (África do Sul, 1886-1973)

óleo sobre tela, 47 x 33 cm

Sanlam Art Collection, África do Sul

 





Flores para um sábado perfeito!

12 02 2022

Papoulas, 1946

Leopoldo Gotuzzo (Brasil, 1887-1983)

Óleo sobre tela,  64 x 80 cm





Rio de Janeiro, Rj, Brasil

11 02 2022

Paisagem de Santa Tereza – Rio de Janeiro, 1978

Joaquim Tenreiro (Portugal/Brasil, 1906-19920

óleo sobre tela, 27 x 35 cm





Dois escritores bretões: Renan e Chateaubriand, Afonso Arinos de Melo Franco

10 02 2022

A leitora

Jean-Louis Mendrisse (França, 1955)

óleo sobre tela

 

 

“Curioso contraste o que separa os dois heróis literários da Bretanha, Renan e Chateauberiand! O primeiro, exibindo uma descrença levada quase à volúpia, era, no fundo, um crente — mais que isso, um crédulo — nas pretendidas verdades da razão e da precária ciência do século XIX. Sua obra confiantemente afirmativa (embora animada do mais soberano espírito negativista) está hoje muito retificada, muito desautorada pelos modernos estudos de História e de Filologia.  Nos seus solenes volumes, que eram o orgulho de nossos avós, há muito bagaço, muita sugestão aventurosa, muita improvisação. Fica, é claro, o escritor, grande e sofrido, que respeito, embora não o ame especialmente.  Fatiga-me a sua solenidade arredondada e fria; parnasianismo da prosa. De qualquer forma, o papa do agnosticismo dispunha de uma espécie de sólida fé negativa. Chateaubriand, ao contrário, homem de crença profunda, foi sempre atraído pelo assombramento do nada, a obsessão do esvaimento constante de tudo, pelo silêncio vertiginoso do Tempo. Lembro especialmente duas passagens das Memórias em que essa consciência da inutilidade da vida é quase fisicamente dolorosa: a evocação dos reis de França sepultados em Saint-Denis, e a descrição do enterro de Lafayette, passando pelos boulevards parisienses. São duas páginas em que o desespero do nada, que é a vida, domina inteiramente o fervor do crente. Chateaubriand é o anti-Renan; é o crente angustiado pela dúvida, enquanto o outro é o descrente convencido das verdades racionais. O crente, procura sofrendo; o descrente pensa que tudo encontrou.”

 

 

Em: A alma do tempo: memórias, Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro, editora José Olympio: 1979, volume II, páginas 428-9.

 





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

9 02 2022

Composição com frutas da série ‘Oferendas’, 2007

José Guyer Salles (Brasil, 1942)

aquarela sobre papel, 55 x 65 cm