“Bosquejo” poesia de Raimundo Correia

27 04 2020

 

 

Eduardo Feitosa, (Brasil, Sb do campo, 1957)mãe e filha, ostMãe e filha lendo

Eduardo Feitosa (Brasil, 1957)

óleo sobre tela

 

 

Bosquejo

 

Raimundo Correia

 

Repica o sino na matriz da vila,

Como um dia de gala…

São dez horas somente; o sol rutila,

Faísca o espelho de cristal na sala.

 

A pêndula palpita,

Compassada e monótona;  singelo,

Numa gaiola, elétrico saltita

Um canário amarelo.

 

São dez horas; erguidas

As persianas deixam ver, distantes,

Das árvore floridas

As frondes verdejantes.

 

Sutil essência de magnólia e rosa

Repassa o ambiente,,,  e a mãe a ler ensina,

Sorrindo  carinhosa,

A loura filha,  ingênua e pequenina.

 

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 24.

 

 





Imagem de leitura — Roderic O’Conor

27 04 2020

 

 

Roderic_o_conor (1860-1940) g,1915, ostUma leitura silenciosa, 1915

Roderic O’Conor (Irlanda, 1860-1940)

óleo sobre tela





“Os irmãos”, texto de José Luís Peixoto

23 04 2020

 

 

 

emilio grau sala (1911-1975)senhora lendo o jornal ost, 60 x 72, christies 3Senhora lendo jornal

Emilio Grau Sala (Espanha, 1911 – 1975)

óleo sobre tela, 60 x 72 cm

 

 

“À direita do velho Gabriel, com os olhares paralelos, presos em pontos abstractos e desfocados, estavam os irmãos. Os seu olhares eram iguais, mas não viam o mesmo. Eram o mesmo olhar a ver duas coisas. Durante os meses em que estava parado, era, os irmãos que tomavam conta do lagar. Sempre juntos, sempre um ao lado do outro, envelheceram ao mesmo tempo: tinham a mesma curva nas costas, o mesmo andar pouco ligeiro e, sem que o soubessem, o mesmo número exacto de cabelos brancos na cabeça. Já tinham passado muito mais de setenta anos da manhã de agosto em que, ao mesmo tempo, nasceram, rasgando a mãe por dentro à sua passagem. Contavam os mais velhos, que tinham ouvido dos seus pais, que, assim que lhes cortaram os cordões umbilicais, a mãe os olhou e viu ainda que eram siameses. Morreu alguns minutos depois, sem dizer uma palavra. O seu enterro foi seguido por toda a vila e sentido como uma tragédia entre as maiores. Todas as pessoas da vila davam os pêsames ao pai dos irmãos, pela esposa e pelos filhos, pois todos cuidaram que crianças assim não medravam. Mas, no momento em que a mãe era enterrada, os meninos dormiam sobre três cobertores dobrados, no quarto do pai, ao lado da cama onde a mãe se esvaíra em sangue. De pele muito enrugada, os meninos dormiam , com as mãos que tinham unidas levantadas sobre o lençol que os cobria, como num orgulho inocente de serem irmãos. E, sob o olhar preocupado das pessoas, cresceram como crescem as crianças. Com os anos, muitos lhes quiseram analisar as mãos e todos se arrepiavam com o que viam: a mão direita de um e a mão esquerda do outro estavam unidas pelo dedo mindinho. Tinham as mãos muito elegantes, finas, dedos longos, mas a partir da última norça do mindinho, os seus dedos fundiam-se e terminavam numa só unha. Todos os que viam isto inventavam maneiras de os separar, mas o mais insistente foi o homem de arrancar dentes com o alicate. Inflamado, dizia conhecer homens que tinham cortado muitas pernas e muitos braços na guerra, e que tinha lido muitos livros com desenhos mesmo, e que cortar um dedo a uma criança é mais fácil do que podar uma  parreira. E o pai dos irmãos perguntou-lhe e como é que eu decido qual deles é que fica sem dedo? E o homem de arrancar dentes com um alicate, imediato, respondeu já tinha pensado nisso, o mais justo é cortar o dedo aos dois. O pai dos irmãos olhou-o por um instante e não voltou a falar com ele. ”

 

Em:  Nenhum olhar, José Luís Peixoto, Dublinense: 2018, páginas 17 e 18.





Resenha: “A vida pela frente” de Émile Ajar

21 04 2020

 

 

 

Adam Clague Moça lendo, ost. 32 x 30 cmMoça lendo

Adam Clague ( EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 59 x 30 cm

 

 

Alguns amigos perguntaram porque dei três estrelas de cinco para A vida pela frente, de Émile Ajar,  tradução  de  André  Telles,  originalmente publicado em 1975, e ganhador do Prix Goncourt.  A surpresa vem pelas muitas de resenhas superlativas desta obra.   Há também um grande trabalho de marketing,  desde seu lançamento em 2019.  Aqui no Rio de Janeiro, a maioria das livrarias físicas tem este livro empilhado na primeira bancada, e  compras via internet sempre trazem este livro como opção para suas compras,  na primeira página.

Há uma  incompatibilidade de gênios  entre a obra e a leitora.  A vida pela frente é sentimental,  idealista  e parece acreditar num mundo muito mais perfeito do que imagino possível.  Parece  estranho dizer isso quando se trata da história de um menino árabe, muito pobre, criado por uma cafetina judia,  num  bairro de prostituição em Paris e trabalhar temas da eutanásia ao aborto, exploração dos seres humanos, discriminação, injustiça social, violência. Incongruente, você poderá achar. Mas não é.

 

A_VIDA_PELA_FRENTE_1566 VERA

 

Somos apresentados a esse mundo através de um menino que talvez tenha dez a onze anos, que não sabe ao certo quando nasceu.  A voz é de espanto, delicada e tem a intenção de nos seduzir por sua inocência.  Infelizmente para a narrativa logo no primeiro capítulo ele pergunta: “– Seu Hamil, é possível viver sem amor?”  Congelei.  Estava frente à  chave de abertura de mundo paralelo. Entrava num texto próprio  para um filme de Walt Disney, com a  necessidade de explorar escandalosamente meus mais finos sentimentos.  Já sabia estar na companhia de um menino carente e agora ele iria me ensinar as coisas importantes da vida.  Não, não faz sentido. Não me agrada ser sensibilizada dessa maneira, manipulada, só faltava ouvir os violinos ao fundo tocando uma canção suave.

Mas continuei a leitura.  Dois de meus grupos de leitura haviam independentemente escolhido este livro para discussão.  Eu tinha que chegar ao fim.  O que veio foi previsível.  Um texto para nos mostrar valores essenciais  para a humanidade.  Romance de formação?  Não vejo assim.  Romance com a intenção de formar, moralizar o leitor.  Já saí da escola há tempos, minha formação já está sedimentada. Não preciso disso.

 

emile ajarÉmile Ajar, pseudônimo de Romain Gary

 

Não gosto de histórias moralizantes. Histórias que querem abertamente me fazer engolir valores,  ensinamentos, frases bonitas, nada mais que revestidos lugares comuns, feitos para sensibilizar o leitor às platitudes insensatamente repetidas na modernidade como se fossem profundas conclusões sobre o ser humano: a necessidade de amarmos uns aos outros, a sobrevivência pela solidariedade; necessária coragem para a vida no âmbito marginalizado.  Sinto muito.  Isso não é profundidade de texto.  Mostre-me.  Não me guie.

Textos como este lembram-me do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry,  que não passam de uma visão romântica do comportamento que devemos ter com os outros, conosco mesmo, mas a nível superficial.  São bonitinhos.  Pretendem profundidade. Pretendem posições filosóficas. Pretendem enunciar verdades, “para um mundo moderno que perdeu seus valores”.  Não acho isso.  Não tenho essa visão.  É um livro pretensioso. Não é para mim.  Há muito passei  da  fase  de achar que frases bonitas refletem profundidade.

Quanto mais escrevo, mais sinto vontade de diminuir o número de estrelas que dei. Não  recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Minutos de sabedoria: Augusto Cury

20 04 2020

 

 

Dana Krinsky, (Israel) Inverno, ost, 50 x 60cmInverno

Dana Krinsky (Israel, 1969)

óleo sobre tela, 50 x 60cm

 

 

“Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam suas mãos para cultivá-las.”

 

Augusto Cury

 

 

Augusto_Cury,_escritor_(28339139296)Augusto Cury




Imagem de leitura — Leonid Pasternak

18 04 2020

 

 

 

The Night before the Exam, Leonid Pasternak , 1895. Collection Musée d'OrsayA noite antes das provas, 1895

Leonid Osipovich Pasternak (Rússia, 1862-1945)

óleo sobre  tela

Musée d’Orsay, Paris





Livros de ficção em que o tema é arte, uma lista para tempos de ficar em casa

13 04 2020

 

 

 

Michael Van Alphen (1840-) Senhora lendo na sala de quadros, 1870, 46 x 39 cmSenhora lendo na sala de quadros, 1870

Michael Van Alphen (1840-)

óleo sobre tela, 46 x 39 cm

 

A revista da casa de leilões Christie’s sugere uma lista de leituras, romances em que a arte faz parte do tema.  Caso o assunto lhe interesse, aqui vai a lista do que foi publicado no Brasil.

1 — O livro das evidências,  John Banville

2 — O pintassilgo, Donna Tart

3 — Moça com brinco de pérola, Tracy Chevalier

4 — A improbabilidade do amor, Hannah Rothschild

Dos dez livros mencionados só estes quatro acima aparecem com traduções para o português e estão atualmente no mercado brasileiro.  Os outros seis listo abaixo em inglês.

5 — What’s Bred in the Bone,  Robertson Davies

6 — The Vivisector, Patrick White

7 —  Bedlam,  Jennifer Higgie

8 — The Burnt Orange Heresy, Charles Willeford

9 — Warpaint, Alicia Foster

10  — Headlong,  Michael Frayn

Boas leituras nesse tempo de afastamento social.





Lista de leituras para conforto nas horas de distanciamento social

13 04 2020

 

 

 

Bratby, John Randall (UK,1928-1992) Jean reading, c.1954, ostJean lendo, c.1954

John Randall Bratby (Grã-Bretanha, 1928-1992)

óleo sobre tela

 

No início de abril, o jornal britânico The Guardian publicou uma lista de leituras para tempos difíceis. Vários autores, escolhidos pelo jornal, sugeriram uma leitura.

Curtis Sittenfeld sugeriu contos de Alice Munro. No Brasil há alguns de seus livros publicados.  Nas livrarias encontramos: As luas de Júpiter, Editora Azul, 2018; Falsos segredos, Editora Azul, 2015m

Sebastian Barry sugeriu o sempre moderno Meditações de Marco Aurélio, nas bancas na edição da Edipro, 2019

Evie Wyld sugeriu qualquer livro de Chuck Palahniuk, ainda que prefira Sobrevivente, que no Brasil está fora de catálogo, só podendo ser encontrado em sebos.

Tayari Jones  lembrou-se de A cor púrpura de Alice Walker que no Brasil está na 10ª edição, publicado pela José Olympio em 2009.

Cólm Tóibín diz que Vitória, de Joseph Conrad, no Brasil publicado em 2010, pela Revan e fora de catálogo, seria a leitura perfeita para os dias de hoje.

Guy Gunaratne considera a leitura de Cem anos de Solidão do autor colombiano Gabriel Garcia Marquez,  no Brasil publicada pelo Record e sempre em catálogo.

Kamila Shamsie se volta para a obra prima de Italo Calvino, As cidades invisíveis publicada pela Cia das Letras e sempre em catálogo.

Mathew Kneale escolheu coleções de contos de Sherlock Holmes, que também encontramos no Brasil em diversas edições.

Todos são excelentes sugestões de leitura para hoje ou sempre.





Lembrando Neruda para nossos tempos

9 04 2020

 

 

Françoise Gilot (França, 1921) The red vest, 1955O colete vermelho, 1955

Françoise Gilot (França, 1921)

 

De tudo isso, amigos, surge uma lição que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. To­dos os caminhos levam ao mesmo ponto: a comunicação daquilo que somos. E é preciso atravessar a solidão e a aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico no qual podemos dançar torpemente ou cantar com melancolia: mas nesta dança ou nesta canção estão consumados os mais antigos ritos da consciência, da consciência de ser homens e de crer num destino comum.

 

Em: Discurso de Pablo Neruda ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, 1971

 

 





Imagem de leitura — Peter Samuelson

9 04 2020

 

 

 

Peter Samuelson, Michael Rothwell and Bridget in the garden with my dog Muffin at Phillimore Gardens, Kensington. Oil on board, 63 x 92cmMichael Rothwell e Bridget no jardim com meu cachorro, Muffin nos Jardins Phillimore, em  Kensington

Peter Samuelson (Grã-Bretanha, 1912 – 1996)

óleo sobre placa, 63 x 92cm