Sublinhando…

22 09 2022

Retrato duplo do ator Emil Poulsen e sua esposa, 1885

Peder Severin Krøyer (Noruega-Dinamarca, 1851-1909)

pastel sobre papel, 57 x 69 cm

Nivagaards Museu,Dinamarca

 

“Os livros nos fazem viajar no tempo. Todos os leitores de verdade sabem disso. Mas os livros não nos levam para o momento em que foram escritos. Eles nos fazem lembrar de nós mesmos em outra época.”

 

Em: Oito assassinatos perfeitos, Peter Swanson,tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, São Paulo, Jangada: 2022





Leituras de 2022: “Oito assassinatos perfeitos”, Peter Swanson, resenha

19 09 2022

Notícias parisienses, 2021

Anna Reznikova (Chipre, contemporânea)

óleo sobre tela, 60 x 50 cm

 

Nada como um fim de semana de molho para lermos um livro de mistério,  Foi assim que comecei Oito assassinatos perfeitos, de Peter Swanson, com tradução de Thereza Christina Rocque da Motta.  A premissa, pela contracapa, me pareceu fascinante.  Abrimos a leitura com um livreiro, em Boston, trabalhando na livraria, Old Devils, habitada permanentemente por um bichano, chamado Nero.  O lugar se especializa em livros de mistério. Quanto charme nessa ambientação!  Além do mais é inverno, a neve se amontoa nas calçadas, talvez ninguém venha comprar livros.  Um dos donos, está prestes a fechar a porta, certo de que necessitava chegar em casa antes do tempo tornar a cidade caótica, quando uma agente do FBI chega querendo conversar com ele sobre uma série de crimes na Nova Inglaterra.  A agente desenvolveu uma teoria e deseja consultar Malcolm Kershaw (Mal) que conhece muito dos livros de mistério: parece que a série de crimes, que ela investiga,  possa estar ligada à literatura deste gênero.

Tudo indica que Mal, poderia ajudá-la.  Mas já no segundo capítulo, para quem está familiarizado com livros de Agatha Christie, Simenon e outros do gênero, um alerta soa e já se imagina boa parte do quebra-cabeças.  Mesmo assim, a leitura é interessante e fácil.  No desenrolar dos primeiros dez capítulos listas de livros de mistério com suas respectivas soluções aparecem.  Por que?  Porque aparentemente esses livros poderiam oferecer pistas sobre os assassinatos investigados.

 

Achei a ideia do autor sensacional.  Mas a resolução ficou aquém do esperado. A procura pelo criminoso em  série é interessante e sim, há reviravoltas, surpresas, viradas, que prendem a atenção do leitor.  Mas nos últimos dez capítulos, ou seja durante a resolução do caso, no auge do dilema vivenciado pelos leitores e principalmente nos últimos dois capítulos o leitor acaba confuso, tendo que voltar atrás para tentar compreender o que aconteceu.  Essa falta de clareza poderia ser melhor explorada, mesmo que fosse em parte o objetivo do autor confundir o leitor.  Isso leva a um desconcerto com a solução das intrigas e frustração com a leitura.  Em outras palavras:  poderia ter um final mais caprichado.

Peter Sawanson

Outro ponto que gostaria de levantar é a falta de ambientação, além do mínimo. Quando a ação acontece em  Boston, como é o caso, o leitor pode já  ter uma imagem da cidade.  Mas faltou à narrativa pequenos  detalhes que melhor caracterizariam o local.  Um monte de neve e uma livraria, não é ambientação suficiente.  Não teria sido muito trabalhoso adicionar às descrições aqueles detalhes que retratassem melhor aquela alma urbana: a aparência das casas no centro da cidade, os cheiros dos bares de Faneuil Hall, por exemplo, algo que ajudasse o leitor a imaginar por detalhes fornecidos a ele, o que é estar naquele lugar.  Ambientação com referência aos cinco sentidos é encontrada na maior parte dos livros de mistério, pelos menos nos clássicos, que muitas vezes se passam em ambientes exóticos ou desconhecidos do leitor.

Com esses senões fica difícil dar a nota máxima à essa procura por um criminoso em série. Aqui vão três de cinco estrelas. 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Curiosidade Literária

19 09 2022

Menino, 1900

Felix-Joseph Barrias (França, 1822-1907)

óleo sobre tela,46 x 38 cm

 

La Fontaine, mais conhecido por nós aqui no Brasil como autor de Fábulas em verso, aos vinte e dois anos de idade ainda não tinha ideia de que profissão seguir, ou a que se dedicar na vida. Um dia, por acaso, ouviu alguns versos de Malherbe.  Teve, então, o impulso de comprar um volume poesias desse autor.  Essa decisão iria mudar o curso de sua vida.  La Fontaine ficou tão impressionado com a obra, que passou noites em claro, memorizando alguns poemas. De dia ia a um bosque perto de casa para às escondidas recitar o que decorara em voz alta.  Nascia o poeta…

 

Fonte: Disraeli





Leituras de 2022: “O pianista da estação”, de Jean-Baptiste Andrea, resenha

17 09 2022

A volta

Jasmine Saintonge (Canadá, contemporânea)

óleo sobre tela, 119 x 76 cm

O pianista da estação ganhou o Gande Prêmio RTL-Lire 2021 [RTL: rede de televisão francesa e Revista Lire].  Este prêmio difere dos outros do país; é dado pelo público: cem leitores escolhidos cada qual por diferentes livreiros, votam na obra vencedora.  Um dos requerimentos entre os competidores  é que sejam autores que não precisam de maior reconhecimento.  Não ficou claro as coordenadas desta última categoria.  Procurei saber sobre essa distinção após a leitura do livro, já que minha opinião contrasta tanto com o galardão concedido.

Trata-se da história de um homem, Joseph Marty, de sessenta e nove anos, que passa a vida tocando pianos públicos em estações de trem, metrô, aeroportos, lugares de passagem. Nômade, sempre em movimento, como se sua própria vida fosse um interminável e contínuo rondó. Qual seria o motivo? Para descobrirmos as razões visitamos o passado do pianista, órfão de ambos os pais aos quinze anos.  Segue-se então mais uma história de órfãos que são  maltratados nos orfanatos, sofrendo física e emocionalmente.  Reconheço que neste momento, tive que decidir se continuaria ou não a leitura. 

Fui leitora assídua minha vida inteira.  Desde os seis anos de idade ler foi meu maior e constante entretenimento.  Criança, adolescente, adulta,  morando aqui no Brasil, e em diferentes países, li.  Como consequência o número de histórias de órfãos que li é incontável da Cinderela à Pequena órfã Annie, de Oliver Twist e David Coperfield a Jane Eyre, Harry Potter, Poliana e outras dezenas mais de clássicos da literatura mundial. As histórias de órfãos têm, comumente, o sofrimento da criança ou adolescente em  primeiro plano.  E o tema logo me pareceu batido, cansativo e não tive curiosidade de ir em frente. Li, o livro inteiro porque foi selecionado pelos leitores de um grupo de leitura a que pertenço.  E usei de muitos subterfúgios para manter meu interesse.  Procurei por orfanatos nos Pirineus, onde a trama se desenrola, viajei via internet por diversos internatos já fechados na área.  A história começa em 1969;  procurei por fotos de  cidades dos Pirineus da década de sessenta.  Enfim, fiz o que pude para manter meu interesse neste livro.

A prosa de Jean-Baptiste Andrea, com tradução de Júlia da Rocha Simões, é suave, competente.  Há bons momentos e posto abaixo passagens me pareceram interessantes. Foram quatorze marcações.

O velho Rothenberg me dava aulas de piano. Ele era mais enrugado que papel amassado – rosto, pescoço e mãos num vertiginoso braille de rugas. Eu queria passá-lo a ferro a cada vez que o via. Mas quando ele tocava. Quando ele tocava, reis magos pegavam a estrada. Princesas exóticas e longínquas eram tomadas de languidez em seus palácios de areia. Até a sra. Rothenberg, uma sombra murcha que cheirava a pétalas e naftalina, voltava a ser a rainha do verão que ele havia seduzido, sessenta anos antes, sob uma nogueira em flor.”

“O ódio, como a oração, se alimenta de silêncio.”

Jean-Baptiste Andrea

 

Tenho outro senão: Joseph Marty passa muito tempo sem tocar piano.  Como, sem  treino algum, sem qualquer dedicação de horas diárias de ensaio, ele consegue tocar com tanta perfeição?  Quem é capaz de pegar e largar qualquer instrumento musical, e fazer uma performance como se  tempo algum houvesse passado?

Este livro não me tocou.  Não me emocionou.  Não é ruim.  Tenho certeza de que muitos leitores não foram expostos a tantos personagens órfãos.  De fato, interessante notar que hoje há muito menos órfãos no mundo do que havia no passado, graças às descobertas médicas e ao cuidado com prevenção de doenças que temos. Acho uma história romântica para corações que gostam de se sensibilizar.  É um livro de passagem. Os  personagens adolescentes passam por situações que eventualmente os tornam adultos. Mas, francamente, achei o tema, o assunto, na fronteira com o lugar-comum.  Duas estrelas de cinco.





Curiosidade literária

12 09 2022

Por volta da  meia noite

Alejandra Caballero (Espanha, 1974)

óleo sobre tela, 30 x 30cm

Fernando Pessoa é conhecido pelas inúmeras superstições que acalentava, assim como pelo crédito que dava à astrologia.  No legado deixado, mais de vinte e cinco mil páginas encontradas em baú de guardados,  estão seu próprio mapa astrológico, [Gêmeos com Sagitário ascendente] e os mapas astrológicos de seus heterônimos: Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, com data e hora precisas de nascimento. Estudioso da astrologia dedicou-se a calcular os mapas astrais desenhados e calculados por si próprio.  Mas ainda há registros de mais mapas astrológicos de outros de seus mais de setenta heterônimos.





Leituras de 2022: “Sobretudo de Proust”, de Lorenza Foschini, resenha

10 09 2022

Retrato de Lindy Guiness, 1965

Duncan Grant (Grã-Bretanha, 1885-1978)

óleo sobre madeira, 60 x 50 cm

Não foram só perdas, tive ganhos durante a pandemia.  Um deles foi ler cinco volumes seguidos de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, não acabei, mas progredi bastante. Até então, havia lido duas vezes o primeiro volume dos sete: No caminho de Swan.  Primeiro, há muito tempo, quando estudava para o doutoramento em história da arte.  Centralizando meus estudos na arte moderna, entre 1863 e 1945, Proust era leitura obrigatória, pelo menos o primeiro volume, para melhor entender a sociedade da virada do século.  Muito mais tarde, reli o mesmo volume na preparação de um curso sobre Proust e a cultura da virada do século, tendo como eixo essa obra.  Foi um sucesso. Mesmo assim, a continuação do curso, cobrindo outros volumes nunca passou de projeto. Os anos seguiram.  A pandemia chegou.  No primeiro ano, tive tempo e paz para me dedicar de novo à leitura de Proust e voltar a me apaixonar pela escrita, assim como milhares e milhares de pessoas o fizeram através do século XX.

Sobretudo de Proust

Não vou aqui tratar dos encantos da narrativa proustiana, todos já sabem. Prosa minuciosa,  que merece ser lida com cuidado, pausadamente, saboreada.  Sentimos a necessidade de absorver cada vinheta e memorizá-las,como se pudessem agora fazer parte das nossas próprias memórias. Mas há mais.  Proust fascina também por aspectos misteriosos de sua existência, doente, escrevendo na cama; sofrendo dores e observando o mundo à sua volta.  Uma vida enigmática.  Não é de surpreender, portanto, que haja leitores atraídos pela intimidade de  sua vida; pessoas arrebatadas que gostariam de absorver cada detalhe sobre o intrigante escritor.  Esse é o fenômeno retratado em Sobretudo de Proust, ocorrência que toma conta do conhecido industrial e perfumista francês Jacques Guérin,  que move montanhas para conseguir documentos, textos, mobiliário, tudo que se imagine sobre Marcel Proust. Que fique claro, no entanto, Guérin foi capaz de agregar uma respeitadíssima coleção de livros raros e manuscritos de outros escritores como Lautréamont [Isidore Lucien Ducasse] um dos queridinhos dos surrealistas.  Ele foi também figura importante junto aos movimentos artísticos, literários e musicais da primeiras décadas do século XX.

A caminho do Brasil | Portal Anna Ramalho

Lorenza Foschini

 

Sobretudo de Proust: história de uma obsessão literária, de Lorenza Foschini, tradução de Mário Fondelli, mostra a procura, a caça, podemos dizer, do que restou do espólio de Proust.  Jacques Guérin consegue contato com herdeiros de escritor francês, que para sua surpresa, estão paulatinamente se desfazendo, queimando, os manuscritos que receberam com a morte de Proust.  É a cunhada de Proust, Marthe Dubois-Amiot, o personagem mais estarrecedor desta aventura.  Mas a tenacidade de Guérin na procura e retenção dessa papelada dá certo.  Hoje os manuscritos de Marcel Proust sob sua tutela são conhecidos como Cahiers Guérin.

O livro que nos conta essa história é delicioso.  Pequenino, com aproximadamente cem e poucas páginas, é um deleite para quem gosta de mistérios, de livros, manuscritos e papelada em geral.  É também um retrato acurado do colecionador sério, do sentimento que envolve aqueles que se entregam a uma paixão, a um amor, que procuram e retêm objetos de valor, que muitas vezes só eles, colecionadores veem sua importância no momento, esforço pelos qual gerações futuras agradecem. Este não é o primeiro livro da autora sobre Proust.  Talvez sua admiração pelo escritor tenha embalado a narrativa delicada e sedutora que encontramos no volume. Recomendo a leitura, sem restrições.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Curiosidade literária

5 09 2022

Tesouro

Sarah Mac (Austrália, contemporânea)

aquarela, lápis e nanquim sobre papel, 30 x 25cm

 

 

O vigésimo sexto  presidente dos Estados Unidos, Theodore  Roosevelt (1858 -1919) era leitor assíduo, conhecido por ler pelo menos  um livro por dia e às vezes dois ou três se tivesse uma noite livre.  A maior influência literária que teve foi do escritor e almirante Alfred Thayer Mahan.  Tudo indica que o livro The Influence of Sea Power Upon History  [A influência do poder naval sobre a história] foi  de importância para a política imperialista de seu governo.  Roosevelt também gostava de ler sobre a natureza, obras de autores como Audubon e Spencer Fullerton Baird, influenciaram  o presidente a ter como prioridade a proteção dos grandes espaços de beleza natural no país, quando durante seu governo (1901-1909) aumentou o número parques nacionais de proteção à natureza.  Os primeiros parques foram Yellowstone National Park, criado em 1892, seguido de Sequoia National Park, 1890, Yosemite National Park, 1890, Mount Renier National Park, 1899. Roosevelt adicionou: Crater Lake no Oregon; Wind Cave em  South Dakota; Sullys Hill, North Dakota; Mesa Verde, Colorado; e Platt, Oklahoma, hoje parte  Chickasaw National Recreation Area.

 





Leituras de 2022: “Vozes de Batalha” de Marina Colasanti, resenha

4 09 2022

Sem título

Emmanuel Garant (Canadá, 1953)

óleo

 

Durante minha infância e adolescência passei centenas de vezes em frente à propriedade que hoje chamamos de Parque Lage aqui no Rio de Janeiro, na ida e volta das escolas que frequentei. Naquela época era uma casa abandonada, circundada por um gigantesco terreno, coberto por mata tropical de tal forma densa, que não se conseguia ver a mansão que lá se escondia.  A propriedade, diziam na época, estava presa em litígio que não se resolvia por anos. Uma das razões desse terreno ser inesquecível, para quem passava pela rua Jardim Botânico naquela época, era que a mata era tão densa, tão densa, que a temperatura ambiente baixava significantemente à sua frente. Numa cidade calorenta como o Rio de Janeiro, a mudança de temperatura, em segundos, porque passamos em frente à uma residência com mata fechada que abaixa a temperatura ambiente é algo notório.  Mais tarde, a propriedade passou para o governo local por falta de pagamento de diversas dívidas da família e transformou-se  no que hoje conhecemos como  Parque Lage, local de acolhimento de diversas atividades inclusive uma escola de artes plásticas.

Essa mansão, que já fora uma das mais conhecidas da cidade, hoje ponto alternativo de turismo, leva o nome de seu antigo proprietário, Henrique Lage, um dos grandes empreendedores e uma das grandes fortunas do país no período entre guerras.  A mansão dos Lage é foco central da escritora Marina Colasanti, que passou a infância usufruindo das delícias deste palacete, descendente que foi de Gabriela Besanzoni Lage, sua tia, casada com Henrique Lage em 1925. Vozes de Batalha, da autora, publicado este ano pela Tusquets, atraiu a atenção de dois grupos de leitura a que pertenço.  Interessante notar que as avaliações dessas leituras foram bastante divergentes. 

 

Vozes de batalha

 

Trata-se das memórias de infância de Marina Colasanti, das aventuras dela e de seu irmão Arduíno, que exploraram o quanto quiseram a propriedade.  Filhos de Lisetta e Manfredo, chegam ao Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, imigrantes, sem grandes perspectivas financeiras, que se estabelecem em 1948 na casa de Gabriela Besanzoni.  São os parentes pobres, da famosa cantora de ópera que havia arrebatado o coração de um dos maiores “partidos” para casamento do Rio de Janeiro no início do século XX.

Vemos a casa e a época através dos olhos dessa menina, hoje escritora.  Estas são memórias afetivas. Elas aparecem com muitos lapsos, e bastante ingenuidade quanto à realidade política e financeira dos tios.  Foi exatamente este ponto que fomentou a divergência de opinião sobre o livro entre os dois grupos de leitura. Um deles julgou ser uma excelente e divertida leitura [Encontros na Praça], outro grupo [Papalivros] esperava maior inserção da época, quer política, quer social, já que tão poucos de nossos escritores parecem se ater ao período.  Esperavam substância histórica mais densa, digamos assim, do Rio de Janeiro nos anos de brilho vividos pelo casal Lage. É importante lembrar que a cidade era a capital do país e, por isso, quase impossível separar os encontros políticos dos sociais.  Ainda que haja menções ao governo de Vargas, em diversas ocasiões, falta  ênfase na importância financeira da família e na interação das finanças com a política, claramente insinuada .  Essa foi a principal razão dos senões apontados pelos leitores, ainda que todos tenham entendido este não ser o principal objetivo de Colasanti.

 

Marina Colasanti - Biografia - Grupo Editorial GlobalMarina Colasanti

 

Com a conhecida prosa fluida de Marina Colasanti estas memórias de criança são encantadoras. Além disso o livro abre o apetite para sabermos mais sobre os Lage, sobre a época entre guerras no Rio de Janeiro. É leitura boa e leve, ideal para um fim de semana prolongado.  Sou, no entanto, uma daquelas que apreciaria maior inserção histórica na obra.  Mas não me arrependo dos  momentos que passei acompanhada pelo livro.  Três estrelas, tendo cinco como máximo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura — Ilia Répine

4 09 2022

Retrato da esposa do pintor, Vera Répine, 1878

Ilia Répine (Ucrânia, 1844-1930)

Óleo sobre tela, 101 x 82 cm

Coleção Particular





José de Alencar: o dia a dia a escrever “O Guarani”

2 09 2022

Timeline Photos - Flora Merleau Artiste peintre | Reading art, Reading  books illustration, Cafe art

Café e livro

Flora Merleau (França, 1975)

acrílica sobre tela, 80 x65 cm

 

 

“O desgosto que me obrigou a truncar o segundo romance, levou-me o pensamento para um terceiro, porém este já de maior fôlego. Foi O Guarani, que escrevi dia pôr dia para o folhetim do Diário, entre os meses de fevereiro e abril de 1857, se bem me recordo.

No meio das labutações do jornalismo, oberado não somente com a redação de uma folha diária, mas com a administração da empresa, desempenhei-me da tarefa que me impusera, e cujo alcance eu não medira ao começar a publicação, apenas com os dois primeiros capítulos escritos.

Meu tempo dividia-se desta forma. Acordava, pôr assim dizer, na mesa do trabalho; e escrevia o resto do capítulo começado no dia antecedente para envia-lo à tipografia. Depois do almoço entrava pôr novo capítulo que deixava em meio. Saía então para fazer algum exercício antes do jantar no “Hotel de Europa”. A tarde, até nove ou dez horas da noite, passava no escritório da redação, onde escrevia o artigo editorial e o mais que era preciso.

O resto do serão era repousar o espírito dessa árdua tarefa jornaleira, em alguma distração, como o teatro e as sociedades.

Nossa casa no Largo do Rocio, nº 73, estava em reparos. Trabalhava eu num quarto do segundo andar, ao  estrépito do martelo, sobre uma banquinha de cedro, que apenas chegava para o mister da escrita; e onde a minha velha caseira Ângela servia-me o parco almoço. Não tinha comigo um livro; e socorria-me unicamente a um canhenho, em que havia em notas o fruto de meus estudos sobre a natureza e os indígenas do Brasil.

Disse alguém, e repete-se pôr aí de outiva que O Guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do Ceará com as margens do Delaware.”

 

 

Em: Como e porque sou escritor, José de Alencar, Campinas, São Paulo,Pontes: 1990