Palavras para lembrar

5 10 2022

Atualizando-se, 2021

Anna Reznikova (Chipre, contemporânea)

óleo sobre tela, 60 x 50 cm

 

“Ler…

é ir a algum lugar sem precisar pegar um trem ou navio, desvendar mundos novos e incríveis. É viver uma vida que você não nasceu para viver e uma chance de ver algo colorido pela perspectiva de outra pessoa. É aprender sem ter que enfrentar as consequências dos fracassos, é aprender como ter sucesso da melhor maneira.”

 

 

Em: A última livraria de Londres de Madeline Martin, tradução de Simone Reisner, Kindle edition, 2022.





Curiosidade literária

3 10 2022

A leitura

Angelo Guido Gnocchi (Itália-Brasil, 1893-1969)

óleo  sobre tela,  30 x 43 cm

 

 

 

Escrita em  números:  é impressionante saber os limites autoimpostos por alguns escritores, para o mínimo de palavras produzidas por dia.  Aqui vai uma amostra:

 

Ray Bradbury — escrevia 1.000 palavras por dia desde os 12 anos de idade

Raymond Chandler — não tinha um limite específico, mas sabe-se que escrevia 5.000 palavras por dia

Arthur Conan Doyle, William Golding, Norman Mailer — diziam escrever 3.000 palavras por dia

Ian Fleming escrevia 2.000 palavras/dia,  5 dias por semana, 6 meses, para cada livro de James Bond

Ernest Hemingway — considerava 500 palavras, bom trabalho diário

Stephen King — escrevia 2.000 palavras por dia mas não contava os advérbios

Jack London — escreveu 1.000 palavras por dia, todos os dias de sua vida

Anthony Trollope — escrevia 250 -palavras a cada 15 minutos, marcados no  relógio

Thomas Wolfe — não  parava até alcançar as 1.200 palavras diárias

 

EXCEÇÕES

James Joyce considerava duas frases perfeitas, um bom dia de trabalho

Dorothy Parker dizia que não podia escrever cinco palavras sem trocar sete

 





Leituras de 2022: “Golden Age ladies” de Sylvia Barbara Soberton, resenha

2 10 2022

Emerentia, mãe de Santa Ana, avó de Jesus Cristo, sd,final do século XV,

DETALHE  [Altar da árvore genealógica da Virgem Maria]

Jan Provost (Bélgica 1465-1529)

óleo sobre madeira

Raramente faço resenhas de livros em língua estrangeira, ainda que os leia, todos os dias. Conversando com amigos cheguei à conclusão de que para livros que não têm tradução no Brasil, não há jeito, temos que passar adiante a informação.  E hoje, quem não lê em inglês?  Este livro, não muito grande, li na versão eletrônica.  É um apanhado sobre as mulheres que faziam parte das cortes de Henrique VIII e Francisco I, primos e reis que estavam em perpétua competição entre si.  Francisco I também competia com Carlos V da Espanha.  Essa época, início do século XVI, é complicada para estudar, batalhas entre esses três monarcas fazem parte importante da história do mundo ocidental, por ajudarem a moldar o que hoje entendemos como Europa.  Em termos de literatura é interessante lembrar que a competição entre esses líderes é frequentemente mencionada.  Por exemplo, a disputa entre Francisco I da França e Carlos V da Espanha é mencionada nas primeiras linhas de, No caminho  de Swann, primeiro volume de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust. Este é só um exemplo de como as referências históricas podem ser importantes mesmo para leituras modernas.

Golden Age Ladies: women who shaped the courts of Henry VIII and Francis I, de Sylvia Barbara Soberton foca precisamente nas ações, no poder das mulheres que contribuíram para os governos, para as cortes desses reis.  Trabalhando muitas vezes no aconselhamento, mas também nos tratados de paz entre eles.  Essa visão histórica pelo lado feminino nem sempre foi abordada, e no entanto elas tinham poder, justamente por seus casamentos não serem feitos por sentimentos mas pelas fortunas que traziam para as cortes onde seriam esposas de reis e mães de futuros monarcas se tivessem sorte de produzirem herdeiros.

 

Este livro não trará novidades para o historiador,para o pesquisador, para quem pretende fazer um mestrado em história.  Não é esse o seu objetivo.  Bem pesquisado, com notas de rodapé (aqui no final do livro) que ajudam, caso o leitor queira pesquisar mais a fundo, este livro traz de forma compreensiva, direta, aspectos da vida no início do século XVI e a importância das mulheres nas cortes retratadas,para o leitor comum.

Não é um romance. Não é um livro de aventuras. Mas é um excelente apanhado sobre essa época, e as mulheres que dela fizeram parte.  Acabamos nos familiarizando com Louise of Savoy, Marguerite d’Angoulême, Claude de France, Eleonora de Portugal, Françoise de Foix, Anne de Pisseleu, Catarina dei’Medici, Diane de Poitiers, estas todas da corte francesa.  Assim como Maria Tudor, Catarina de Aragão, Ana Bolena, Jane Seymour, Ana de Clèves, Catherine Howrd, Catherine Parr e Bessie Blount (Elizabeth), da corte de Henrique VIII.

 

Sylvia Soberton

 

Se você já tem bastante conhecimento do período, se é um historiador especializado, talvez esse não seja um livro para você.  Mas se gosta da época e quer entendê-la mais, sugiro que leia essa obra.  Ela traz claridade sobre as ligações desses nobres, como se tivéssemos um mapa dos relacionamentos ou lista de quem é quem…  Como  gosto do período e sei da importância que teve para o desenvolvimento da Inglaterra e da França, achei esse livro muito bom.  A meu ver cumpriu com o que prometeu.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Imagem de leitura: Betsy Podlach

27 09 2022

Uma mulher lendo um livro, 2010

Betsy Podlach  (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela





Curiosidade literária

26 09 2022

Jovem rapaz deitado, 1931

Bror Hillgren ( Suécia, 1881-1955)

óleo sobre tela, 61 x 61 cm

 

Honoré de Balzac deu a toda sua obra o nome de Comédia Humana. Sob esse título há praticamente a totalidade de sua escrita criativa, que se concentra nas histórias, aventuras e desgraças de uma extensa família francesa. Através dos anos, o número de seus personagens cresceu tanto que Balzac desenhou uma árvore genealógica pelas paredes de três cômodos em sua residência, para poder se lembrar das conexões familiares e datas de nascimento daquelas figuras que vieram de sua imaginação.





Sublinhando…

22 09 2022

Retrato duplo do ator Emil Poulsen e sua esposa, 1885

Peder Severin Krøyer (Noruega-Dinamarca, 1851-1909)

pastel sobre papel, 57 x 69 cm

Nivagaards Museu,Dinamarca

 

“Os livros nos fazem viajar no tempo. Todos os leitores de verdade sabem disso. Mas os livros não nos levam para o momento em que foram escritos. Eles nos fazem lembrar de nós mesmos em outra época.”

 

Em: Oito assassinatos perfeitos, Peter Swanson,tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, São Paulo, Jangada: 2022





Leituras de 2022: “Oito assassinatos perfeitos”, Peter Swanson, resenha

19 09 2022

Notícias parisienses, 2021

Anna Reznikova (Chipre, contemporânea)

óleo sobre tela, 60 x 50 cm

 

Nada como um fim de semana de molho para lermos um livro de mistério,  Foi assim que comecei Oito assassinatos perfeitos, de Peter Swanson, com tradução de Thereza Christina Rocque da Motta.  A premissa, pela contracapa, me pareceu fascinante.  Abrimos a leitura com um livreiro, em Boston, trabalhando na livraria, Old Devils, habitada permanentemente por um bichano, chamado Nero.  O lugar se especializa em livros de mistério. Quanto charme nessa ambientação!  Além do mais é inverno, a neve se amontoa nas calçadas, talvez ninguém venha comprar livros.  Um dos donos, está prestes a fechar a porta, certo de que necessitava chegar em casa antes do tempo tornar a cidade caótica, quando uma agente do FBI chega querendo conversar com ele sobre uma série de crimes na Nova Inglaterra.  A agente desenvolveu uma teoria e deseja consultar Malcolm Kershaw (Mal) que conhece muito dos livros de mistério: parece que a série de crimes, que ela investiga,  possa estar ligada à literatura deste gênero.

Tudo indica que Mal, poderia ajudá-la.  Mas já no segundo capítulo, para quem está familiarizado com livros de Agatha Christie, Simenon e outros do gênero, um alerta soa e já se imagina boa parte do quebra-cabeças.  Mesmo assim, a leitura é interessante e fácil.  No desenrolar dos primeiros dez capítulos listas de livros de mistério com suas respectivas soluções aparecem.  Por que?  Porque aparentemente esses livros poderiam oferecer pistas sobre os assassinatos investigados.

 

Achei a ideia do autor sensacional.  Mas a resolução ficou aquém do esperado. A procura pelo criminoso em  série é interessante e sim, há reviravoltas, surpresas, viradas, que prendem a atenção do leitor.  Mas nos últimos dez capítulos, ou seja durante a resolução do caso, no auge do dilema vivenciado pelos leitores e principalmente nos últimos dois capítulos o leitor acaba confuso, tendo que voltar atrás para tentar compreender o que aconteceu.  Essa falta de clareza poderia ser melhor explorada, mesmo que fosse em parte o objetivo do autor confundir o leitor.  Isso leva a um desconcerto com a solução das intrigas e frustração com a leitura.  Em outras palavras:  poderia ter um final mais caprichado.

Peter Sawanson

Outro ponto que gostaria de levantar é a falta de ambientação, além do mínimo. Quando a ação acontece em  Boston, como é o caso, o leitor pode já  ter uma imagem da cidade.  Mas faltou à narrativa pequenos  detalhes que melhor caracterizariam o local.  Um monte de neve e uma livraria, não é ambientação suficiente.  Não teria sido muito trabalhoso adicionar às descrições aqueles detalhes que retratassem melhor aquela alma urbana: a aparência das casas no centro da cidade, os cheiros dos bares de Faneuil Hall, por exemplo, algo que ajudasse o leitor a imaginar por detalhes fornecidos a ele, o que é estar naquele lugar.  Ambientação com referência aos cinco sentidos é encontrada na maior parte dos livros de mistério, pelos menos nos clássicos, que muitas vezes se passam em ambientes exóticos ou desconhecidos do leitor.

Com esses senões fica difícil dar a nota máxima à essa procura por um criminoso em série. Aqui vão três de cinco estrelas. 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Curiosidade Literária

19 09 2022

Menino, 1900

Felix-Joseph Barrias (França, 1822-1907)

óleo sobre tela,46 x 38 cm

 

La Fontaine, mais conhecido por nós aqui no Brasil como autor de Fábulas em verso, aos vinte e dois anos de idade ainda não tinha ideia de que profissão seguir, ou a que se dedicar na vida. Um dia, por acaso, ouviu alguns versos de Malherbe.  Teve, então, o impulso de comprar um volume poesias desse autor.  Essa decisão iria mudar o curso de sua vida.  La Fontaine ficou tão impressionado com a obra, que passou noites em claro, memorizando alguns poemas. De dia ia a um bosque perto de casa para às escondidas recitar o que decorara em voz alta.  Nascia o poeta…

 

Fonte: Disraeli





Leituras de 2022: “O pianista da estação”, de Jean-Baptiste Andrea, resenha

17 09 2022

A volta

Jasmine Saintonge (Canadá, contemporânea)

óleo sobre tela, 119 x 76 cm

O pianista da estação ganhou o Gande Prêmio RTL-Lire 2021 [RTL: rede de televisão francesa e Revista Lire].  Este prêmio difere dos outros do país; é dado pelo público: cem leitores escolhidos cada qual por diferentes livreiros, votam na obra vencedora.  Um dos requerimentos entre os competidores  é que sejam autores que não precisam de maior reconhecimento.  Não ficou claro as coordenadas desta última categoria.  Procurei saber sobre essa distinção após a leitura do livro, já que minha opinião contrasta tanto com o galardão concedido.

Trata-se da história de um homem, Joseph Marty, de sessenta e nove anos, que passa a vida tocando pianos públicos em estações de trem, metrô, aeroportos, lugares de passagem. Nômade, sempre em movimento, como se sua própria vida fosse um interminável e contínuo rondó. Qual seria o motivo? Para descobrirmos as razões visitamos o passado do pianista, órfão de ambos os pais aos quinze anos.  Segue-se então mais uma história de órfãos que são  maltratados nos orfanatos, sofrendo física e emocionalmente.  Reconheço que neste momento, tive que decidir se continuaria ou não a leitura. 

Fui leitora assídua minha vida inteira.  Desde os seis anos de idade ler foi meu maior e constante entretenimento.  Criança, adolescente, adulta,  morando aqui no Brasil, e em diferentes países, li.  Como consequência o número de histórias de órfãos que li é incontável da Cinderela à Pequena órfã Annie, de Oliver Twist e David Coperfield a Jane Eyre, Harry Potter, Poliana e outras dezenas mais de clássicos da literatura mundial. As histórias de órfãos têm, comumente, o sofrimento da criança ou adolescente em  primeiro plano.  E o tema logo me pareceu batido, cansativo e não tive curiosidade de ir em frente. Li, o livro inteiro porque foi selecionado pelos leitores de um grupo de leitura a que pertenço.  E usei de muitos subterfúgios para manter meu interesse.  Procurei por orfanatos nos Pirineus, onde a trama se desenrola, viajei via internet por diversos internatos já fechados na área.  A história começa em 1969;  procurei por fotos de  cidades dos Pirineus da década de sessenta.  Enfim, fiz o que pude para manter meu interesse neste livro.

A prosa de Jean-Baptiste Andrea, com tradução de Júlia da Rocha Simões, é suave, competente.  Há bons momentos e posto abaixo passagens me pareceram interessantes. Foram quatorze marcações.

O velho Rothenberg me dava aulas de piano. Ele era mais enrugado que papel amassado – rosto, pescoço e mãos num vertiginoso braille de rugas. Eu queria passá-lo a ferro a cada vez que o via. Mas quando ele tocava. Quando ele tocava, reis magos pegavam a estrada. Princesas exóticas e longínquas eram tomadas de languidez em seus palácios de areia. Até a sra. Rothenberg, uma sombra murcha que cheirava a pétalas e naftalina, voltava a ser a rainha do verão que ele havia seduzido, sessenta anos antes, sob uma nogueira em flor.”

“O ódio, como a oração, se alimenta de silêncio.”

Jean-Baptiste Andrea

 

Tenho outro senão: Joseph Marty passa muito tempo sem tocar piano.  Como, sem  treino algum, sem qualquer dedicação de horas diárias de ensaio, ele consegue tocar com tanta perfeição?  Quem é capaz de pegar e largar qualquer instrumento musical, e fazer uma performance como se  tempo algum houvesse passado?

Este livro não me tocou.  Não me emocionou.  Não é ruim.  Tenho certeza de que muitos leitores não foram expostos a tantos personagens órfãos.  De fato, interessante notar que hoje há muito menos órfãos no mundo do que havia no passado, graças às descobertas médicas e ao cuidado com prevenção de doenças que temos. Acho uma história romântica para corações que gostam de se sensibilizar.  É um livro de passagem. Os  personagens adolescentes passam por situações que eventualmente os tornam adultos. Mas, francamente, achei o tema, o assunto, na fronteira com o lugar-comum.  Duas estrelas de cinco.





Curiosidade literária

12 09 2022

Por volta da  meia noite

Alejandra Caballero (Espanha, 1974)

óleo sobre tela, 30 x 30cm

Fernando Pessoa é conhecido pelas inúmeras superstições que acalentava, assim como pelo crédito que dava à astrologia.  No legado deixado, mais de vinte e cinco mil páginas encontradas em baú de guardados,  estão seu próprio mapa astrológico, [Gêmeos com Sagitário ascendente] e os mapas astrológicos de seus heterônimos: Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, com data e hora precisas de nascimento. Estudioso da astrologia dedicou-se a calcular os mapas astrais desenhados e calculados por si próprio.  Mas ainda há registros de mais mapas astrológicos de outros de seus mais de setenta heterônimos.