Jarro com flores, 1994
Petrúcio Amorim (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 40 x 60 cm
Paisagem
Victorina Sagboni (Brasil, 1932-2009)
óleo sobre tela
“As pererecas, umas hóspedas invisíveis, anunciavam a mudança do tempo com um canto rascante como um rilhar de dentes.
Passado o verão, a serra transformara-se num chamariz de nuvens saturadas. As primeiras águas eram violentas e o céu a bombardeava.
Pegava a chover; semanas e semanas pluviosas empapavam o sítio. Um chuvão, cada pé-d’água e fazer um mar no baixio.
A tanajura enfiava-se no chão e o embuá, doente de andar com suas mil pernas, enroscava-se.
Sericóias cantadeiras e araquães amantes da umidade festejavam o dilúvio.
A saparia enchia a noite com a sua cantiga interminável, entoando as canções do charco, na sua riqueza de ritmos, desde a bigorna do caldeireiro até a arraia-miúda dos tocadores de flautim. Bastava um aguaceiro para animar a folia , vingando a mudez dos peixes.
O caçote, um sapo escuro e esguio, gritava na goela da cobra-preta que, em vez de silvar, coaxava.
A frente da casa espelhava de poças, onde lavandeiras familiares tomavam seu banho, aos casais , com gritinhos amorosos.
Outra pancada d’água e ressoava um canto festivo. A cachoeira, a gorjear, alegrava os dias e as noites com sua música fluida.
Os meninos pulavam debaixo das biqueiras.
Vinha mais inverno e a terra deixava de ser terra; mal comparando, virava um mar de lama.
A enxurrada corria até os altos e os caminhos eram cortados de atoleiros. Só o jumento tinha uma ciência: farejava o tremendal e, se havia risco, empacava.
Tanta mosca que escurecia tudo. Os animais peludos ficavam em carne viva comidos por essa caterva.
Aí, ninguém aguentava. Com um tempo semelhante tínhamos que levantar acampamento.”
Em: Memórias: antes que me esqueça, José Américo de Almeida, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1976, pp. 37-38
Noite escura!… De repente,
dois faróis surgem na estrada…
E a escuridão sai da frente
como quem foge, assustada.
(Durval Mendonça)
Natureza Morta
Vincenzo Cencin (Itália-Brasil, 1925 – 2010)
óleo sobre tela, colada sobre cartão, 50 x 73 cm
Igreja do Carmo em Belém do Pará, 1985
José Maria de Almeida (Portugal/Brasil, 1906-1995)
óleo sobre tela, 32 x 45 cm

Uma xícara de chá
Lilla Cabot Perry (EUA, 1848 – 1933)
óleo sobre tela, 80 x 64 cm
LACMA [Los Angeles County Museum of Art]
Santa Ágata
Diana de Rosa* (Nápoles, 1602-1643)
óleo sobre tela, 61 x 52 cm
*chamada Anella de Massimo
Helena Lima
Era uma vez a Lua.
Ela tinha medo do escuro.
Era uma vez o Céu.
Ele também tinha medo do escuro.
A Lua pedia emprestada a luz do Sol.
Ele emprestava, às vezes.
O Céu pedia para a Lua acender.
Ela acendia quando podia.
Se o Sol estivesse de bom humor,
a Lua ganhava luminosidade em trezentos e sessenta graus.
Mas quando o mar não estava para peixes e o Sol não estava para estrelas,
não emprestava nada.
Nadinha.
E o Céu ficava escuro.
Escurinho.
A Lua sentia calafrios.
O Céu sentia solidão.
O medo da Lua era de cair e morrer no mar.
O medo do Céu era de fechar e não voltar a clarear.
Um dia, Céu e Lua decidiram:
“Pra acabar com o escuro e a solidão, a gente vai se casar”.
Desde então, os dois passam o dia inteirinho
contando os minutos para o Sol se retirar.
Em: Amores virados pra cá, Helena Lima e Isabelle Borges, Rio de Janeiro, Lago Baikal: 2019, p. 130
Sem título
Sue Halstenberg (EUA, contemporânea)
pastel
Marcelo Gleiser