Leituras de 2022: “Persépolis” de Marjane Satrapi, resenha

20 08 2022

Cena de praia, Suzanne com para-sol e Charles na espreguiçadeira, 1922

Lucien Hector Jonas (França 1880-1947)

Óleo sobre tela

Andava curiosa a respeito deste livro cujo sucesso atravessou o mundo.  Finalmente quando algumas amigas decidiram ler, criei coragem e abracei o volume de quadrinhos.  Não sou adepta da forma.  Estava curiosa pois se trata de combinar duas artes que me são queridas: narrativa e desenho.  Mas observo que essa combinação em novo artefato, mesmo mais rico do que os gibis da minha infância, enfraquece o impacto imoderado de imagens sem textos.  Enquanto o limite físico em cada moldura, restringe a narrativa ao número de palavras a  serem usadas, descartando o poder do subentendido, da nuance literária.  As reticências se esvaziam de emoção.  Ciente de que este tratamento da narrativa atrai adolescentes, jovens adultos além de artistas plásticos, desenhistas, cartunistas e que quadrinhos podem ser porta de entrada para aprofundamento de conhecimentos literários, não critico quem tenha essa preferência.  Mas o resultado é que recebemos menos do que as duas artes em separado podem disseminar entre os leitores.

Mesmo levando em conta os senões apontados acima, achei Persépolis, de Marjane Satrapi, traduzido por Paulo Werneck, obra fascinante pela introdução ao grande público, sobretudo jovens, à complexa e milenar história do Irã e aos conflitos emocionais dos iranianos quando o país se divide sobre as consequências do golpe de estado de 1979. Da cronologia à crônica da Pérsia em séculos passados até sua transformação no final do século XX, o leitor tem, de forma sucinta e clara, um válido apanhado de acontecimentos que se transformam em terreno fértil para a imaginação.  Além disso, assuntos atuais notadamente aqueles que se referem aos imigrantes iranianos e imigrantes muçulmanos na França, são abordados com opiniões objetivas e justificadas.  O conteúdo emocional é bem explorado.  Não há como não simpatizar com a revolta de Satrapi contra regras adotadas pelo governo francês, por exemplo em relação a costumes culturais e religiosos.

O livro é baseado na vida da autora.  Entendemos a angústia da menina na saga dos imigrantes. Passo a passo seguimos o conflito emocional dela, suas duvidas e as de familiares e de iranianos mais liberais tanto em sua terra natal, como em questões de identidade depois da imigração. A série de restrições impostas pelo novo governo iraniano assim como os limites estabelecidos aos imigrantes na França, têm um desconcertante paralelo.

Marjane Satrapi

Este livro traz para o proscênio, com imagens e texto, a batalha em que imigrantes iranianos no país de origem assim como na Europa se veem envolvidos.  Acho uma excelente forma de mostrar ao jovem adolescente da cultura ocidental as raízes de conflitos contemporâneos e os valores por trás de hábitos e costumes tão estrangeiros para os estados ocidentais.

Ótima obra de introdução à história contemporânea do Irã e boa apresentação dos costumes daqueles que seguem a religião muçulmana. 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Flores para um sábado perfeito!

20 08 2022

Vaso com flores, 1966

Clóvis Graciano (Brasil, 1907-1988)

óleo sobre cartão, 63 x 50 cm





Rio de Janeiro, RJ, Brasil

19 08 2022

Vista de São Conrado com Pedra da Gávea ao fundo

Carlos Balliester (Brasil, 1870-1927)

óleo sobre tela, 49 x 63 cm

 





Imagem de leitura: Edward Burne-Jones

18 08 2022

Princesa Sabra, a filha do rei, 1865

[Da Série: São Jorge e o dragão]

óleo sobre tela, 107 x 71 cm

Museu d’Orsay





Meus favoritos: Albert Herter

18 08 2022

Moça de branco

[Retrato da nora do pintor]

Albert Herter (EUA, 1871-1950)

óleo sobre tela

Coleção Particular





Trova do broche

17 08 2022
Ilustração de moda, anos 30, sem assinatura.

— Viste que broche ofuscante

traz ela preso ao vestido?

Muito lindo! É diamante?…

— Não, meu bem, é do marido.

(Albércio Vieira Machado)





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

17 08 2022

Natureza morta, 1976

José Maria de Souza (Brasil, 1935-1985)

 óleo sobre madeira,  73 cm x 60 cm





Nossas cidades: São Pedro da Aldeira, RJ

16 08 2022

Paisagem de São Pedro da Aldeia, 1978

Orlando Brito (Brasil, 1920-1981)

óleo sobre tela, 33 x 41 cm





Leituras de 2022: “A última livraria de Londres”, Madeline Martin, resenha

16 08 2022

Retrato de Simone Gentile segurando um livro, 1966

Serge Ivanoff (Rússia, 1893-1983)

óleo sobre tela, 64 x 54 cm

Quando comecei a ler A última livraria de Londres de Madeline Martin, com tradução de Simone Reisner, pensei que não fosse terminar.  Uma jovem que não tem o hábito de ler acha-se no início da Segunda Guerra Mundial com emprego numa livraria e sem entusiasmo para o trabalho.  Logo depois, um belo jovem, leitor e frequentador assíduo do local, que preenche todos os requisitos de atração, aparece na trama estabelecendo o vínculo romântico entre os dois.  Estávamos a caminho da velha trama:  moça encontra rapaz, eles se gostam, há empecilhos que parecem insuperáveis, até que moça e rapaz se redescobrem.  Raramente me dedico a histórias água com açúcar, cujos finais felizes já estão previstos desde as primeiras páginas.  Li muito nesta linha na adolescência e como jovem adulta.  Mas hoje prefiro livros com finais não formulaicos, surpresas de estilo e trama que me façam pensar e até encantar. 

Há, no entanto, um truque que pode  salvar ficção histórica como esta, solucionando uma parte da frustração com a leitura: há a procura pelos fatos, pelo que é mencionado. Foi com este ângulo que li até o fim e aprendi muito no meio do caminho. E por causa deste hábito, usei a narrativa para descobrir detalhes sobre Londres na Segunda Guerra que desconhecia, fatos aprendidos fora da ficção que busquei na internet para sedimentar a leitura.

Houve bombardeiros do exército alemão, diários, a Londres por oito meses consecutivos, de 1940 a 1941. As pessoas que se abrigavam nas estações do metrô enchiam as mesmas  além da plataforma,  dormiam sobre os trilhos. Abrigavam-se  de paletó e gravata, chapéu;  as mulheres de meias finas vestidos e chapéus às vezes.  Muitas crianças igualmente vestidas.  Mulheres logo começaram a participar da Patrulha do Ataque Antiaéreo.  Todo mundo contribuiu  para que a cidade não sucumbisse.  O governo sugeriu que os canteiros com flores fossem desmantelados nas residências particulares e que as pessoas plantassem seus próprios legumes para evitar a falta de alimentos. Todos os que trabalhavam de alguma maneira na guerra eram uniformizados para que fossem imediatamente reconhecidos pelo trabalho que faziam. E assim por diante.  Fui aos poucos adicionando informações,observando fotografias da época para conseguir mais resultados positivos. Sublinhei duas passagens: uma sobre livros que achei um pouco óbvia, mas que aqui vai como exemplo do modo narrativo.

“Foram os livros que nos uniram. O amor pelas histórias que eles contam, pelas aventuras para as quais nos levam, por sua gloriosa distração em tempos turbulentos. E um lembrete de que sempre teremos esperança.” estou sem a página porque  fiz leitura no kindle.  Posição 4715.

Madeline Martin Madeline Martin

É um livro de fácil leitura, contando a vida de uma moça do interior que sonha em ir para a capital do país tornar-se independente, e o faz. Supera obstáculos e tudo se resolve. É um livro para cima, de alto astral com doses de emoção e fatos históricos. Mostra a resiliência dos britânicos, a importância do amor ao próximo e o bem de se apreciar a leitura. Recomendo para aqueles que gostem dos temas fofos, com pano de fundo histórico e protagonistas com pureza de alma e solidariedade.

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

Abaixo algumas fotos de Londres na Segunda Guerra Mundial.






“Garden-parties” antes da Primeira Guerra Mundial, texto Agatha Christie

15 08 2022

Leitura de verão

John Michael Carter (EUA, 1950)

óleo sobre tela

 

 

“Os garden-parties antes de 1914 eram algo que merecia ser recordado. Todo mundo se vestia com muita elegância, de sapatos de salto alto, vestidos de musselina com faixas, grandes chapéus de palha italiana com rosas pendentes. Os sorvetes  eram deliciosos- de morango, de baunilha, de pistache, de laranja e de framboesa, à escolha — além de várias espécies de doces e de creme de leite, sanduíches, uvas moscatel, e de uma variedade de pêssegos sem penugem.  Desses pormenores deduzo que os garden-parties eram quase sempre dados no mês de agosto.  Não me recordo de servirem morangos com creme de leite.  É claro que não era fácil chegar ao porto.  Os que não dispunham de carruagem, se eram idosos ou inválidos, alugavam uma; a gente moça, porém, caminhava uma milha e meia ou duas milhas e vinha de diferentes pontos de Torquay; alguns tinham a sorte de morar perto, outros moravam bastante afastados, porque Torquay é construída sobre sete colinas. Não há dúvida de que caminhar por uma colina em cima de saltos altos, segurando a longa saia na mão esquerda, o chapéu de sol na direita, era uma provação.  Mas valia a pena ir ao Garden party.”

 

Em: Autobiografia, Agatha Christie, tradução de Maria Helena Trigueiros,  Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1979, p. 112

 

Uma festa de jardim, na França, c. 1900