Leituras de 2022: “O pianista da estação”, de Jean-Baptiste Andrea, resenha

17 09 2022

A volta

Jasmine Saintonge (Canadá, contemporânea)

óleo sobre tela, 119 x 76 cm

O pianista da estação ganhou o Gande Prêmio RTL-Lire 2021 [RTL: rede de televisão francesa e Revista Lire].  Este prêmio difere dos outros do país; é dado pelo público: cem leitores escolhidos cada qual por diferentes livreiros, votam na obra vencedora.  Um dos requerimentos entre os competidores  é que sejam autores que não precisam de maior reconhecimento.  Não ficou claro as coordenadas desta última categoria.  Procurei saber sobre essa distinção após a leitura do livro, já que minha opinião contrasta tanto com o galardão concedido.

Trata-se da história de um homem, Joseph Marty, de sessenta e nove anos, que passa a vida tocando pianos públicos em estações de trem, metrô, aeroportos, lugares de passagem. Nômade, sempre em movimento, como se sua própria vida fosse um interminável e contínuo rondó. Qual seria o motivo? Para descobrirmos as razões visitamos o passado do pianista, órfão de ambos os pais aos quinze anos.  Segue-se então mais uma história de órfãos que são  maltratados nos orfanatos, sofrendo física e emocionalmente.  Reconheço que neste momento, tive que decidir se continuaria ou não a leitura. 

Fui leitora assídua minha vida inteira.  Desde os seis anos de idade ler foi meu maior e constante entretenimento.  Criança, adolescente, adulta,  morando aqui no Brasil, e em diferentes países, li.  Como consequência o número de histórias de órfãos que li é incontável da Cinderela à Pequena órfã Annie, de Oliver Twist e David Coperfield a Jane Eyre, Harry Potter, Poliana e outras dezenas mais de clássicos da literatura mundial. As histórias de órfãos têm, comumente, o sofrimento da criança ou adolescente em  primeiro plano.  E o tema logo me pareceu batido, cansativo e não tive curiosidade de ir em frente. Li, o livro inteiro porque foi selecionado pelos leitores de um grupo de leitura a que pertenço.  E usei de muitos subterfúgios para manter meu interesse.  Procurei por orfanatos nos Pirineus, onde a trama se desenrola, viajei via internet por diversos internatos já fechados na área.  A história começa em 1969;  procurei por fotos de  cidades dos Pirineus da década de sessenta.  Enfim, fiz o que pude para manter meu interesse neste livro.

A prosa de Jean-Baptiste Andrea, com tradução de Júlia da Rocha Simões, é suave, competente.  Há bons momentos e posto abaixo passagens me pareceram interessantes. Foram quatorze marcações.

O velho Rothenberg me dava aulas de piano. Ele era mais enrugado que papel amassado – rosto, pescoço e mãos num vertiginoso braille de rugas. Eu queria passá-lo a ferro a cada vez que o via. Mas quando ele tocava. Quando ele tocava, reis magos pegavam a estrada. Princesas exóticas e longínquas eram tomadas de languidez em seus palácios de areia. Até a sra. Rothenberg, uma sombra murcha que cheirava a pétalas e naftalina, voltava a ser a rainha do verão que ele havia seduzido, sessenta anos antes, sob uma nogueira em flor.”

“O ódio, como a oração, se alimenta de silêncio.”

Jean-Baptiste Andrea

 

Tenho outro senão: Joseph Marty passa muito tempo sem tocar piano.  Como, sem  treino algum, sem qualquer dedicação de horas diárias de ensaio, ele consegue tocar com tanta perfeição?  Quem é capaz de pegar e largar qualquer instrumento musical, e fazer uma performance como se  tempo algum houvesse passado?

Este livro não me tocou.  Não me emocionou.  Não é ruim.  Tenho certeza de que muitos leitores não foram expostos a tantos personagens órfãos.  De fato, interessante notar que hoje há muito menos órfãos no mundo do que havia no passado, graças às descobertas médicas e ao cuidado com prevenção de doenças que temos. Acho uma história romântica para corações que gostam de se sensibilizar.  É um livro de passagem. Os  personagens adolescentes passam por situações que eventualmente os tornam adultos. Mas, francamente, achei o tema, o assunto, na fronteira com o lugar-comum.  Duas estrelas de cinco.





Flores para um sábado perfeito!

17 09 2022

Vaso com flores, 1939.

Noêmia Mourão, (Brasil, 1912-1992)

Óleo sobre tela





Rio de Janeiro, RJ, Brasil

16 09 2022

Mosteiro de Santo Antônio, 1937

Milton Dacosta (Brasil, 1915 – 1988)

óleo sobre madeira, 25 x 31 cm.





Mulher e pintora: Rachel Ruysch

16 09 2022

Natureza morta com flores sobre a mesa, 1695

Rachel Ruysch (Holanda, 1664-1750)

óleo sobre madeira, 32 x 25 cm





No trabalho: Carolina Walker

15 09 2022

Penteadeira, Quarto 425, 2018

Caroline Walker (Escócia, 1982)

óleo sobre placa, 43 x 35 cm





Meus favoritos: Ivan Nikolayevich Kramskoy

14 09 2022

Jovem com gato, 1882

[Sophia Ivanova Kramskoy]

Ivan Nikolayevich Kramskoy (Rússia, 1837-1887)

óleo sobre tela, 71 x 58 cm

 

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Ivan Kramskoy foi excelente retratista.  Uma das características de seus retratos é a habilidade de traduzir emoções diversas só através dos olhos do modelo.  Homem, mulher ou criança  são retratados com o que seus olhos refletem: interesse, descaso, incompreensão, sofrimento independentemente do resto da composição, ou seja, ele consegue dar ao espectador a essência do momento daquele personagem.  Aqui, neste retrato, gosto precisamente, do abandono dos corpos do gatinho e da jovem: um ecoa o outro, no conforto, na desatenção ao que os rodeia.  Há um tanto de desleixo, distração, displicência.  O desmazelo é refletido na franja do xale esparramada sem rumo sobre o sofá, em contraste com a severidade das cores verticais do papel de parede ao fundo e a dura almofada do recamier divã em que ela se recosta.  Vemos a jovem sonhar.  Seus olhos traem a mente: ela está longe dali, ainda que acaricie o companheiro peludo com ambas as mãos.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

14 09 2022

Composição

Ernesto de Fiori (Itália-Brasil, 1884 – 1945)

óleo sobre tela, 50 x 65 cm





Nossas cidades: Araxá

13 09 2022

Araxá, 2001

Baptista Gariglio (Brasil, contemporâneo)

aquarela sobre papel, 28 x 38 cm





Trova do seu bem-querer

12 09 2022
Ilustração de revista americana década 1960.

Você nem sabe a ventura

que me traz seu bem-querer:

se é paixão ou se é loucura,

eu não quero nem saber!

(Ana Maria Motta)





Curiosidade literária

12 09 2022

Por volta da  meia noite

Alejandra Caballero (Espanha, 1974)

óleo sobre tela, 30 x 30cm

Fernando Pessoa é conhecido pelas inúmeras superstições que acalentava, assim como pelo crédito que dava à astrologia.  No legado deixado, mais de vinte e cinco mil páginas encontradas em baú de guardados,  estão seu próprio mapa astrológico, [Gêmeos com Sagitário ascendente] e os mapas astrológicos de seus heterônimos: Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, com data e hora precisas de nascimento. Estudioso da astrologia dedicou-se a calcular os mapas astrais desenhados e calculados por si próprio.  Mas ainda há registros de mais mapas astrológicos de outros de seus mais de setenta heterônimos.