Reorganizar o escritório não é fácil. E nem é só organizar livros. Em geral organizamos de quebra, papelada, gavetas da escrivaninha, dos armários, dos móveis à nossa volta. Minha cortina, ainda não chegou. Espero há um mês. Trabalhar com o computador virado para o janelão requer o uso de um boné, cuja aba quebra a luz entrando. O caos ainda não foi domado.
Tenho três gavetas com fotos da família. Não só da minha geração. Tenho fotos de meus bisavós, sei quem são, seus nomes, de onde eram. Meus pais tiveram cuidado de nos informar sobre isso. Acabei com as fotos, porque minha mãe morou comigo nos últimos anos de vida. Herdei a documentação iconográfica da família. E ontem consegui uma companhia que irá multiplicar as fotos, para que cada sobrinho tenha fotos de todos com seus rótulos, quem é quem, onde estavam, de onde vieram. Esse será parte do meu legado.
Esse tempo todo, selecionando fotos, organizando a família por lado de mãe e pai, trouxe reflexões que provavelmente aparecerão em escritos futuros, mesmo que de forma oblíqua. Com essa tradição familiar, eu me lembrei do choque que ainda tenho, toda vez que vou a uma feira de coisas antigas, como na Praça Quinze de Novembro aqui no Rio de Janeiro, ou na Praça Santos Dumont e vejo dezenas de fotos, abandonadas por famílias que se desfizeram dos bens de algum familiar já falecido. Não ligar para fotos de antepassados que não conhecemos, é comum. Não é fenômeno brasileiro. O mesmo acontece no exterior, no mercado das pulgas parisiense, na feira de usados da Praça das Armas em Madri, nas feiras americanas, nos leilões de espólios nos EUA. É comportamento mundial. A minha régua é que não é a mesma. Talvez seja a historiadora em mim.
Esta família, pai, mãe e filhos, não conheci. Mas o senhor é um antepassado. Foto de 1912.
Eu pouco sabia sobre essa foto. Hoje sei exatamente quem são, onde moraram, quando morreram. O senhor, eu sabia quem era. Mas a esposa dele, a informação que tinha era: “a irmã do Eusébio”. Quem era Eusébio? Como se chamava sua irmã? Fui atrás das respostas. Hoje sei o nome de todos e sua saga. Preenchi alguns espaços em branco e com imaginação completei outros. Sei, por exemplo, que os três filhos, aí na foto, morreram jovens. Todos três de gripe espanhola, em anos diferentes. Morreram em Liège, na Bélgica. Esses dados, foram registrados num livro de preces, notas nas margens, numa caligrafia fininha, letrada. Há a listagem da temperatura das febres de cada paciente, e a data de sua morte. Triste. Devem ter sofrido muito. Os pais voltaram para o Brasil depois da tragédia, uma década após se mudarem para a Europa. Ele, que havia sido imigrante português, morreu no Brasil em 1944.
Ando perdida nesse passado que não conheci, mas que de alguma maneira é meu. Um momento ímpar, de pausa e reflexão. Nada mal para um início de ano.
©Ladyce West, Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2026.







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