“Os livros nos fazem viajar no tempo. Todos os leitores de verdade sabem disso. Mas os livros não nos levam para o momento em que foram escritos. Eles nos fazem lembrar de nós mesmos em outra época.”
Em: Oito assassinatos perfeitos, Peter Swanson,tradução de Thereza Christina Rocque da Motta, São Paulo, Jangada: 2022
Ano difícil este. 2022 tem trazido perdas muito significativas para mim. Hoje meu coração enlutece de novo. Sônia Carneiro Leão, amiga desde sempre, foi-se. Abre-se um grande vazio em minha vida. Era dessas amigas com quem falamos todos os dias. Emoções expostas, alegrias, dúvidas, segredos, sonhos e tristezas trocados.
Conheci Sonia na faculdade. Ela procurava seu segundo diploma, já era advogada formada. Voltava aos bancos universitários à procura de maior relevância no dia a dia. Direito não a satisfazia. Estudamos história da arte, juntas. Eu, saí logo depois do segundo ano, quando fui morar nos Estados Unidos. Mas continuamos amigas. Quando os corações se encontram, a gente retém a amizade, não importa a distância. Enquanto eu continuei como historiadora da arte, Sonia, foi atraída à psicanálise. Seu grande mentor foi nosso professor Magno Machado Dias, de quem Sonia foi assistente, por um tempo, há muito tempo. E, bem encaminhada, uma intelectual de primeira grandeza, Sonia teve uma vida de conquistas na carreira, grande prática no Rio de Janeiro, aos poucos se especializando em psicanálise de adolescentes e sendo bastante conhecida no campo. Estudou na Sorbonne, traduziu incontáveis textos do francês para o português e sabia um bocado de inglês, de quando morou nos Estados Unidos, acompanhando sua irmã. Quando voltei para o Brasil, retomamos nossos encontros semanais. Alguns anos depois, foi morar em Pernambuco, para que o marido, pernambucano, com doença terminal, lá pudesse ter o repouso final. Mas, Sonia era carioca, crescida em Copacabana na rua Hilário de Gouveia. Apesar de amar o Recife e sua casa na praia da Boa Viagem, voltou para o Rio de Janeiro porque era aqui que seu coração se sentia confortável. Debateu muito o retorno ao Recife, mas acabou ficando aqui.
Sonia Carneiro Leão em 2019
Sempre fomos muito diferentes, as duas. Mais opostas era difícil de achar. Tínhamos opiniões divergentes acirradas, daquelas que de vez em quando passa uma semana sem se falar, porque não entende a outra. Era mútuo o respeito, no entanto, e voltávamos a nos encontrar logo, sem qualquer limitação. Nesses últimos anos no Rio de Janeiro, Sonia tornou-se uma companheira constante. Era com ela que fui dezenas e dezenas de vezes às reuniões da Academia Brasileira de Letras, da Academia Carioca de Letras. Sim, ainda não mencionei que ao longo dos anos Sonia se tornou escritora, (além dos livros de psicanálise). Poeta e escritora. Reconhecida. Livros de poesia, livros para crianças, livros de memórias. Preparava no momento, livro sobre Santa Terezinha das Rosas. Foi com ela que Harry e eu íamos com frequência aos concertos da Sala Cecília Meireles, no Municipal, aos sábados à tarde nos saraus de Nelson de Franco no Planetário. Foi com ela também que íamos a shows ao vivo de musica popular brasileira. Harry e Sonia se davam bem, tinham papo. Fizemos um grupo de três ou três e mais um, que se encontrava às terças-feiras à noite, na casa dela ou na nossa, só para conversar sobre literatura e psicologia. Líamos os clássicos em geral parte dos clássicos para conversarmos sobre arquétipos, interpretações, história cultural. Harry gostava bastante desses encontros, poucas pessoas que conhecíamos tinham interesses tão próximos aos dele e mesmo depois de ter dificuldade de andar, ainda subia as escadas da cobertura dela, com esforço mas satisfeito para os encontros. Foi com ela, que li Em busca do tempo perdido. Usamos três línguas, textos em francês, português e inglês. Gostávamos de comparar.
As memórias que tenho dela são muitas e variadas. Pela constância de sua presença em minha vida deixará um grande vácuo nos meus dias. A última comunicação que tive dela foi domingo. Mandou um vídeo da música That’s what friends are for, com uma pequena mensagem de despedida. Chorei muito. À noite, ainda mandou um alô. Em menos de quarenta-oito horas faleceu. O lock down desta pandemia afetou a todos nós. E afetou muito a essa grande amiga. Culpo parte de seus problemas no isolamento a que nos submetemos. Estou muito triste.
Nada como um fim de semana de molho para lermos um livro de mistério, Foi assim que comecei Oito assassinatos perfeitos, de Peter Swanson, com tradução de Thereza Christina Rocque da Motta. A premissa, pela contracapa, me pareceu fascinante. Abrimos a leitura com um livreiro, em Boston, trabalhando na livraria, Old Devils, habitada permanentemente por um bichano, chamado Nero. O lugar se especializa em livros de mistério. Quanto charme nessa ambientação! Além do mais é inverno, a neve se amontoa nas calçadas, talvez ninguém venha comprar livros. Um dos donos, está prestes a fechar a porta, certo de que necessitava chegar em casa antes do tempo tornar a cidade caótica, quando uma agente do FBI chega querendo conversar com ele sobre uma série de crimes na Nova Inglaterra. A agente desenvolveu uma teoria e deseja consultar Malcolm Kershaw (Mal) que conhece muito dos livros de mistério: parece que a série de crimes, que ela investiga, possa estar ligada à literatura deste gênero.
Tudo indica que Mal, poderia ajudá-la. Mas já no segundo capítulo, para quem está familiarizado com livros de Agatha Christie, Simenon e outros do gênero, um alerta soa e já se imagina boa parte do quebra-cabeças. Mesmo assim, a leitura é interessante e fácil. No desenrolar dos primeiros dez capítulos listas de livros de mistério com suas respectivas soluções aparecem. Por que? Porque aparentemente esses livros poderiam oferecer pistas sobre os assassinatos investigados.
Achei a ideia do autor sensacional. Mas a resolução ficou aquém do esperado. A procura pelo criminoso em série é interessante e sim, há reviravoltas, surpresas, viradas, que prendem a atenção do leitor. Mas nos últimos dez capítulos, ou seja durante a resolução do caso, no auge do dilema vivenciado pelos leitores e principalmente nos últimos dois capítulos o leitor acaba confuso, tendo que voltar atrás para tentar compreender o que aconteceu. Essa falta de clareza poderia ser melhor explorada, mesmo que fosse em parte o objetivo do autor confundir o leitor. Isso leva a um desconcerto com a solução das intrigas e frustração com a leitura. Em outras palavras: poderia ter um final mais caprichado.
Peter Sawanson
Outro ponto que gostaria de levantar é a falta de ambientação, além do mínimo. Quando a ação acontece em Boston, como é o caso, o leitor pode já ter uma imagem da cidade. Mas faltou à narrativa pequenos detalhes que melhor caracterizariam o local. Um monte de neve e uma livraria, não é ambientação suficiente. Não teria sido muito trabalhoso adicionar às descrições aqueles detalhes que retratassem melhor aquela alma urbana: a aparência das casas no centro da cidade, os cheiros dos bares de Faneuil Hall, por exemplo, algo que ajudasse o leitor a imaginar por detalhes fornecidos a ele, o que é estar naquele lugar. Ambientação com referência aos cinco sentidos é encontrada na maior parte dos livros de mistério, pelos menos nos clássicos, que muitas vezes se passam em ambientes exóticos ou desconhecidos do leitor.
Com esses senões fica difícil dar a nota máxima à essa procura por um criminoso em série. Aqui vão três de cinco estrelas.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
La Fontaine, mais conhecido por nós aqui no Brasil como autor de Fábulas em verso, aos vinte e dois anos de idade ainda não tinha ideia de que profissão seguir, ou a que se dedicar na vida. Um dia, por acaso, ouviu alguns versos de Malherbe. Teve, então, o impulso de comprar um volume poesias desse autor. Essa decisão iria mudar o curso de sua vida. La Fontaine ficou tão impressionado com a obra, que passou noites em claro, memorizando alguns poemas. De dia ia a um bosque perto de casa para às escondidas recitar o que decorara em voz alta. Nascia o poeta…
O pianista da estação ganhou o Gande Prêmio RTL-Lire 2021 [RTL: rede de televisão francesa e Revista Lire]. Este prêmio difere dos outros do país; é dado pelo público: cem leitores escolhidos cada qual por diferentes livreiros, votam na obra vencedora. Um dos requerimentos entre os competidores é que sejam autores que não precisam de maior reconhecimento. Não ficou claro as coordenadas desta última categoria. Procurei saber sobre essa distinção após a leitura do livro, já que minha opinião contrasta tanto com o galardão concedido.
Trata-se da história de um homem, Joseph Marty, de sessenta e nove anos, que passa a vida tocando pianos públicos em estações de trem, metrô, aeroportos, lugares de passagem. Nômade, sempre em movimento, como se sua própria vida fosse um interminável e contínuo rondó. Qual seria o motivo? Para descobrirmos as razões visitamos o passado do pianista, órfão de ambos os pais aos quinze anos. Segue-se então mais uma história de órfãos que são maltratados nos orfanatos, sofrendo física e emocionalmente. Reconheço que neste momento, tive que decidir se continuaria ou não a leitura.
Fui leitora assídua minha vida inteira. Desde os seis anos de idade ler foi meu maior e constante entretenimento. Criança, adolescente, adulta, morando aqui no Brasil, e em diferentes países, li. Como consequência o número de histórias de órfãos que li é incontável da Cinderela à Pequena órfã Annie, de Oliver Twist e David Coperfield a Jane Eyre, Harry Potter, Poliana e outras dezenas mais de clássicos da literatura mundial. As histórias de órfãos têm, comumente, o sofrimento da criança ou adolescente em primeiro plano. E o tema logo me pareceu batido, cansativo e não tive curiosidade de ir em frente. Li, o livro inteiro porque foi selecionado pelos leitores de um grupo de leitura a que pertenço. E usei de muitos subterfúgios para manter meu interesse. Procurei por orfanatos nos Pirineus, onde a trama se desenrola, viajei via internet por diversos internatos já fechados na área. A história começa em 1969; procurei por fotos de cidades dos Pirineus da década de sessenta. Enfim, fiz o que pude para manter meu interesse neste livro.
A prosa de Jean-Baptiste Andrea, com tradução de Júlia da Rocha Simões, é suave, competente. Há bons momentos e posto abaixo passagens me pareceram interessantes. Foram quatorze marcações.
“O velho Rothenberg me dava aulas de piano. Ele era mais enrugado que papel amassado – rosto, pescoço e mãos num vertiginoso braille de rugas. Eu queria passá-lo a ferro a cada vez que o via. Mas quando ele tocava. Quando ele tocava, reis magos pegavam a estrada. Princesas exóticas e longínquas eram tomadas de languidez em seus palácios de areia. Até a sra. Rothenberg, uma sombra murcha que cheirava a pétalas e naftalina, voltava a ser a rainha do verão que ele havia seduzido, sessenta anos antes, sob uma nogueira em flor.”
“O ódio, como a oração, se alimenta de silêncio.”
Jean-Baptiste Andrea
Tenho outro senão: Joseph Marty passa muito tempo sem tocar piano. Como, sem treino algum, sem qualquer dedicação de horas diárias de ensaio, ele consegue tocar com tanta perfeição? Quem é capaz de pegar e largar qualquer instrumento musical, e fazer uma performance como se tempo algum houvesse passado?
Este livro não me tocou. Não me emocionou. Não é ruim. Tenho certeza de que muitos leitores não foram expostos a tantos personagens órfãos. De fato, interessante notar que hoje há muito menos órfãos no mundo do que havia no passado, graças às descobertas médicas e ao cuidado com prevenção de doenças que temos. Acho uma história romântica para corações que gostam de se sensibilizar. É um livro de passagem. Os personagens adolescentes passam por situações que eventualmente os tornam adultos. Mas, francamente, achei o tema, o assunto, na fronteira com o lugar-comum. Duas estrelas de cinco.