Leituras de 2022: Querida Konbini, Sayaka Murata, resenha

25 01 2022

Insônia, 2004

William Crain (EUA, contemporâneo)

Sayaka Murata ganhou o prestigiado Prêmio Akutagawa em 2016, por Querida Konbini.  Ela está hoje entre escritores mais celebrados do Japão. O Prêmio Akutagawa, é dado duas vezes ao ano [janeiro e julho], a jovens escritores com histórias de sério valor literário, publicadas em jornal ou revista.  Este é  dos prêmios literários mais cobiçados do país. Querida Konbini, traduzido no Brasil por Ruth Kohl, foi um grande sucesso no Japão principalmente por sua feroz crítica às expectativas sociais sobre a vida cada cidadão.

Esta é a história de Keiko Furukura uma jovem nascida nas proximidades de Tóquio com dificuldades de compreender normas sociais.  Portanto, para sobreviver sem criar polêmica, passa a vida limitando seu comportamento às regras que percebe serem importantes, imitando pessoas  à sua volta.  Por isso parece sempre reagir de maneira esperada e correta.  Imita as vozes, a maneira de falar, a entonação, o modo de vestir das colegas de trabalho ou das amigas até se sentir completamente inserida no grupo social ao qual pretende pertencer.  Trabalha numa Konbini, loja de  conveniência, seu porto seguro, num emprego temporário que consegue aos dezoito anos, estudante universitária, e que ainda mantém na abertura do livro, dezoito anos mais tarde, para incredulidade de todos. Colegas de trabalho e familiares não entendem o motivo de Keiko não procurar trabalho mais seguro, ou “verdadeiro”.

Querida Konbini é uma sátira à sociedade japonesa, sobretudo às expectativas sobre as mulheres: casar e ter filhos sendo considerado uma obrigação de qualquer pessoa normal.  Em segundo plano, estão também fortemente criticadas, as expectativas que a sociedade tem sobre o comportamento dentro de um relacionamento entre um homem e uma mulher.  Neste ambiente Keiko Furukura, que percebe precisar de um marido ou de um interesse sexual, para melhor se inserir no mundo, persegue um relacionamento com um jovem, Shiraha, também revoltado com o papel social que lhe cabe. As consequências para ela, são incompreensíveis e inesperadas.

A revolta de Shiraha, pode ser exemplificada na seguinte passagem:

” — Li muitos livros de história para ver se descobria desde quando o mundo é errado desse jeito. Li sobre o período Meiji, no século XIX, sobre o período Edo, cheguei até Heian, há mais de mil anos, e o mundo já era errado. Mesmo no período Jomon, na pré-história! … Foi aí que eu compreendi. O mundo em que vivemos hoje não mudou desde aqueles tempos. Quem não contribui para a aldeia é eliminado. Os homens que não caçam, as mulheres que não têm filhos… As pessoas falam muito sobre a sociedade moderna, o individualismo, mas se alguém não se esforça para ser parte da aldeia é estorvado e pressionado por todo mundo e, no fim das contas, acaba expulso.” [87]

Sayaka Murata

 

Esta é uma narrativa direta, clara.  As situações em que Keiko se encontra são frequentemente cômicas para o leitor, ainda que agonizantes para nossa heroína. Aprecio finais abertos ou suspensos, no entanto, o desfecho do livro me deixou insatisfeita.  Completamente seduzida por essa moça, que muitas vezes parece ter reações tão pré-programadas quanto um robô, gostaria de ter tido certeza de um futuro melhor assegurado para ela.  Mas talvez esse seja o verdadeiro objetivo da narrativa, pessoas como Furukura ou Shiraha não mereçam um futuro tranquilo; como não o teriam tampouco no período Jomon, ou na pré-história do Japão que Shiraha tão bem pesquisou. 

Boa leitura, entretenimento que nos faz refletir.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





São Paulo, o coração do Brasil! 468 anos!

25 01 2022

Igreja do largo de São Francisco, SP, 1974

Antônio E. Schlobach de Lemos Britto (Brasil, século XX)

óleo sobre madeira, 49 x 37cm

 

 





Curiosidade literária

25 01 2022

Menina na cadeira, 1879

Erik Theodor Werenskiold (Noruega, 1855-1938)

óleo sobre tela

 

 

 

Dizem que Dante tinha uma memória extraordinária.  Quando começou a ficar conhecido em Florença, era sempre seguido por um pequeno grupo de pessoas enquanto andando pela cidade.  Um dia, um desconhecido lhe perguntou, à queima roupa: “Qual é a comida mais deliciosa do mundo?”  E sem parar para reconhecer seu interlocutor, Dante respondeu: “O ovo.”

No ano seguinte, o mesmo homem se encontrou com Dante de novo, na mesma rua e perguntou: “Com que?” Dante respondeu imediatamente (sem pensar no episódio do ano anterior): “Com sal.”

 

Fonte: site italiano de culinária, Taccuini Storici.