Ânfora com flores, 1941
Leopoldo Gotuzzo (Brasil, 1887 – 1983)
óleo sobre madeira, 31 x 35 cm
Autorretrato, 1898
Frank W. Benson (EUA, 1868-1951)
óleo sobre tela, 53 x 43 cm
National Academy of Design, NY
Cajueiro, 2016
Feliciano dos Prazeres (Brasil, 1978)
acrílica sobre eucatex, 70 x 94 cm
O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações da minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás da casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.
Eu me lembro do outro cajueiro que era menor, e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá-manga. da grande touceira de espada-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente de “tala”) e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda a meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, “beijos”, violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado da casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.
No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.
A carta de minha mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa. Diz que passou o dia abatida, pensando em nossa mãe, em nosso pai, em nossos irmãos que já morreram. Diz que seus filhos pequenos se assustaram; mas depois foram brincar nos galhos tombados.
Foi agora, em setembro. Estava carregado de flores.
Em: Histórias do homem rouco, Rubem Braga, Rio de Janeiro, O Dia Livros: 1998, apresentação de Ary Carvalho, pp: 57-8.
Leitura, 1912
Henrik Lunde (Noruega, 1879-1935)
óleo sobre tela
Soren Kierkegaard

A saudade é simplesmente
Um claro espelho encantado;
mira-se nele o presente
e ele reflete o passado.
(Geralda Armond)
Ipê roxo no meio da avenida Orozimbo Maia, Campinas
Helena Ohashi (Brasil, 1897 – 1966)
óleo sobre tela, 30 X 40 cm
Alegoria da África,1834
[Da série, Alegorias dos Quatro Continentes]
François Dubois (França, 1790-1871)
óleo sobre tela, 80 x 201 cm
Manoel Antônio Álvares de Azevedo Sobrinho
A noite, novamente, reaparece
E sopra pela costa o rijo vento.
O vento abrasador no ocaso,
Soluça o verde mar como um lamento.
Validê tem o olhar no firmamento
Enquanto Allah recebe sua prece…
E nos seus olhos úmidos, parece,
Paira a saudade como o pensamento.
Caminha a caravana no deserto,
Sobre os negros cavalos estafados,
Sem oásis avistar distante ou perto…
E a moça relembrando o amor que sente,
O ardente pranto dos apaixonados,
Triste, derrama sobre a areia ardente!
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, pp. 213-14.