Autorretrato com cavalete, 1892
Louis Anquetin (França, 1861-1932)
óleo sobre tela, 22 x 15 cm
Autorretrato com cavalete, 1892
Louis Anquetin (França, 1861-1932)
óleo sobre tela, 22 x 15 cm
Natureza morta
Fernando P. (Brasil, 1917- 2005)
óleo sobre tela, 81 x 65 cm
Cartão postal, menino napolitano com senhor músico.
Seria muito fácil brincar com o título do livro de Domenino Starnone, notando que depois de Assombrações, [tradução de Maurício Santana Dias] não conseguimos escapar das fugidias memórias que nos assombram depois a leitura. Obra certa, na hora certa? Talvez. Faz mais de um ano e vira-volta eu me encontro pensando numa ou noutra imagem que ele me proporcionou.
A história é simples. Um desenhista, ilustrador de livros, Daniele Malarico, de setenta anos, deixa Milão onde mora, no norte da Itália, para passar um fim de semana em Nápoles, sua cidade natal. Vai com uma tarefa: cuidar do neto, Mario. Filha e genro não estão disponíveis e têm um casamento em perigo. A tarefa não lhe agrada, mas sente um quê de responsabilidade, ou sua filha não poderia tê-lo convencido a fazer isso. A perspectiva de rever a casa onde cresceu, que é agora habitada pela filha, marido e neto, não é sedutora; deixou-a para trás há muito tempo.

Lá pela década de quarenta do século passado Thomas Wolfe avisava You can’t go home again. O lugar onde crescemos e vivemos nos primeiros anos de vida, não é o mesmo que carregamos dentro de nós adultos. Nunca foi. Nunca será. O que dele lembramos não é o que outros veem, não é o que muitos percebem. O contraste entre o homem de hoje e o de ontem traz lembranças que assustam, assombrações que nos mantêm desconfortáveis.
Daniele visita a casa natal depois de passar a vida tentando esquecê-la e os segredos que ali viviam. Ambição, criatividade e a inevitável vontade de ser o que acredita ser seu destino o levaram para longe e para a sublimação do passado. Simultaneamente está se tornando consciente a cada dia da velhice, do corpo que não mais reflete o que foi, o adulto de sucesso. Num fim de semana, confinado na casa da infância contempla no neto, menino irritante e importuno, sua própria infância. Há que confrontar finalmente o menino que foi e que traz dentro de si. Há que confrontar os fantasmas do passado. As assombrações que o aterrorizam.
“…Depois aquela fase passou, mas agora eu tinha mais mortos na memória do que na infância — quantos conhecidos e amigos meus haviam partido depois de terríveis doenças –, e mesmo as angústias se centuplicaram, tanto que às vezes, em Milão, eu acordava de chofre, certo de que ladrões e assassinos estavam na minha casa, e perambulava insone pelos cômodos, estremecendo quando um reflexo de luz projetava na parede a folhagem móvel das árvores do pátio como se fosse uma presença feroz. O que é que me preocupa — disse a mim mesmo — mais do que ansioso, eu deveria estar melancólico: já vivi grande parte da vida e agora eu mesmo me aproximo da hora da morte, caberá a Mario me descobrir atrás de uma porta ou nos cantos escuros da casa. Quantas aparências o cérebro era capaz de por em órbita com seu circuito de emoções. O menino não tinha medo do escuro, mas, depois daquele nosso convívio, talvez ele temesse minhas aparições.” [88]
Domenico Starnone
Em Assombrações Daniele Malarico trabalha nas ilustrações de um conto de Henry James, The Jolly Corner. No final do livro acompanhamos as notas que Danielle faz para si mesmo, uma espécie de diário das ilustrações, das considerações que faz ao longo do trabalho. No entanto, não ficamos sabendo do conteúdo da obra ilustrada. Não é gratuita aparição deste conto de Henry James. The Jolly Corner é uma das histórias de fantasmas mais conhecidas de Henry James. Ela descreve a visita que um homem faz à sua casa natal em Nova York depois de trinta e três anos de ausência. Ao visitá-la pondera sobre a escolha profissional que fez, e é obrigado a considerar quem poderia ter sido, caso tivesse escolhido outro destino.
Sutil, este pequeno romance, com menos de duzentas páginas, é rico em sabedoria. Numa quase meditação é uma obra que fica entranhada na alma do leitor. Bela prosa e desenvolvimento do tema. Vale a leitura.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

O tempo passa depressa,
corre mais do que as lembranças,
mas sempre traz a promessa:
renovem-se as esperanças!
(Olga Regina de Oliveira)
O comício
Benedito José de Andrade (Brasil, 1906 – 1979)
óleo sobre tela, 119 x 79 cm
Jarro com flores, lavanda e margaridas amarelas
Domingos Gemelli (Brasil, 1903 – 1985)
óleo sobre tela, 70 x 55 cm
Dois irmãos e Pedra da Gávea, 1964
Aldo Bonadei (Brasil, 1906 – 1974)
óleo sobre tela, 60 X 77 cm
Armadilha noturna
Jack Vettriano (Escócia, 1951)
óleo sobre tela, 40 x 30 cm
Cheguei a me surpreender avaliando em quatro estrelas este livro. É nota alta. Apesar de uma dezena de problemas Os segredos que guardamos de Lara Prescott, traduzido por Alessandra Esteche, tem pontos de interesse que pesam a favor no balanço final. Seguimos duas mulheres: Irina Drozdov, jovem americana, filha de imigrantes russos que inicia a vida profissional, nos anos 50 do século passado, como datilógrafa na CIA e acaba tornando-se agente secreta; e Olga Vsevolodovna Invinskaya, dedicada amante do escritor russo Boris Pasternak, que serviu de musa para Lara, personagem principal do livro Doutor Jivago ao longo dos treze anos em que foram amigos e amantes.
Fluente em russo, Irina chama atenção de seus superiores que a escolhem para trabalhar como agente secreta. Ela é treinada e eventualmente participa de uma operação secreta americana que leva ao publico russo a obra de Pasternak que havia sido proibida pelo governo da União Soviética de ser publicada, pois oferecia ao leitor críticas ao sistema imposto na Rússia sob domínio comunista.
Seguimos a vida de Olga Invinskaya do momento em que vai para prisão por se associar a Pasternak e não ceder ao inquérito governamental sobre o conteúdo do romance que seu amante escrevia. Trabalhos forçados em Gulag por ser presa política dão fim a três anos de sua vida. Na volta para casa, Olga retoma o caso de amor com Boris.

Lara Prescott nos dá uma breve biografia do escritor Boris Pasternak e mostra a importância que essa obra, que eu só conheço pelo cinema, teve para o próprio autor. Acompanhar o caso amoroso que mantém com Olga nem sempre conta a favor de Pasternak, e me lembrou que devemos simplesmente julgar a obra e nunca seu autor. Falta a ele comprometimento para com a mulher amada, mesmo tendo sido Olga a grande paixão de sua vida. Mas, por outro lado, escreveu o livro que o levou ao Prêmio Nobel em 1958, e ao aplauso internacional, mesmo obrigado pelo regime comunista a recusar o prêmio.
Além desses temas há a narrativa de espionagem internacional feita por mulheres, tema que aparece mais assíduo na literatura contemporânea de entretenimento, principalmente depois do best-seller O tempo entre costuras, de Maria Dueñas, que abriu o caminho para outros sucessos. Mantendo-se no campo das novidades: esta é ficção que aborda, levemente, a discriminação contra o homossexualismo na CIA assim como possivelmente nos outros conhecidos serviços de espionagem. como o britânico MI6. Este é o segundo romance que leio este ano que aborda o tema do amor lésbico. Interessante reviravolta na produção literária de vasto consumo.
Lara Prescott
Tive dificuldade de seguir as vozes narrativas de cada capítulo narrado na primeira voz. Nem sempre fica claro na primeira metade do livro cuja vida estamos seguindo. Maior número de situações de espionagem poderia aumentar o interesse na narrativa que se apega demais à biografia de Pasternak.
A leitura é rápida. Pequenos capítulos. Biografia, ação, romance. Surpresas. Poderia ir mais a fundo. Faltou suspense, o tema pedia. Acaba abruptamente como se o interesse da autora fosse cobrir uma única ação de subversão do comunismo através da cultura, como planejara a CIA. Outras ações mencionadas não dão sustância ao tema de espionagem. Como romance histórico deixa a desejar. Finais fechados. Livro pronto para a grande audiência de entretenimento com um aceno aos temas da atualidade.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.