Vaso e frutas: abacaxi, bananas, limões e mangas, 1895
Pedro Alexandrino (Brasil, 1856 -1942)
óleo sobre tela
Vaso e frutas: abacaxi, bananas, limões e mangas, 1895
Pedro Alexandrino (Brasil, 1856 -1942)
óleo sobre tela
Mongóis em conflito, século XIV
Rashid-ad-Din’s Gami’ at-tawarih. Tabriz (?)
Diez A fol. 70, p. 58.
Aquarela sobre papel, 21x 26 cm
Staatsbibliothek Berlin, Orientabteilung
Há alguns anos Rosa Montero se tornou uma de minhas escritoras favoritas. O coração do tártaro, publicado pela Nova Fronteira em 2013, é o quinto romance da autora que leio. A louca da casa, A história do rei transparente, Te tratarei como uma rainha, Instruções para salvar o mundo, além de dois livros de não ficção: Muitas coisas que perguntei e algumas que disse e Histórias de mulheres precederam esta leitura. E ela consegue surpreender. Sempre. Li o livro há dois meses. Mas minha opinião precisava se cristalizar. Inicialmente pensei ser a mais simples história de R. Montero, mas mudei de opinião.
Rosa Montero não é uma estilista da língua. Não encontramos em seus livros figuras de linguagem, nem escolha de imagens poéticas. Há, em seu lugar, uma voz narrativa forte, baseada no idioma do dia a dia, enunciada de maneira franca, com economia. A exposição é direta e o ritmo importante. O que deslumbra seus leitores é o que ela nos faz imaginar, o que ela nos revela para considerarmos. Trama. Histórias dentro de histórias, em geral autorreflexivas. Aí vemos a riqueza do que nos foi apresentado, o cabedal de recursos imaginários que nos confronta, a exuberante criatividade. É difícil dizer, nessas circunstâncias de qual livro mais gosto. São todos tão diferentes! Mas sem dúvida, A louca da casa e A história do Rei Transparente estavam ombro a ombro entre os melhores do grupo e agora, O coração do tártaro coloco junto a eles, formando esse corpo literário de três cabeças, este Cérbero guardando a porta para o mundo imaginário, para o submundo de que suas obras são feitas, universo onírico de pesadelos que acabam com esperança, atravessando nossas almas, toda vez que nos enterramos na ficção da autora.
O coração do tártaro retrata o dia de uma mulher de 36 anos, Sofia Zarzamala, que trabalha com manuscritos medievais e que ao receber de manhã cedo um telefonema ameaçador de alguém que a procurava, ao ouvir a voz do outro lado entra em alerta total e em poucos minutos muda o rumo de sua vida. Foge. Ela sabia que este dia viria e precisa agir. Toda trama se passa nas vinte e quatro horas seguintes. Zarza, foge do irmão gêmeo, Nicolas um gangster, que tem bons motivos para persegui-la. A fuga a leva a lugares do passado e assim vamos conhecendo os motivos dessa perseguição. Vinda de família completamente disfuncional, Zarza e Nicolas têm ainda dois irmãos, Martina, que de todos é a que parece ter a vida mais normal e Miguel, um menino autista, mas um gênio no cubo de Rubick, que Zarza e Nicolas colocaram num sanatório. Zarza e Nicolas cometem todo tipo de ofensas em troca da heroína em haviam se viciado e com isso prejudicam até mesmo o irmão caçula. A mãe desses quatro irmãos morreu de causa desconhecida, talvez suicídio, talvez assassinada pelo marido; e o pai, figura gigantesca na imaginação e na presença malévola que tem neste lar, é um homem descontrolado que abusa dos filhos, destruindo suas vidas de maneira tão arrasadora que é comparado por Zarza, a Gengis Khan, o imperador mongol que destruía tudo que encontrava.
É este passado de sofrimento, de abuso do pai, que desapareceu subitamente, que também a persegue. Ao fugir do irmão, ela se lembra dele e reavalia ações do passado distante com a família e do passado recente da Rainha Branca, a heroína que a manteve cativa. Lembra-se Urbano o modesto carpinteiro que a retirou da prostituição e de como o tratou de maneira que precisava se redimir. Enfim, Zarza passa a limpo o passado, talvez pela última vez.

Neste meio tempo somos apresentados a um conto medieval atribuído a Chrétien de Troyes, conhecido poeta e trovador francês do século XII. Há cinco grandes poemas de sua autoria: Érec e Énide, Cligès, Lancelote: o Cavaleiro da Carreta, Ivain: o Cavaleiro do Leão, Perceval ou le Conte du Graal [inacabado], todos cobrindo de 1170 a 1190. E há um grande número de obras atribuídas a ele. E é aí nesta fissura do nosso conhecimento que Rosa Montero trabalha um conto, escrito por ela, mas com todas as características do que era escrito no século XII, que espelha a trama de O coração do tártaro. Primeiro Montero nos diz que a obra é de Chrétien de Troyes, atribuída por dois dos maiores medievalistas contemporâneos. Mas essa história é de Rosa Montero. Como ela vai misturar realidade e fantasia e ainda mencionar conhecidos intelectuais? Ela provoca. Faz com que acreditemos neste possível conto, avalizado por Le Goff e Harris (conhecidos historiadores do período medieval) só para no final, colocar dúvida de novo na autoria. É uma maneira astuta de evitar qualquer problema jurídico e ao mesmo tempo dar valor à sua criação.
Rosa Montero
Mas este livro se coloca entre os mais interessantes de Rosa Montero também pelo variado uso do espelhar de histórias, de personagens e situações, até mesmo transcendendo o tempo. Este espelhar, chamado em geral de Doppelgänger, do alemão, ou seja, o outro igual ao que se apresenta, está muito bem distribuído e elaborado na trama, enriquecendo o contexto, fixando no leitor as experiências vividas na leitura. Nem sempre o duplo é tão óbvio quanto no maravilhoso Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou trabalhado de maneira mais disfarçada como em O duplo, de Dostoiévski, por exemplo. Exemplos não faltam na literatura e no folclore europeu. Mas eu ainda não tinha me encontrado com “o duplo” em tantos níveis: Zarza e Nicolas, Nicolas e o pai, o presente e o conto medieval entre outros.
Além dessas observações é preciso notar que Rosa Montero parece estar sempre trafegando nas zonas sombrias das emoções. Seus personagens existem no submundo. Não só o submundo social, mas o submundo arquétipo como definiu Carl Jung, aquele vestíbulo da mente, dos segredos que carregamos, a porta de entrada para o inconsciente. Este submundo é sombrio. É melancólico e repleto de desespero. Aqui, em O coração do tártaro, como aconteceu em Te tratarei como uma rainha e Instruções para salvar o mundo também seus personagens enevoados não pertencem ao universo solar. Há penumbra e solidão. O familiar desespero que encontramos em obras anteriores de Rosa Montero também permeia esta trama. No entanto, como sempre, saímos da leitura com uma nesga de esperança, com um tanto de fé, nutrindo a fantasia de melhores tempos. Talvez seja por isso que suas obras sejam tão bem aceitas. Assim como esta, elas “quase” acabam bem. É incerto, como a vida. Recomendo a leitura.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Festa junina
Papas Stéfanos (Grécia/Brasil, 1948)
óleo sobre madeira, 8- x 60 cm
Cornélio Pires
No casarão antigo da Fazenda,
tudo é jogos, brinquedos e festança:
na varanda do lado jogam prenda
e no salão o baile não descansa;
A fogueira, tão célebre na lenda,
estala em labaredas. Canta e dança,
o povo do batuque, na contenda,
aos pulos e aos requebros da folgança.
No cururu manhoso a caboclada,
rasca nas violas, canta ao desafio,
provocando constante gargalhada,
Depois, das diversões cortando o fio,
o povo em procissão, de madrugada,
vai lavar o São João, além, no rio.
Cornélio Pires (Brasil, 1884 — 1958).
Morada, s/d
Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)
óleo sobre tela
Flores
Reynaldo Manzke (Brasil, 1906 – 1980)
óleo sobre tela, 18 x 24 cm
Largo do Boticário, 1940
Georges Wambach (Bélgica/Brasil, 1901 – 1965)
óleo sobre tela, 45 x 72 cm
Ilustração, A. E. Marty
Meu lenço, na despedida,
tu não viste, em movimento:
lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento.
(Carlos Guimarães)
Maçã, 1968
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 22 x 16 cm
Anunciação
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela
Perdemos no Brasil, um dos nossos maiores pintores do século XX. Reynaldo Fonseca, nascido em 1925, faleceu hoje aos 94 anos. Pintor único, que não se deixou levar por modismos e que não negou a influência clássica que o orientou através do mundo misterioso que construiu. Pintor figurativo conseguiu se apoderar do silêncio para rodear suas imagens. Silêncio no gesto demorado que todos parecem ter. O gesto congelado, pesado, imutável. Sua obra é repleta de poesia. É meditativa. Com ele fomos obrigados a refletir sobre o mundo que nos rodeia. Em cada obra, um momento de pausa. Um momento de autoconhecimento. Um pintor, que lidando com a tela plana, nos levou a considerar as profundezas da alma. Acredito as artes plásticas brasileiras estejam de luto. Perdemos um GRANDE pintor.
Mulher bordando, 1969
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 46 x 38 cm
Estendendo lençóis, 1977
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925-2019)
óleo sobre tela, 81x 100cm
O Cachorro, 2003
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
Óleo sobre tela, 81 x 100 cm
Menina com bambolê, 1975
Reynaldo Fonseca (1925 – 2019)
nanquim sobre papel, 14 x 19 cm
Duas figuras, 2005
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
O Silêncio, 1976
Reynaldo Fonseca (Brasil 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 22 X 16 cm
Moça deitada, 1961
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
guache sobre papel, 15 x 20 cm
Col. Gilberto Chauteaubriand
Mulher com abano, 1997
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela
Afeto, 1993
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 100 x 81 cm
Menina no espelho, 1968
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 100 x 81 cm
Menina com maçã, 1974
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 -2019)
óleo sobre tela, 75 x 60 cm
Menina, 1956
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
técnica mista sobre papel, 48 x 31 cm
Figura feminina, 2008
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 0- 2019)
óleo sobre tela 46 x 38 cm
O Menino com Coelho, 1977
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)]
óleo s chapa de madeira industrializada, 22 x 16 cm
Menino, 1979
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 38 x 46 cm
Figura, 1984
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 -2019)
óleo sobre tela, 45 x 36 cm
O Menino e a borboleta, 2008
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
Menino, 1973
Reynaldo Fonseca (1925 – 2019)
óleo sobre cartão, 31 x 23 cm
Escola de dança, 1976
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 – 2019)
Óleo sobre tela, 81 X 100 cm
Janela para o mar, 2002.
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 -2019)
óleo sobre tela, 120 x 152 cm
Moringa e fruta, 1970
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 -2019)
óleo sobre tela, 54 x 73 cm
Vaso de flores, 1953
Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925 -2019)
técnica mista, óleo sobre cartão, 63 x 49cm
Cena Urbana na Praça João Lisboa em São Luiz -Maranhão
Raul Deveza ( Brasil, 1891 – 1952)
óleo sobre tela, 53 x 45 cm